UMA HISTÓRIA DE BIOADVERSIDADES


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os portugueses ao chegarem no Brasil encontraram um verdadeiro Éden terrestre: florestas intocadas, fauna abundante e um litoral paradisíaco. Além de bons selvagens. Cada vez mais, os estudos científicos derrubam essa visão mítica da história. Eles encontraram a Mata Atlântica muito alterada e até degradada. A fauna ainda buscava um novo equilíbrio depois de uma extinção maciça, do impacto da caça e das alterações recentes em seu habitat. Há mais de 10.000 anos, a natureza brasileira sofria os impactos de seus sucessivos primitivos povoadores.

Cerca de 2.500 anos antes da chegada dos portugueses, a maioria das terras do Brasil ainda não estavam nas mãos dos índios. Seus ocupantes eram outros grupos humanos, diversificados e de diferentes culturas. Eles tiveram antecessores numa cadeia que remonta a mais de 10.000 anos. Em Taima-Taima (Venezuela) há indícios de presença humana há cerca de 15 mil anos. Os sítios de Tibitó (Colômbia) e Quebrada Jaguay e Pachamachay (Peru) possuem datações de até 11.800 anos. No Brasil, o sítio de Pedra Pintada (Pará) indica a ocupação do homem nas florestas e cerrados amazônicos por volta de 11.300 anos atrás. Amazônia ou Mata Atlântica só poderiam ser consideradas intactas, como imaginam alguns, até antes dessa chegada das populações humanas. Com a chegada dos humanos, o espaço natural do Brasil passou a ser uma natureza humanizada, um território social.

Em meio a diversas flutuações climáticas, esses primeiros povoamentos humanos foram modelando as paisagens naturais e o ambiente. As forças geológicas também continuaram seu trabalho. Há apenas 11 mil anos atrás, por exemplo, a ilha de Marajó ainda fazia parte do continente e era atravessada pelo rio Tocantins, que desaguava no Amazonas. Uma falha sísmica, criou o rio Pará e levou o Tocantins a correr pelo caminho atual, em direção nordeste, desviando-o da bacia amazônica diretamente para o Oceano Atlântico e isolando e criando a ilha do Marajó.

Na chegada dos povoadores portugueses, os territórios amazônicos já haviam sido conquistados pelos movimentos de expansão dos povos tupi – guaranis, aruaques e caribes, principalmente. No ano 1.000 da Era Cristã, a Amazônia atingiu uma das maiores densidades demográficas do passado, com ampla diversidade étnica e cultural. A antropofagia integrava e marcava as endêmicas guerras inter-étnicas. A maioria dos povos antecessores dos atuais indígenas desapareceram diante dessa expansão, deixando muitos vestígios. Os sobreviventes foram absorvidos, adotaram a língua e a cultura das populações indígenas dominantes que nunca constituíram um estado nação como ocorreu nos Andes, vivendo sempre no Neolítico. Hoje, os índios situam-se em territórios distantes dessas áreas de grande densidade demográfica do ano 1.000 e são muito diferentes de seus antepassados de apenas 500 anos atrás, encontrados pelos portugueses. O povoamento europeu do Brasil foi condicionado por essa longa história de transformação da terra, dos homens e das paisagens.

A EXTINÇÃO DA MACROFAUNA

Uma das maiores extinções da fauna brasileira ocorreu há cerca de 12.000 anos e coincidiu com a chegada nos primeiros humanos. Animais gigantes e característicos desse tempo como mamutes, mastodontes, búfalos enormes, tigres dente de sabre, leões, preguiças gigantes, cavalos, camelos, grandes aves terrestres de rapina e muitos outros, foram extintos no Brasil no final do Pleistoceno. Caçados de forma sistemática, em períodos de clima adverso, eles desapareceram e, com eles, muitos de seus predadores. A lista de animais extintos nessa época no Brasil é enorme.

