UMA ILHA DE RARA BIODIVERSIDADE NO MEIO DO RIODE JANEIRO


(02/10/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

Pergunte a uma classe de maternal quem já foi ao zoológico e verá pelo menos metade das mãozinhas se erguerem. Pergunte a uma turma de vestibulandos quem já visitou um jardim botânico e terá sorte se encontrar alguém interessado em suas plantas. Mas nem sempre foi assim. A história dos jardins botânicos é repleta de disputas, espionagem, manobras políticas, roubos e mesmo guerras. Entre as espécies reunidas nessas verdadeiras ilhas de biodiversidade estão segredos de estado e lições de economia, de grande valor para muitas nações, inclusive as hoje industrializadas.

No Brasil, os primeiros jardins botânicos foram criados ainda no Século XVIII em Belém, Olinda, Vila Rica, Salvador e São Paulo. Eram tratados como jóias da coroa. O do Rio de Janeiro só foi criado após a chegada da família real, por ordem de D. João VI. O que poucos sabem é que, meses depois, ele recebeu uma grande coleção de raros e cobiçados vegetais diretamente de um dos maiores, mais secretos e protegidos jardins de plantas de então, situado na ilha Maurício, em pleno Oceano Índico. Algumas dessas plantas, hoje árvores veteranas, ainda permanecem em pé, testemunhas vivas de uma época pródiga em caçadores de especiarias e aventuras conduzidas pelos mestres dos mares.

O marco inicial dessa aventura de biopirataria e espionagem é 1809, quando os recursos de um senador português de Macau, aliados à astúcia de um intrépido chefe da Armada Real lusitana, trouxeram esse tesouro de biodiversidade da ilha Maurício para o recém criado Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Descoberta pelos portugueses em 1505, a ilha Maurício foi ocupada primeiro pelos holandeses, em 1638, e foi assim nomeada em honra ao príncipe Maurício de Nassau. Os franceses a renomearam Ilha de França sob o reinado de Luiz XV e a tornaram um ponto de apoio estratégico para sua marinha.

Seu primeiro governador, Mahé de La Bourdonnais, entre 1735 e 1746, estabeleceu sua residência num local chamado de Pamplemousses, o nome francês das toranjas ou pomelos. Na proximidade organizou um jardim onde se cultivaram frutas e legumes para abastecer barcos em escala na ilha. Graças ao botânico Pierre Poivre e ao apoio da Coroa Francesa, esse jardim tornou-se um dos mais célebres jardins botânicos reunindo parte da biodiversidade tropical dos quatro continentes.

O JARDIM DE PAMPLEMOUSSES, ÉDEN TROPICAL NA ILHA MAURÍCIO

Pierre Poivre foi um incansável “viajante filosófico”. Nascido em Lyon, em 1719, Poivre foi educado como seminarista. Estudou teologia nas Missões Estrangeiras em Paris, além de história natural. Aos 21 anos, antes de ser confirmado como missionário católico, viajou à Ásia para evangelizar as regiões de Cantão e Macau na China e Fai-Fo no Vietnã. No retorno à França, entre Sumatra e Bornéu, atacado por ingleses, teve sua mão direita arrancada por uma bala. Transferido ao navio britânico, ele suportou a dor uma noite inteira sem cuidados e teve seu braço amputado por gangrena. Isso encerrou sua carreira religiosa: um missionário não podia abençoar com a mão esquerda.

Chegando à Batávia (Jacarta), ele aproveitou a convalescença para estudar o comércio florescente de noz-moscada e cravo. Seus fardos perfumados eram armazenados em hangares de pedra, protegidos por arcabuzeiros. O negócio era a espinha dorsal do comércio dos Países Baixos, privilégio da Vereenigde Oostindische Compagnie, com seu controle das Molucas, a única terra do planeta produtora dessas jóias. A forca era o destino de quem roubasse mudas. Apesar da vigilância, Poivre conseguiu fugir com dezenove nozes-moscadas no forro da jaqueta. No caminho de volta, ele parou em Pondicherry, principal implantação francesa na Índia. As plantas não prosperaram.

