UMA HISTÓRIA DESCONHECIDA E SURPREENDENTE DA AMAZÔNIA

(02/01/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

O livro “Quando o Amazonas corria para o Pacífico”, de Evaristo Eduardo de Miranda (Editora Vozes), marca uma nova visão nos estudos sobre a história da Amazônia em todos os seus aspectos, desde geográficos, históricos e até humanos.

Hoje, todos defendem a Amazônia. Cada um defende a “sua”. Mas ainda se ignora a violenta história da presença humana na Amazônia, bem antes da chegada dos portugueses. Poucos entendem como foi possível esse território espanhol passar para o domínio português. E permanece em fragmentos a história natural de sua riquíssima fauna e flora. Publicações, reportagens, pesquisas, campanhas e movimentos quase sempre lutam por uma parcela da realidade amazônica: floresta tropical, recursos minerais, territórios indígenas, fauna, populações ribeirinhas, água doce, parques nacionais etc. O que seria mais urgente defender, senão a própria Amazônia? Para defender qualquer coisa é necessário conhecer sua história. O olhar histórico determina o entendimento da situação atual e a busca de saídas sustentáveis.
A primeira parte do livro “Quando o Amazonas corria para o Pacífico” tenta, de forma simples, ordenar e expor um pouco da história natural da Amazônia. Como era essa região quando o grande rio equatorial ainda corria para o sentido Oeste e desaguava no Pacífico?
Durante milhões e milhões de anos, após separar-se da África, a América do Sul ficou isolada no meio do oceano como uma ilha imensa. Flora e fauna se desenvolveram de um modo muito diferente da África, Ásia, Europa e América do Norte. Como caixas de surpresas, os capítulos do livro expõem o surgimento do Istmo do Panamá, as mudanças dramáticas com a invasão de uma nova biodiversidade vinda do Norte, até a chegada, muito tempo depois, dos caçadores coletores da América do Norte, que povoaram a Amazônia em levas sucessivas.
A segunda parte do livro trata da história humana da Amazônia. Tais povos amazônicos não edificaram com rochas, nem descobriram como extrair metais, não inventaram a roda ou o arado e viviam na Idade da Pedra Lascada. Não tinham escrita. Por mais de 10.000 anos, seu desenvolvimento tecnológico foi diferenciado e lento, comparado inclusive ao que ocorreu nos Andes e culminou no Império Inca, repleto de conquistas tecnológicas na Agricultura, Astronomia e Engenharia (embora também desconhecessem a roda).
Os vestígios dos primeiros povos amazônicos estão na humanização das florestas e cerrados, em marcos vivos. E o livro, baseado em pesquisas científicas recentes, entrevê etapas dessa história não linear e até pouco tempo oculta. Descreve parte dessa aventura natural e humana que transformou a Amazônia, bem antes da chegada dos europeus e dos ambientalistas.
À tal reunião de indícios não escritos seguem-se os primeiros registros. Hoje, por a Amazônia mobilizar tantas opiniões e vontades, tem-se como “natural” e “pacífico” o fato de ela pertencer ao Brasil. Não é. Nunca foi. Em sua terceira e última parte, o livro trata da história política da Amazônia, até os finais do Século 18, quando de sua incorporação definitiva ao Brasil.
Os espanhóis descobriram a América e foram os primeiros europeus a chegar à Amazônia. Graças ao Tratado de Tordesilhas entraram no Século 16 como senhores da região, de fato e de direito. Toda a bacia do grande rio estava praticamente em seus domínios. O que impediu os espanhóis de ocuparem e povoarem a embocadura do rio Amazonas?
Eles foram capazes de se instalarem no estuário do Rio da Prata entre a Argentina e o Uruguai, situado a grande distância da metrópole. Eles criaram bases e povoados na Venezuela e na costa pacífica da América do Sul. Mas não conseguiram ocupar o rio das Amazonas, por eles assim nomeado, mesmo se percorrido – desde a nascente até a foz – por diversas expedições espanholas no Século 16. O livro conta como essa uma região de milhões de quilômetros quadrados, descoberta por espanhóis e em seu legítimo domínio, foi incorporada legalmente ao território da Coroa portuguesa e ao Brasil.
Não foi obra do acaso. Nem foi um passeio. Longe de serem aleatórios, os caminhos utilizados pela Coroa portuguesa para a conquista desse território eram recheados de estratégia geopolítica, meandros inesperados, heróicas surpresas, episódios ocultos, aventuras religiosas e guerreiras, e muita persistência. Eles também deixaram marcas na história e no território da Amazônia, expresso, por exemplo, no nome das cidades amazônicas.
No Brasil, em geral, as cidades e os acidentes geográficos têm seus nomes vinculados ao santo do dia de sua fundação ou descoberta, seguindo o calendário litúrgico católico: Baía de Todos os Santos, São Sebastião do Rio de Janeiro, Santa Catarina, São Paulo, São José dos Campos, Rio São Francisco, Espírito Santo, Natal etc. Na Amazônia, não. Ali, as cidades reproduzem um mapa de Portugal. No Pará, Amazonas e Amapá, os nomes de cidades e municípios, por uma decisão política da Coroa lusitana, espelham localidades portuguesas: Belém, Bragança, Viseu, Barcelos, Airão, Óbidos, Alenquer, Porto de Moz, Almeirim, Alter do Chão, Aveiro, Breves, Chaves, Santarém, Melgaço, Oeiras, Ourém, Vigia… Esses nomes são como marcos de pedra, difíceis de apagar, na geografia simbólica e na História da Amazônia luso-brasileira.
Neste início do Século 21, a população da Amazônia atinge os 25 milhões de habitantes e cresce mais de um milhão por ano. Sua agricultura já responde por quase 20% da produção de grãos do Brasil. Seu PIB é um dos que mais cresce no País. Pode parecer difícil a missão de proteger, preservar e desenvolver a Amazônia de forma sustentável. O livro apresenta uma nova perspectiva quanto à História da Amazônia e demonstra o quanto mais difícil e árdua foi a missão dos nossos antepassados em conquistá-la e mantê-la no território nacional. Ele estende o olhar do leitor para além do horizonte dos dias de hoje e o convida a uma expedição, não apenas pelo território, mas pelo tempo da Amazônia.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Uma história desconhecida e surpreendente da Amazônia. EcoRio, v. 17, p. 48-49, 2007.

 

 

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