Os gliptodontes e diversos tatus gigantes, como o Pampatherium, além de ossos fossilizados, deixaram os vestígios de suas grandes tocas escavadas na região Sul, e de parentes distantes: o tatu canastra. As paleolamas, da família dos camelídeos, eram muito parecidas com as vicunhas e guanacos. Seus fósseis são comuns do vale do Juruá na Amazônia ocidental até o Nordeste. Os toxodontes, semelhantes a rinocerontes e de tamanho e hábitos parecidos aos dos hipopótamos, também deixaram de existir. Seus fósseis, muito comuns, são achados com sinais de incisões e marcas produzidas por humanos em vários locais, como nas cavernas do vale do Ribeira em São Paulo. Entre os roedores desaparecidos merece destaque a capivara gigante, Neochoerus sulcidens. Dentre os carnívoros extintos, possivelmente de inanição pela falta de presas, estão: os tigres dente de sabre, o leão americano (tinha 260 kg e 2,6 metros) e o lobo terrível, de tamanho gigantesco para um canídeo: 1,7 m.

As atuais ameaças de extinções de espécies brasileiras em nada se comparam as ocorridas de fato no Pleistoceno. Nenhum mamífero maior que uma anta ou uma onça-pintada escapou dessa hecatombe entre 15.000 e 10.000 anos atrás. Para alguns, as lendas indígenas da caipora e do mapinguari teriam origens “paleontológicas” e não seriam apenas figuras do folclore. Eles seriam como um resto de memória fossilizada de antigos animais, conhecidos dos humanos. (BOX 1 e 2)

SAMBAQUIEIROS MODIFICAM O LITORAL

Em 22 de abril de 1500, os portugueses chegaram a um litoral profundamente alterado pelos humanos. Há mais de 8.000 anos, grupos de caçadores coletores concentraram-se nas regiões litorâneas e margens de grandes rios, diversificando sua base alimentar e cultural. Os locais ofereciam fontes extraordinárias de proteínas: peixes, mamíferos, aves, mexilhões, ostras, conchas de todo o tipo, caranguejos, tartarugas e outros animais. Eram sítios propícios ao extrativismo e a uma estadia mais prolongada. Na era pós glacial, apareceram cada vez mais essas ocupações semi-sedentárias e sedentárias no litoral do Brasil. Assim começou, a era dos sambaquis.

De origem tupi, tamba ki, significa “ajuntamento, acumulado de conchas”. Esses grupos humanos diferenciaram-se dos povos do interior das terras e acumularam grandes quantidades de restos de moluscos marinhos, fluviais e terrestres, além de diversos artefatos em suas áreas de habitação. Esses monturos gigantescos, chamados de “pirâmides brasileiras”, podem ter centenas de metros de extensão e até 10 a 20 metros de altura, com centenas de milhares de metros cúbicos. Alguns chegam a mais de 500 metros de comprimento e 60 metros de altura. (BOX 3)

Os sambaquieiros eram mais baixos do que os indígenas atuais, com uma estatura média de 1,50 m. Robustos, apresentavam membros superiores desenvolvidos como nos nadadores. Seus esqueletos têm uma massa óssea no ouvido (exostose), comum em surfistas e mergulhadores que ficam longos períodos debaixo d’água.

Do Amapá ao Rio Grande do Sul, os sambaquis são um testemunho do impacto sobre o meio ambiente costeiro dessas centenas de milhares de pessoas. Na base dos sambaquis, as conchas são maiores e mais variadas. O tamanho e a diversidade das conchas diminuiu gradativamente nas camadas mais recentes, indicando a predação intensa desses animais pelos sambaquieiros. As conchas não tinham mais tempo de crescerem muito. Perdiam diversidade. A retirada pelos humanos ultrapassava a velocidade de reposição dos estoques de moluscos que tendiam a desaparecer.

Antes dos sambaquieiros extinguirem sua fonte de alimentação e de vida, eles mesmos foram extintos. Abruptamente. Por humanos, ancestrais dos indígenas. Provavelmente antropófagos, em plena expansão demográfica e territorial, talvez num dos primeiros e maiores genocídios da história do Brasil. Depois de contribuir com a extinção dos mamíferos de grande porte, os humanos demonstraram ser capazes de extinguir, pelo conflito ou pela assimilação, outros grupos da própria espécie.