Em 1746, ele navegou à Ilha de França com a idéia de acabar com o monopólio holandês das especiarias. Seus planos para introduzir noz-moscada, cravo e outras especiarias na Ilha de França, desenvolvendo essas culturas em larga escala, o levaram à França onde convenceu a Companhia Francesa das Índias Orientais dos méritos deste objetivo.

Ele retornou à Ilha de França em 1750, com mudas de moscadeiros e craveiros que entregou a Fusée-Aublet, diretor do jardim experimental da ilha. Nenhuma planta sobreviveu. Logo depois embarcou para as Molucas com a intenção de trazer mais especiarias. Chegou a Timor de onde retornou em 1753 com quinze plantas de noz-moscada, mapas e informações. Em 1754, o governador da Ilha de França, vencido pela obstinação de Poivre, disponibilizou uma pequena fragata. Enfrentando muitos perigos, o botânico teve êxito na obtenção de três mil frutos de noz-moscada e de outras plantas na região das Molucas. Quando todas essas plantas também morreram, uma sindicância apurou que o próprio Fusée-Aublet sabotava esse esforço chegando a mergulhar as sementes em água fervente por ciúmes e mesquinharia.

Adoentado e decepcionado, Poivre regressou à França em 1756, após uma longa escala em Madagascar para coleta de plantas nativas. Seu interesse pela botânica, agricultura, comércio e recursos do Extremo Oriente o tornaram uma celebridade das ciências naturais. Foi eleito membro da Academia de Ciências, Letras e Artes de Lyon. Publicou suas aventuras no livro Voyages d’un philosophe. Casou-se. Luiz XV o fez nobre e lhe concedeu a Ordem de Saint Michel.

Em 1766, foi nomeado Intendente da Ilha de França. Poivre lá desembarcou em 17 de julho 1767. Apesar de brigas e dificuldades com um governador de caráter difícil, ele retomou seu trabalho. Durante cinco anos organizou expedições para o Mar de Célebes, no Pacífico, trazendo mudas de especiarias e plantas exóticas, além de propiciar diversas trocas de espécies com a Guiana e Antilhas.

Em sua ousada obstinação, ele convenceu o rei Luiz XV a fretar dois navios – Étoile du Matin e Vigilant – para roubar dos holandeses os “preciosos vegetais para enriquecer a pátria”, aclimatando-os nas ilhas Mascarenhas e difundindo-os pelo mundo. O rei das ilhas de Banda nas Molucas cedeu as mudas em troca de móveis e vidrarias dos navios. Em junho de 1770, depois de muitas vicissitudes, os navios chegaram com 400 mudas de moscadeiras e 70 de craveiros.

Poivre adquiriu o Domaine de Monplaisir, antiga propriedade de Mahé de Bourdonnais. Foi o início do centro de aclimatação de espécies no bairro de Pamplemousses. Ali, ele acolheu o botânico Commerson da expedição do explorador Bougainville. Durante anos, os dois botânicos coletaram, herborizaram, classificaram, desenharam e plantaram nesse jardim. As coleções não paravam de aumentar com plantas vindas da África, Índia, Malásia, Polinésia, Indochina e das Américas.

Em 1772, o monopólio holandês das especiarias foi definitivamente quebrado. Os navios Necéssaire e Isle de France retornaram das Molucas com centenas mudas de cravo e milhares de noz-moscada. Poivre teve o cuidado de também introduzi-las nas ilhas de Madagascar, Reunião, Seychelles e na Guiana Francesa. A partir daí, as colônias francesas seriam capazes de competir com as Molucas.

Após cinco anos de governo, Poivre deixou a Ilha de França. Seis anos após a saída, durante uma recepção oficial em Monplaisir, Nicolas Cere, seu obstinado sucessor no Jardim de Pamplemousses, apresentou orgulhosamente “a primeira noz-moscada francesa”. O Jardim com mais de 600 espécies importadas dos quatro continentes, passou a ser um modelo e um objeto de cobiça.

