VIVER NA SOMBRA

VIVER NA SOMBRA

(27/01/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

 

A vida dos vegetais é a luz solar. O crescimento das plantas na floresta responde a uma estratégia de competição pela luz. No chão das florestas tropicais, uma infinidade de pequenas plantas e arbustos não tem como elevar-se até a copa das árvores ou o dossel em busca da luz solar. Ao longo do tempo, essas espécies – conhecidas como plantas ciáfilas (amantes da sombra) – desenvolveram diversas adaptações morfológicas e fisiológicas para viver na obscuridade, longe dos raios solares.

O sub-bosque da floresta tropical é marcado pela luz difusa. Ao contrário do que ocorre na copa das árvores, não existe uma direção privilegiada e incidente dos raios luminosos. Com exceção de alguma flecha de luz atravessando as copas das árvores, durante um tempo breve de deslocamento do sol e sobre uma área limitada, os raios de luz difundem-se em todos os sentidos. A luz do sub-bosque é tênue, ligeiramente azulada e não projeta sombras.

Uma floresta não é um objeto ou um ser, mas um processo. Uma complexa interação de processos ecológicos. As folhas são órgãos óticos dos vegetais. E as plantas ciáfilas têm estratégias verdes e astuciosas diante das variações e da escassez da luz no sub-bosque.

 

Adaptações estruturais

 

A primeira das adaptações está no tamanho das folhas. No dossel, num ambiente marcado pela abundância de luz e de vento, a transpiração é mais difícil, falta água e as plantas adaptam-se diminuindo o tamanho das folhas e revestindo-as de cutículas protetoras. No sub-bosque é o contrário. A atmosfera é fresca e saturada de vapor de água. As plantas recorrem menos à transpiração para controlar a sua temperatura. O ambiente é mais rico em gás carbônico e tem uma concentração menor de oxigênio. O ritmo da fotossíntese na sombra, próximo ao solo, é 10% o da velocidade em plena luz, mas muito eficiente devido à disponibilidade de água, à ausência de vento, às temperaturas amenas e à proximidade dos nutrientes, que não necessitam ser transportados por dezenas de metros em altura, como no caso das árvores, por exemplo. Esses fatores facilitam a transpiração das plantas, a troca de gases com a atmosfera e a eficiência da fotossíntese.

 

Adaptações mecânicas

 

A forma das folhas apresenta adaptações mecânicas como no caso das aráceas, a família dos antúrios e dos filodendros, conhecidas por suas plantas ornamentais como o comigo-ninguém-pode e o copo-de-leite ou comestíveis, como o inhame. Suas folhas são pecioladas , grandes, coriáceas, inteiras ou recortadas ou lobadas. Elas são exceções entre as monocotiledôneas , quanto ao formato e nervação e por apresentar uma coloração distinta nas duas faces. Para manter suas grandes folhas paralelas ao solo, aumentando a chance de captar a luz solar, essas plantas desenvolveram uma espécie de gangorra.

A inserção da haste da folha fica próxima ao centro de gravidade da mesma, ao invés de situar-se numa extremidade. Duas “orelhas” projetam-se no sentido oposto a essa inserção e, como um balancim, ajudam a equilibrar a folha na posição horizontal durante o dia. As nervuras também possuem um desenho que contribui na sustentação da folha. Esse posicionamento é controlado também pela atividade da planta e muitas espécies deixam as folhas “caírem” ou ficarem na vertical em direção ao solo durante a noite. (ILUSTRAÇÃO 1)

Trepadeiras, ancoradas nos troncos das árvores, têm mais facilidade em manter as folhas paralelas ao solo. É como se suas folhas estivessem presas ao tronco e não ao seu caule flexível. Essas folhas vão diminuindo de tamanho na medida em que a trepadeira ganha altura e recebe mais luz.

 

Adaptações fisiológicas

 

As plantas são verdes por refletirem essa fração da multicolorida luz solar. Paradoxalmente, elas ‘não gostam’ do verde e o devolvem durante a fotossíntese. Nas células vegetais existem dois tipos de clorofila: a e b. A clorofila a ocorre em todos os organismos clorofilados (plantas, protistas e algas). Ela possui cor verde-azulada e absorve a luz na região próxima ao azul e ao violeta. A clorofila b é considerada um pigmento acessório, juntamente com os carotenóides. Na maioria das plantas, mais de 70% da clorofila são do tipo A.