CAÇA, FOGO E AMPLIAÇÃO DOS CAMPOS E CERRADOS

Há milhares de anos, com a chegada dos humanos, a natureza brasileira foi apresentada a um novo parceiro: o fogo. Áreas de cerrados sempre diminuíram ou aumentaram com flutuações climáticas. Períodos de clima mais seco favoreciam a expansão dos cerrados. Nos mais úmidos, ampliava-se a área das florestas. O uso sistemático do fogo para caçar favoreceu a extensão ou a manutenção dos cerrados, em detrimento das áreas florestais, mesmo em condições climáticas desfavoráveis.

O mecanismo é relativamente simples. O fogo ateado pelos caçadores para acuar e dirigir a caça até determinados locais de captura, propaga-se e queima a borda da floresta. Árvores morrem, os capins progridem e proliferam nesse espaço aberto. Nos anos seguintes, o processo continua. Mais árvores morrem. Blocos de florestas acabam isolados no meio do cerrado e vão desaparecendo. É assim, há mais de 10.000 anos.

A repetição das queimadas mantém o cerrado, seleciona espécies mais adaptadas ao fogo, contribui na dispersão de sementes de arbustos e gramíneas, elimina as chances de rebrota de árvores e a volta das florestas. Um pequeno grupo humano, graças ao fogo, é capaz de influenciar uma área enorme. O nomadismo dos caçadores coletores espalhou o fogo e esse fenômeno pelo Brasil. A ampliação dos cerrados em detrimento das florestas, ainda segue seu curso nos dias de hoje, em vários locais da Amazônia, promovido por culturas ameríndias bem posteriores, como os índios tiryiós ou parecis. A palavra caiapó, por exemplo, significa “que traz o fogo na mão” e designa uma tribo de índios incendiários. (BOX 4)

Essas formações “naturais” abertas foram escolhidas pelos povoadores europeus como locais privilegiados para implantação de vilas e povoados. Elas foram capazes de dar nome a regiões e municípios como os Campos do Jordão, os de Santo André e de São Bernardo da Borda do Campo (onde se instalou João Ramalho), os Campos de Piratininga (onde Nóbrega fundou São Paulo), os de São José dos Campos, a Campinas, a Campina do Monte Alegre, a Campina Grande ou de Nova Campina, os chamados campos limpos, como os de Campo Limpo Paulista, de Itararé, Capão Bonito, Capão Redondo… Mais tarde, fogo nos cerrados, campos e pastagens foi adotado por pecuaristas de todo o Brasil (menos na caatinga) como uma tecnologia eficiente para controlar carrapatos, limpar pastos sujos, provocar uma rebrota dos capins antes da chegada das chuvas… além de favorecer a caça. E prossegue até hoje.

A AGRICULTURA AMERÍNDIA: FOGO NO SEIO DA FLORESTA

A descoberta da agricultura na Amazônia, teve um impacto ambiental inédito: o fogo, antes limitado aos cerrados, foi levado ao coração das florestas amazônica e atlânticas pelos índios. Fora o machado de pedra, substituído por instrumentos de ferro, a técnica de plantio ainda é a mesma, entre muitos povos indígenas. No final da estação seca, eles derrubam a vegetação de uma faixa de floresta. Após secagem natural, ateiam fogo. O poderoso aliado da caça nos cerrados tornou-se um eficiente instrumento da agricultura na floresta. As cinzas fertilizam os solos. O fogo ganhou o interior da mata.