Esse jardim botânico ainda permanece vivo na ilha Maurício, após dois séculos e meio, apesar das vicissitudes trazidas pela barbárie da revolução francesa, guerras napoleônicas, colonização britânica e de transformações pela independência da ilha em 1968. E de lá, em 1809, veio uma contribuição extraordinária à biodiversidade brasileira e ao recém nascido Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

A REAL REDE LUSO-BRASILEIRA DE JARDINS BOTÂNICOS

Como a França, a partir de 1760, a Coroa Portuguesa começou organizar uma rede voltada para a biodiversidade em seu espaço ultramarino. Ela envolvia pesquisa científica, expedições exploradoras, jardins e hortos botânicos, criação e manutenção de coleções, técnicas de cultivo e domesticação de plantas exóticas, controle de rotas e abastecimento de mercados consumidores em produtos agrícolas, com ênfase em espécies tropicais de interesse como especiarias e alimentos ou de uso farmacêutico, na construção civil, naval e na indústria. O Jardim Botânico da Ajuda, em Lisboa, cumpriu um papel de coordenação nessas coletas e estudos de plantas tropicais.

Na década de 1790, o Conde de Linhares, D. Rodrigo de Souza Coutinho, ministro da Marinha e Ultramar do príncipe regente D. João, obcecado pela biodiversidade, expediu reiteradas ordens e cartas para a constituição de jardins botânicos em todo império português. O Horto Público de São José foi instalado com sucesso em Belém, com quase duas centenas de plantas de interesse, provenientes da biodiversidade amazônica (baunilha, cacau, cravo-da-terra, copaibeira, seringueira, casca-preciosa…), da África e da Ásia. Parte dessas plantas foi furtivamente obtida do Jardim Botânico de Caiena, como a fruta-pão, o abacate e o cravo-da-índia.

Em uma carta ao Governador do Grão Pará, o conde de Linhares vaticinava: “Sua Majestade não só aprova (…) mas espera, que V. S. faça que esse Jardim sirva de modelo a todos os outros, que se devem estabelecer nas outras Capitanias do Brasil e que lhe dê uma extensão, que do mesmo possam ir para as outras Capitanias, as plantas exóticas e indígenas que V. S. tem cultivado”. Esse complexo desenvolveu-se com sucesso em Belém e passou a servir de modelo, com sua organização e seu catálogo de plantas, fornecendo mudas e sementes para a rede de jardins e hortos botânicos instalados em S. Paulo (onde hoje está o Jardim da Luz), Salvador, Goiás, Olinda, São Luiz e Vila Rica.

Com a chegada da família real ao Brasil, em 1808, a rede de jardins botânicos no território brasileiro ganhou força. Criou-se o Real Horto, hoje o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E com a tomada de Caiena na Guiana francesa, em 1809, Portugal ganhou a posse de um complexo agrícola formado pelo jardim de aclimação Habitation Royale des Épiceries, conhecido como La Gabrielle, pelo engenho de açúcar Habitation de Mont-Baduel, pelo viveiro-fazenda Habitation Tilsit e pela Fábrica de Madeiras de Nancibo.

O primeiro envio de espécies de Caiena para o Horto de Belém foi realizado ainda em 1809. Joseph Martin, administrador do La Gabrielle, assinou a lista de plantas e as instruções de plantio. No total, 82 espécies foram embarcadas. O Marques de Queluz, João Severiano Maciel da Costa, intendente-geral de Caiena, outro mestre de biodiversidade, organizou a transferência sistemática de mudas e sementes ao Brasil. Aos poucos, ele enviou a Belém todo o acervo do La Gabrielle, incluindo uma cana-de-açúcar até hoje conhecida como cana-caiana (ou seja, cana de Caiena).