No sub-bosque da floresta, diante da escassez de luz, grande parte da gama da radiação luminosa é utilizada, incluindo o verde. Há plantas roxas, vermelho-escuras ou quase negras. Elas absorvem e utilizam quase todo espectro luminoso graças à clorofila b. É comum a face inferior das folhas, voltada para o solo, ser de cor roxa escura, quase negra, por absorver toda a luz disponível. As plantas de sombra possuem maior quantidade de clorofila b em relação à a. A clorofila b não faz fotossíntese. Após absorver luz, ela transfere para a clorofila a toda energia captada para que esta faça a conversão.

As plantas de sombra possuem muita clorofila. Algumas folhas devoram toda a luz visível e brilham em tons metálicos, próximos do ultravioleta. Essas plantas azuladas – cujas tonalidades persistem em plantas secas e colhidas – possuem uma estrutura (orientação das microfibrilhas da celulose) que funciona como um filtro de interferência. O fenômeno é parecido com o que ocorre com uma mancha de óleo na água. A cor violeta impede a refração da luz e ajuda na sua absorção para a fotossíntese. É como um anti-filtro solar.

 

Adaptações morfológicas

 

Várias plantas e arbustos próximos ao chão, para aumentarem as chances de captar os pequenos raios luminosos da luz difusa, apresentam folhas aveludadas. Graças a essa adaptação morfológica, as folhas ampliam sua superfície de captação da energia solar e funcionam como armadilhas de luz difusa (ILUSTRAÇÃO 2). Esse tipo de folhas é característico da família das begônias e são o seu maior atrativo como plantas ornamentais.

A sofisticação desse sistema ótico de captação da luz difusa multidirecional é enorme. Observadas em detalhe, algumas dessas superfícies aveludadas apresentam-se como se fossem recobertas por múltiplas bolhas. Essas superfícies côncavas funcionam como lupas: captam a luz difusa e a concentram num ponto no interior das células da folha (parênquima paliçádico), perpendiculares à superfície. Nesses casos, os cloroplastos, responsáveis pela fotossíntese, grupam-se nesse ponto focal da lupa, ao invés de estarem dispersos em todo o citoplasma da célula, como ocorre na maioria das plantas (ILUSTRAÇÃO 3). Além disso, há pouco espaço entre as células do parênquima paliçádico nas folhas das plantas de sombra o que reduz a reflexão a difusão dos gases e aumenta a eficiência da fotossíntese.

A forma de rim, pouco comum, das folhas das begônias também é uma adaptação mecânica. Elas são extremamente coloridas, variando do bronze quase negro ao rosado e vermelho. Muitas plantas de sub-bosque apresentam essas variações de cores e também folhas prateadas ou brancas, com pintas, estrias e manchas de verde alternadas com o branco e outras cores. Trata-se de outra adaptação morfológica e fisiológica.

A região branca nas folhas possui pouca proteína, não é eficiente para a captação da luz, mas amplia a distribuição espacial do resto da folha. Isso aumenta a probabilidade de captar uma flecha de luz e seus reflexos na vizinhança. A mesma estratégia de adaptação aparece nas folhas recortadas, com furos no meio do seu labelo, como no caso da costela-de-adão e diversos filodendros. Isso também amplia o espaço ocupado pela folha, com um custo energético de manutenção bem menor.

No sub-bosque, na maior parte do tempo, as plantas vivem de poros (estômatos) abertos. Esses poros são mais abundantes na face inferior das folhas enquanto a face superior é lisa, recoberta por uma cutícula impermeável. Ela facilita o escorrimento das águas das chuvas, ajuda a lidar com a permanência de gotas d’água sobre as folhas e os possíveis ataques de fungos.

No chão da floresta, os sons agudos são absorvidos pela serrapilheira. Em meio às formas e tons coralinos dos arbustos, para o caminhante contemplativo, o sub-bosque da floresta, com sua luminosidade azulada, marinha e difusa, lembra um aquário.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Viver na Sombra. Terra da Gente, v. 1, p. 24-31, 2010.

 

 

 

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