A técnica tupi da coivara permite alguns ciclos de culturas anuais. Com os séculos, as culturas se diversificaram: milho, amendoim, abóboras, taiobas, carás, cabaças, mandioca, batata doce… Tudo dependia da fertilidade do solo. Nenhum instrumento agrícola, em especial, era requerido. O trabalho era todo manual. A agricultura ampliou a fixação dos índios: em posição relativamente central o aldeamento e no entorno as áreas de cultivo, coleta e caça. (BOX 5)

Em áreas abandonadas, a regeneração seguia o curso natural: cultura abandonada > capoeira > floresta secundária > mata. É assim até hoje. Mas o processo final de regeneração florestal é muito lento. Com o aumento das populações indígenas e a evolução das técnicas agrícolas, a errância das áreas cultivadas restringiu-se. Partes das matas vizinhas às habitações apresentavam em permanência um mosaico de áreas com a vegetação em diferentes estágios de reconstituição, desde pequenas capoeiras até matas secundárias e bem recompostas. (BOX 6)

Na toponímia tupi, retomada de relatos do século XVI, principalmente dos jesuítas, aparecem em raras menções as matas virgens ou primárias através de palavras como caaguassú (grandes florestas), caaobi (matos verdadeiros, primitivos) ou caxangá (mata extensa). Todavia, há uma enorme diversidade de palavras retratando padrões de vegetação originados pelos desmatamentos, pelo retalhamento das florestas e pelo uso do fogo. Muitos desses termos são nomes de bairros e cidades em S. Paulo e no Brasil: caapuera (roça que já foi, como no paradoxal parque do Ibirá-puera), caçapava (clareira, passagem na mata), caucaia (mato queimado ou incêndio da mata), catumbi (beira da mata), capoeiruçu (mata em estágio mais avançado de reconstituição), caacaigué (mato queimado), caapeba (mato baixo, rasteiro), capuã ou capão (bosque redondo), caanupã (mato batido, roçado), caatanduva (mato ralo e áspero), capiaba (sítio, chácara), capitiba (capinzal), caamirim (mata pequena), caatiba (macegas), capixaba (roçado preparado para plantio), cairussu (queimada, incêndio), caité (mato em desenvolvimento, não crescido, em formação), cajuru (entrada da mata) etc.

OS ÍNDIOS E O RETALHAMENTO DA MATA ATLÂNTICA

Ao contrário do tardio povoamento da América do Norte, que evitou os indígenas e as regiões costeiras, os portugueses integraram-se preferencialmente com aldeamentos tribais. Na faixa costeira, as populações indígenas concentraram seus cultivos em manchas férteis nos estuários de rios, terras de restinga e várzeas, podendo combinar coleta de crustáceos em mangues com agricultura, coleta de frutas em matas com a caça. É nesses locais que os portugueses, náufragos e povoadores, se instalaram preferencialmente. Aldeamentos indígenas não faltavam.

Em 1508, Diogo Alvares Correia, o Caramurú, vivia como verdadeiro chefe indígena na baía de Todos os Santos e sua índia Bartira. João Ramalho, naufragado em 1510, vivia em São Paulo nas alturas dos campos de Piratininga, procriando com as índias. Desde 1526, os homens da expedição de Caboto, haviam instalado na vizinhança de aldeias, uma feitoria em Pernambuco. Em 1527, o navegador Diego Garcia já encontrou vivendo no litoral paulista alguns náufragos portugueses e espanhóis: uma dezena de casas, uma torre de defesa e uma ilhota onde criavam porcos. Por prudência: para que não servissem de alimento às onças, nem escapassem pelos matos. Ao chegar em São Vicente, em 22 de janeiro de 1532, é numa paisagem transformada que Martim Afonso de Souza dá início oficial ao povoamento europeu do Brasil.