A sorte soprava para o lado do Brasil nesta época: antes dessas primeiras remessas de Caiena chegarem ao Rio de Janeiro, via Belém, o Real Horto Botânico da Lagoa Rodrigo de Freitas recebeu um aporte inesperado e providencial de mudas e sementes. A origem? O maior e mais importante jardim botânico tropical, aquele mesmo, de Pamplemousses, na ilha Maurício.

A VENTURA BOTÂNICA DE LUIZ DE ABREU VIEIRA E SILVA

No dia 24 de maio de 1808, a nau portuguesa Conceição de Santo Antônio, carregada de mercadorias fazia rota de Goa, na Índia, para Lisboa quando foi atacada por franceses do navio Revenant, nas proximidades da atual região de Natal na África do Sul. Os portugueses haviam retirado cerca de 30 peças de artilharia da nau para ampliar a carga transportada. A luta foi intensa. Afinal, a tripulação portuguesa foi dominada, aprisionada e enviada para Ilha de França aonde chegaram um mês depois.

Entre o pessoal nobre e os oficiais da Armada Real portuguesa estavam o chefe de divisão Luiz de Abreu Vieira e Silva, o senador de Macau Raphael Bottado de Almeida e alguns oficiais da fragata “Princeza do Brasil” que naufragara à entrada de Goa. Sua condição hierárquica lhes garantiu certas regalias. Eles ficaram alojados na Maison Despeaux, num parque murado de cerca de dois hectares. A Ilha de França tornara-se famosa em toda Europa como um Éden tropical, um paraíso terrestre, graças ao romance Paulo e Virgínia de Bernardin de Saint Pierre.

Homem ilustrado, interessado por botânica, Luiz de Abreu conseguiu fazer visitas a diversas partes da ilha sob o argumento elogioso de desejar conhecer os locais descritos no romance francês Paulo e Virgínia. Nessas saídas furtivas conseguiu visitar o Jardim de Pamplemousses e todo o trabalho ali realizado na aclimatação de plantas. Ele então se uniu ao senador de Macau e elaboraram um plano para retirar e levar ao Brasil boa parte dos tesouros de biodiversidade reunidos naquele famoso jardim criado pelo botânico Pierre Poivre.

Em plena era napoleônica, a Ilha de França estava enfraquecida e isolada. Com diligência, segredos, recursos do senador de Macau e um provável pagamento de resgate, Luiz de Abreu “obteve do general Decaen, governador da ilha, armar à custa dos prisioneiros portugueses, um navio parlamentário que os conduziria ao Rio de Janeiro”, conforme relato de Francisco Solano Constâncio em sua “História do Brasil” de 1839. O termo naval “navio parlamentário” designa a embarcação que conduz quem vai parlamentar com o inimigo para apresentar proposta ou informação de interesse comum. Neste caso, os indicados para parlamentar com os portugueses eram os próprios lusitanos!

Luiz de Abreu obteve o navio, a libertação de 200 prisioneiros portugueses e ainda trouxe ao Brasil 20 caixotes com mudas e sementes de plantas de grande interesse! O destino do navio foi o Rio de Janeiro, agora a nova capital do Império português. A cabine de Luiz de Abreu foi transformada numa espécie de estufa vegetal. Ali, ele dedicava toda atenção e até parte de sua cota de água doce à manutenção das preciosas mudas que retirara heroicamente do Jardim de Pamplemousses.

Sua chegada ao Rio de Janeiro foi aclamada pelo Conde de Linhares. Ele comunicou a excelente notícia ao Príncipe Regente: o Real Horto, recém criado nas terras de um engenho, recebia providencialmente esse primeiro carregamento excepcional de plantas e sementes de grande interesse agrícola e comercial para iniciar da melhor forma possível suas atividades.

Naquele tempo, o botânico e frei José Mariano Veloso, outro mestre de biodiversidade, autor da Flora Fluminense relatou: “Luiz de Abreu, tendo obtido meios de fugir, conseguiu, afora de muitos perigos e grandes sacrifícios, apoderar-se de certo número de plantas que pode embarcar em caixotes e trazer para o Rio de Janeiro. Chegando, ofereceu-as a D. João, que as fez plantar no seu Real Horto. Foram as primeiras plantas aí introduzidas”.