No litoral, a densidade das populações indígenas era muito elevada. É estimada entre 4 a 5 habitantes por quilômetro quadrado e até de 9 habitantes por quilômetro quadrado. Cada aldeia tupi continha entre 400 a 600 habitantes e controlava áreas de 50 a 100 quilômetros quadrados, segundos os relatos do século XVI. Considerando a produtividade natural das terras, a simplicidade dos sistemas de cultivo, as perdas naturais com saúvas e outros predadores, a área cultivada por habitante devia exigir o desmate de 0,2 hectares de floresta primária por pessoa/ano. Nessa hipótese, todo o domínio tupi estaria sujeito a queimada e coivara a cada 50-60 anos! Segundo o pesquisador Warren Dean, “No curso de um milênio de ocupação, (os tupis) teriam queimado cada faixa pelo menos dezenove vezes. Meio século representava um intervalo adequado para propiciar as condições necessárias ao equilíbrio da lavoura itinerante, mas não teria sido suficiente para restabelecer a floresta costeira em sua complexidade e diversidade originais”. As árvores dessa retalhada floresta atlântica, comparadas aos arbustos do Mediterrâneo, impressionaram os portugueses.

É provável e existem indicações de que a fortificação e as disputas territoriais tenham criado áreas de um uso mais intensificado e outras mais preservadas, nos limites dos territórios, associadas a situações macrotopográficas. A rede de peabirús, caminhos indígenas tão utilizados pelos exploradores, povoadores e catequizadores portugueses, circulava entre as áreas mais ocupadas, marcadas por formações florestais secundárias.

Os peabirús serviram muito no comércio plumário. Eles percorriam e conectavam as áreas de distribuição natural de diferentes espécies de psitacídeos (papagaios, araras, jandaias, maracanãs etc.), facilitando o acesso e a caça dessas aves. Elas eram transportadas vivas, de preferência, por distâncias enormes, até o Pacífico, para servirem na confecção de cocares, tiaras, colares e outros adornos. Os mantos andinos feitos de papos de beija-flores, guarás ou tucanos atestam a intensidade da predação. Ainda hoje, a cultura indígena e suas tradições em arte plumária exige a caça de aves e é objeto de sérias discussões entre indigenistas e ambientalistas.

A grande densidade de pau brasil em determinados locais do litoral seria o resultado e mais uma demonstração da existência de matas secundárias, características da degradação da Mata Atlântica. A riqueza e diversidade florística das florestas preservadas difere muito da ocorrência de dominância de algumas espécies, como sucede nas formações secundárias, onde ocorria o pau brasil.

Se antes dos portugueses, a história das florestas foi marcada pela caça, pelo uso do fogo e por desmatamentos, o povoamento europeu concentrou suas marcas em territórios menores. Mais impactados, com erradicações definitivas da vegetação natural, mas muito menores. A dramática redução das populações indígenas diminuiu a pressão sobre a Mata Atlântica, e contribuiu para sua regeneração nos séculos XVII e XVIII, como há milênios não acontecia.

A coivara foi bem assimilada pelos povoadores. Ainda hoje, antes de colher a cana de açúcar deita-se fogo às palhas. É assim, há quatro séculos. Para combater a praga do bicudo do algodoeiro: queimam-se os resíduos de colheita. Agricultores de origem russa, japonesa, ucraniana, polonesa, portuguesa, italiana, alemã…, que não utilizavam o fogo em seus países de origem, adotaram as queimadas, esse saber tradicional dos indígenas, do Oiapoque ao Chuí.

FABRICANTES DE TERRAS PRETAS E FLORESTAS

É um paradoxo: a região aparentemente mais preservada do Brasil é aquela onde o homem vive há mais tempo e de forma permanente. Há mais de 400 gerações, e para alguns autores há mais de 2.000, diversos grupos humanos ocupam, disputam, exploram e transformam os territórios amazônicos. Os caçadores coletores nômades espalharam-se na Amazônia desde o final do Pleistoceno, estabelecendo sua soberania, sem contestação ou conflitos. Não havia nenhum povo para subjugar. Apesar da aparente diluição dos humanos em meio às florestas, no auge dessa fase, estima-se que existiam mais de 300.000 caçadores coletores na Amazônia.

Ao longo dos milênios, esses povos transformaram as florestas e, de certa forma, co-evoluíram. Seus conhecimentos sobre os usos das plantas os levaram a favorecer algumas, protegendo-as ou disseminando-as em certos locais (pousos, abrigos, áreas de acampamentos etc.). Frutos coletados eram enterrados, escondidos e disseminados. A distribuição e a densidade dos castanhais no Pará parece ter origem no cuidadoso e permanente trabalho de seleção e disseminação dessa árvore por parte dos caçadores coletores. Não foi um capricho da natureza que decidiu criar castanhais no Pará. Com essas práticas pré-agrícolas, locais de abrigo e suas vizinhanças acabaram tornando-se, áreas de extração sistemática de recursos vegetais. No vale do Jamari, por exemplo, existem registros de mais de 8.000 anos de presença humana permanente.

Na floresta tropical, temperatura e umidade favorecem a rápida degradação da matéria orgânica morta. Mas existem exceções: as manchas de terras pretas. Alterações produzidas na química e física dos solos pelos ancestrais dos índios, por processos ainda mal conhecidos, favoreceram a formação de uma espécie de húmus estável, mesmo sob as condições climáticas da região que não contribuem para o acúmulo de matéria orgânica no solo. Boa parte desses sítios arqueológicos estão associados a “terras pretas”. Muito procuradas pelos agricultores por sua fertilidade, até meados do século passado, eram tidas como ocorrências naturais. Como nos sambaquis, muitos viam uma “obra da natureza”. Não era.

As manchas de terra preta não são muito grandes. São mais comuns nas proximidades de trechos de rios onde a presença de cachoeiras, lagos e a riqueza da caça e pesca induziram e permitiram a permanência dos humanos no mesmo local, durante muito tempo. Algumas terras pretas datam de 4.000 anos ou mais. A grande maioria tem pouco mais de 2.000 anos, como nas regiões de Óbidos, Santarém, Monte Alegre e Manacapuru.

A ocorrência de milhares desses sítios na Amazônia é um forte indicador da existência de povoamentos permanentes, densos, hierarquizados e estáveis, a partir do quinto milênio a.C., hoje desaparecidos. Eram povos muito diferentes dos atuais indígenas, cujas práticas agrícolas não levam à formação de terras pretas. Para idealistas da “floresta virgem e intocada” é difícil imaginar uma Amazônia marcada por aldeamentos de até 3.000 indivíduos com construção de fossos defensivos e aterros, com a uma certa organização pré-urbana de espaços residenciais, comunitários, defensivos e provavelmente sagrados, prefigurando uma proto-cidade. Em alguns setores há evidências de redes de comunicação, hoje desaparecidas, análogas às existentes entre as grandes aldeias do Brasil Central, ou entre as aldeias fortificadas de outrora no Guaporé e baixo Amazonas. Escavações de valas defensivas, com vestígios de paliçadas revelam uso de violência sistemática nessas sociedades.

Na chegada dos portugueses havia pouca natureza intocada ou não alterada pelos humanos no Brasil. Idealistas imaginam uma utopia de equilíbrio homem-natureza, muito assimilada às sociedades indígenas. Isso não tem o menor fundamento. Sociedades animais e humanas transformam o meio ambiente. Sempre. Existem apenas equilíbrios dinâmicos.

A NOVA TERRA SEMEADA DE NOVAS CULTURAS

No texto da certidão de nascimento do Brasil, na carta ao Rei D. Manuel escrita por Pero Vaz de Caminha, ele afirma que ninguém era capaz de compreender a língua dos dois primeiros indígenas subidos a bordo da nau capitânia. Face à impossibilidade de um mínimo de diálogo, os portugueses mostraram aos índios algumas coisas, para ver suas reações. Diante do papagaio do capitão, não manifestaram surpresa alguma. Segurando a ave com a mão pareceram indicar que existiam muitas parecidas em suas terras. Um carneiro não lhes despertou a atenção, mas um galinha – possivelmente cacarejando e debatendo-se – assustou-os a ponto de fugirem do estranho animal.

Na Terra de Santa Cruz parecia não haver agricultura, nem pecuária. Os índios “não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem nenhum outro animal acostumado a viver com os homens”. Na carta está também o registro do desapontamento pela falta ou inexistência de bens considerados essenciais. No início do século XVI, não havia nada a esperar do Brasil no que se referia a ouro e prata, nem a produtos elaborados, como seda, porcelanas, especiarias ou mesmo pérolas e corais.