A Coroa cumpriu os acertos feitos por Luiz de Abreu com os franceses e encaminhou a maioria das plantas para o Real Horto. Outras foram distribuídas entre fazendeiros e nobres da Corte, escolhidos com habilidade política por Luiz de Abreu e pelo Conde de Linhares. A carga incluía cânfora, cravo-da-índia, canela, noz-moscada, manga, lichia, cajá, abacate, acácias, nogueiras, abricós, frutas-pão e a famosa palmeira-imperial, que o próprio Príncipe Regente plantou no Jardim Botânico. A partir daí, a espécie ficaria conhecida como palmeira-imperial e o exemplar plantado como palma mater, assim denominado porque dele descendem as primeiras palmeiras-imperiais do Brasil.

A palma mater foi destruída por um raio em 1972, com quase 40 metros de altura. O tronco encontra-se no Museu Botânico. Em seu lugar foi plantado outro exemplar chamado de palma filia, oriunda de uma semente da palmeira original. A viagem dos genes dessa palmeira, como dos americanos abacates e cajás, fora enorme. Originária das Caraíbas, na América Central, a palmeira imperial foi aclimatada no Jardim La Gabrielle na Guiana, levada para o Oceano Índico pelos franceses para depois, graças a Luiz de Abreu, ser introduzida no Rio de Janeiro.

No ano seguinte à fuga de Luiz de Abreu com seus caixotes de plantas, o Jardim de Pamplemousses já estava em mãos inglesas e entrou em decadência. Mas as possessões portuguesas na Ásia e África também contribuíram com o envio de espécies vegetais ao Real Horto Botânico, por incentivo do Conde de Linhares. Luiz de Abreu acompanhou o sucesso do plantio das mudas e sementes que subtraíra aos franceses e articulou o envio de novas espécies da Ásia, principalmente mudas de chá.

CHINESES NA VISTA

O senador de Macau enviou da China as primeiras mudas de chá para o Real Horto Botânico. Assim relata frei Veloso em sua Flora Fluminensis: “Em 1812, sob insistentes pedidos do chefe de divisão Abreu, Raphael Bottado de Almeida, que o auxiliara na fuga, enviou de Macau, por intermédio do capitão-tenente Joaquim Epiphanio de Vasconcellos, comandante do brigue Vulcano, as primeiras sementes de chá…”. Sua aclimatação foi um sucesso. Em 1814, o Conde de Linhares mandou trazer de Macau um grupo de lavradores chineses, experimentados na cultura do chá, para dar dimensão comercial ao plantio. Uma gravura de Johann Rugendas “Plantation chinoise de thé dans le Jardin Botanique de Rio de Janeiro” retratou os chineses em trajes típicos trabalhando na plantação de chá.

O cultivo expandiu-se em direção à Lagoa Rodrigo de Freitas e às terras bem drenadas da Gávea. O local habitado pelos chineses, na parte mais alta, terminou conhecido como Vista Chinesa. Hoje, é um destacado ponto turístico do Rio de Janeiro e o maior monumento em homenagem a um país oriental na América Latina. Frequentada por um grande número de celebridades e turistas, a Vista Chinesa ganhou um prêmio na China como melhor portal chinês fora da China.

O cultivo do chá começou a ser comercializado e contribuiu ao conhecimento do Real Jardim entre a população. A plantação atingiu seis mil pés com até seis safras anuais. A produção interessou fazendeiros de Minas Gerais e São Paulo. Os paulistas também importaram lavradores chineses. As tentativas de exportação – um dos sonhos de Dom João VI que imaginava o chá mais promissor do que o café – fracassaram. No que pese a qualidade do chá produzido no Brasil, o monopólio inglês do comércio asiático do produto e sua competitividade inviabilizaram as exportações para a Europa.