Quanto às necessidades básicas de alimentação, saúde e vestimenta, a terra não podia aguardar tanto pelas novidades. Durante séculos, os portugueses vão introduzir em terras brasileiras, tudo aquilo que sentiam falta ou pensavam ser de um possível interesse. E vão, também, casar-se com índias e adotar parte dos hábitos alimentares e do estilo de vida das populações locais, ao contrário do que ocorria na América do Norte. Será um enriquecimento cultural mútuo. A introdução do cão doméstico foi talvez a mais ampla e difundida “tecnologia européia” adotada pelos indígenas. Em tempo recorde. De guardiões de aldeias, sinalizando a aproximação de feras e inimigos, revelaram-se grandes auxiliares na caça. Apreciados e valorizados, os cães integraram as famílias, sendo aleitados nas mamas das índias como seus filhos.

A Europa, a África e a Ásia passam a contribuir com a construção de uma nova paisagem brasileira, através das espécies animais e vegetais trazidas pelos portugueses. Um século e meio mais tarde, nos campos e jardins das aldeias e povoados, nas mais diversas descrições, vão encontrar-se lado a lado, algumas plantas indígenas e uma infinidade de hortaliças, flores, árvores frutíferas, cereais, legumes, fibras e plantas medicinais, trazidas de todo o planeta.

Esse processo de introdução de plantas exóticas começou na orla marítima com a introdução e o plantio de coqueirais (Cocus nucifera), trazidos do Oceano Índico. Não existe, no Brasil, a ocorrência de povoamentos naturais de coqueiros. Basta um mínimo de atenção do observador de um coqueiral na costa brasileira e verá as árvores alinhadas, geometricamente plantadas. A imagem dos coqueirais – principalmente no litoral nordestino – está tão incorporada à visão cultural das praias brasileiras que muitos insurgem-se contra os fatos, subvertem a fitogeografia e fazem do coqueiro uma árvore tipicamente brasileira.

Uma fonte de informação sobre as rápidas mudanças dos hábitos culturais dos portugueses são os tratados escritos por Pero de Magalhães Gândavo. Esse cronista português foi o autor de uma das primeiras histórias do Brasil. Originário de Braga, Gândavo, após trabalhar na transcrição de documentos na Torre do Tombo em Lisboa, foi nomeado provedor da Fazenda na Bahia, onde permaneceu de 1565 a 1570, visitando outras regiões do país. Nessa época, escreveu o Tratado da Província do Brasil e o Tratado da Terra do Brasil.

As mudanças culturais significativas dos portugueses que Gândavo aponta, estão no dormir e no comer. “A maior parte das camas do Brasil são redes, as quais armam numa casa com duas cordas e lançam-se nelas a dormir. Este costume tomaram dos índios da terra.” Quanto aos hábitos alimentares, Gândavo detalhou muitos aspectos. Nestas partes do Brasil não semeiam trigo nem se dá outro mantimento algum deste Reino, o que lá se come em lugar de pão é farinha de pão. Esta se faz da raiz duma planta que se chama mandioca, a qual é como inhame. (…) Desta mesma mandioca fazem outra maneira de mantimentos, que se chamam beijús, são mui alvos e mais grossos que obreias, destes usam muito os moradores da terra porque são mais saborosos e de melhor digestão que a farinha.

As frutas nativas já eram plantadas nos pomares e até cultivadas em roças: “Uma fruta se dá nesta terra do Brasil muito saborosa, e mais prezada de quantas há. Cria-se numa planta humilde junto do chão, a qual tem umas pencas como cardo, a fruta dela nasce como alcachofras e parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho, chamam-lhes ananases, (…) e fazem todos tanto por esta fruta, que mandão plantar roças dela, como de cardais: a este nosso Reino trazem muitos destes ananases em conserva. Outra fruta se cria numas árvores grandes, estas se não plantam, nascem pelo mato muitas; esta fruta depois de madura é muito amarela: são como peros repinaldos compridos, chamam-lhes cajus, têm muito sumo, e cria-se na ponta desta fruta de fora um caroço como castanha, e nasce diante da mesma fruta.