O Alvará Real de 1 de março de 1811 referiu-se claramente ao estabelecimento de um “jardim botânico” em terras da Lagoa Rodrigo de Freitas: “estabelecimento de um jardim botânico da cultura em grande de plantas exóticas que mando se haja de formar na dita fazenda da Lagoa (…) promovendo a cultura das moscadeiras, alcanforeiras, cravos da Índia, canela, pimenta, e os cactos com a cochonilha; fazendo-se as necessárias experiências, para vir a conhecer-se o melhor meio de as cultivar e propagar, e de levar ao maior grau de perfeição possível a plantação dos bosques artificiais de madeiras de lei como são perobas, tapinhoãs, canelas, vinháticos, tecas, etc.”

Pedro I deu continuidade ao Jardim Botânico, abriu suas portas ao público e nomeou seu primeiro diretor, frei Leandro do Sacramento. Carmelita e botânico, membro das academias de ciências de Munique e Londres, ele foi o primeiro professor de botânica da Real Academia Médico-cirúrgica do Rio de Janeiro. Verdadeiro doutor em biodiversidade, frei Leandro deu grande impulso ao local: recuperou o parque; ampliou o intercâmbio de sementes; restaurou as plantações de chá e logo, na capital, só se bebia chá do Jardim Botânico.

Com o tempo, as espécies ditas exóticas, trazidas dos quatro continentes, ampliaram nossa biodiversidade, aclimataram-se e difundiram-se amplamente pelo Brasil. Os asiáticos coqueiros parecem fazer parte da paisagem natural das praias nordestinas; o café, o feijão, o arroz, a laranja, a soja e a cana-de-açúcar são a base de nossa agricultura; as jaqueiras e mangueiras, além de arborizarem ruas e praças de cidades brasileiras, compõem até o cortejo das árvores da Floresta Nacional da Tijuca junto ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

ARQUEOLOGIA VEGETAL DO JARDIM BOTÂNICO

O que sobreviveu ou restou dos cravos-da-índias, cânforas, canelas, moscadeiras, mangueiras, lichias, cajás, abacates, pés de chá, acácias, abricós, frutas-pão, palmeiras-imperiais e outras plantas trazidas do Oriente para o Rio de Janeiro? Muita e pouca coisa.

Os sobreviventes dessa aventura completaram cerca de duzentos anos, uma idade a que poucas árvores e arbustos cultivados podem chegar. A Coordenação de Coleções Vivas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro tem feito um trabalho constante de manutenção dos exemplares mais antigos de sua coleção. Algumas dessas árvores, jaqueiras e mangueiras, provavelmente já existiam antes da criação do Jardim. É necessário mais de um dia para se visitar boa parte desses exemplares. A maioria situa-se à proximidade da Fábrica de Pólvora e do Centro de Visitantes, a outrora sede da fazenda, os dois núcleos mais antigos do Jardim Botânico. Eis alguns exemplos.

Uma provável e derradeira árvore de fruta-pão – Arthocarpus altilis (Parkinson) Fosberg – da remessa de Luiz de Abreu, tinha sido dada por morta recentemente. Entretanto, surgiram brotações na porção basal do caule, aparentemente uma resposta ao insistente trabalho de adubação da Curadoria. Sua poda foi melhorada, deu força aos rebrotos e parte das epífitas foi retirada. O velho tronco está lá, perto da entrada dos visitantes. Foram feitas estacas a partir de suas raízes. Esses clones vicejam no viveiro da Curadoria e garantem a longevidade desse espécime.

O mesmo ocorre com as cicas – Cycas rumphii Miq. – plantadas logo nos primeiros anos do Jardim, como atesta a placa com a data de plantio. A multiplicação vegetativa abundante é frequente nas espécies desse grupo. Isso garantiu a produção de mudas vegetativas, recolocadas no arboreto, no exato local da planta-mãe, hoje morta. O mesmo trabalho é feito com outras espécies.

A palmeira-imperial – Roystonea oleracea (Jacq.) Cook, essa vedete vegetal, ladeia até hoje aléias Barbosa Rodrigues e Cândido de Oliveira do Jardim Botânico do Rio de Janeiro assim como a Alameda Pierre Poivre no atual Jardim Botânico de Pamplemousses, lá na Ilha Maurício. As daqui são descendentes da palma mater, cuja primeira frutificação ocorreu na gestão de Serpa Brandão (1829 e 1851). Outros exemplares chegaram ao Brasil, a partir do Jardim La Gabrielle de Caiena, por exemplo. Hoje, a espécie encontra-se espalhada pelo país, principalmente ladeando as entradas das sedes de antigas fazendas de café, no Vale do Paraíba.

Entre as palmeiras do Jardim Botânico estão exemplares muito antigos como o de uma palmeira endêmica da ilha Maurício, a palmeira-garrafa – Hyophorbe lagenicaulis (L. Bailey) H.E. Moore – cuja forma do estipe lembra uma garrafa e a curiosa palmeira de folhas vermelhas – Latania lontaroides (Gaertner) H.E. Moore – endêmica das ilhas Mascarenhas.

Da noz-moscada – Myristica fragans L. – cujas mudas foram plantadas com sucesso por Luiz de Abreu, conforme ele mesmo relatou em 1813, teve-se o registro até 1922. Provectas, elas morreram de “velhice”, sem deixar descendência conhecida, após produzirem milhares de preciosas nozes.

Duas canforeiras – Cinnamomum camphora (L.) Nees & Ebern – com seu odor característico, marcam o limite do Jardim Botânico, no cruzamento das ruas Pacheco Leão e Jardim Botânico, tendo ao fundo a figura do Cristo Redentor.

Arvoretas discretas no porte, mas não na idade, carregam cerca de dois séculos de história: o bilimbi – Averrhoa bilimbi L. –conhecido como limão-de-caiena e o pau-amargo – Quassia amara L. Essas espécies saíram de Caiena, passaram pelo Jardim de Olinda e chegaram ao do Rio de Janeiro.

Da aventura do chá – Thea sinensis Rich – iniciada pelo senador português de Macau resta hoje um único arbusto, vigoroso, bem implantado e não muito distante das palmeiras do Oceano Índico.

Duas mudas de cravo – Syzygium aromaticum (L.) Merr. & Perry – trazidas em 1809 por Luiz de Abreu, sobreviveram. De Caiena vieram, em 1811, outras mudas. Ainda hoje, uma aléia plantada por frei Leandro, por volta de 1825, reúne craveiros de diversas idades, próximos do chafariz central.

Entre as árvores mais antigas do Jardim Botânico está um imponente vinhático – Plathymenia reticulata Benth – próximo da antiga Fábrica de Pólvora. Sereno, ele protege com sua sombra as crianças que se divertem num pátio cheio de brinquedos, sob olhos descansados de pais e avós.

Nos caixotes de Luiz de Abreu vieram exemplares de mangueiras – Mangifera indica L. -, mas a árvore já estava difundida, plantada em sedes de fazendas. É possível que as maiores árvores da Praça das Mangueiras, próximas à entrada, sejam mais antigas que o próprio Jardim Botânico, remanescentes do engenho ali existente. Frei Leandro, em 1824, criou uma aléia de mangueiras. Seus troncos tortuosos fazem a aléia serpentear e parecem a entrada de um reino encantado.

Talvez a mais emblemática das antigas árvores do Jardim Botânico seja a “Jaqueira do Frei Leandro” – Arthocarpus heterophyllus Lam. Frei Leandro trouxe ordem e base científica à gestão local. Ele renovou o traçado dos canteiros e sua maior obra foi a escavação do lago central que ele acompanhou, muitas vezes sentado à sombra dessa jaqueira. Qualquer visitante pode se sentar aos pés da velha testemunha dos caixotes de Luiz de Abreu ou quem sabe anterior ainda a essa aventura marítima e contemplar a beleza e a harmonia de um dos locais mais visitados do Jardim Botânico.

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