E havia também, as frutas e hortaliças, nativas e exóticas, já bem conhecidas e exploradas de forma generalizada pelos portugueses e nativos: “Algumas frutas deste Reino se dão nestas partes, scilicet, muitos melões, pepinos e figos de muitas castas, romãs, muitas parreiras que dão uvas duas, três vezes no ano, e tanto que umas se acabam, começam logo outras novamente. E desta maneira nunca está o Brasil sem frutas. De limões e laranjas há muita infinidade; dão-se muito na terra estas árvores de espinho e multiplicam mais que as outras.

UM SUCESSO ECOLÓGICO

A razão do sucesso dessas introduções transcontinentais de espécies foi de natureza ecológica. Eram novas terras, semeadas por novas espécies. Transportadas sem suas principais pragas e doenças, em geral na forma de frutas e sementes, essas novas culturas – em que pese sua baixa diversidade genética, devido ao pequeno número de indivíduos na origem – vão crescer melhor no Brasil, do que em suas terras africanas, asiáticas ou européias. Da mesma forma que o cacau, a borracha e o abacaxi, originários das Américas, terão um enorme e excelente desenvolvimento ao serem introduzidos na África, na Ásia e na Oceania (Havaí), livres de grande parte das pragas e doenças que aqui os assolam.

Os portugueses promoveram o aumento da biodiversidade das terras brasileiras e a mudança dos hábitos alimentares e de vestuário, com a introdução de um grande número de espécies vegetais, dentre as quais destacam-se: cana de açúcar, algodão, manga, bananas, carambola, melão, melancia, arroz, feijão, trigo, aveia, sorgo, uva, coco, figo, fruta-pão, jaca, laranjas, limão, limas, tamarindo, tangerinas, café, trigo sarraceno, cravo, canela, pimenta do reino, caqui, biribá, gengibre, romã, inhame, amoras, nozes, maçãs, pêras, pêssegos, sapotis, pinhas, graviolas e uma infinidade de hortaliças, temperos, ervas medicinais e tubérculos.

Essas árvores e plantas exóticas integram hoje a paisagem rural, os jardins, as cadeias produtivas, a culinária e os hábitos alimentares nacionais, inclusive dos povos indígenas. Representam a base das maiores transformações espaciais dos ecossistemas originais. Muitas cidades e regiões econômicas brasileiras devem sua existência e opulência a essas culturas, introduzidas pelos portugueses. Poucos são os que se lembram ou conhecem sua origem. Esse migração genética ainda deverá ser mais estudada e analisada em pesquisas futuras, com a devida proporção, por seu significado econômico, social e, sobretudo, cultural.

Os principais animais domésticos e de exploração pecuária dos brasileiros, até hoje, são todos importados: cães, gatos, galinhas, patos, gansos, bicho da seda, coelhos, bovinos, jumentos, burros, cavalos, ovinos e caprinos. A introdução do gado, principalmente na pampa e nos campos, levará a uma proliferação de rebanhos selvagens e também de onças e pumas. Existem descrições espantosas dos jesuítas sobre a multiplicação do gado e das onças nos Sul do Brasil.

Os achados biológicos nesta terra, de uso imediato, foram bem menores, em número e qualidade. Mas revolucionaram a dieta alimentar dos portugueses, dos escravos africanos e de outros povos do planeta, inclusive da Europa. Portugueses e espanhóis levaram a outros continentes o milho, a batata, o tomate, a mandioca, o ananás, o cacau, o caju, o amendoim, o abacaxi e o tristemente famoso tabaco. A pimento, domesticada pelos ameríndios há mais de 6 mil anos, espalhou-se pelo mundo. Está de tal forma associada a cozinha asiática, por exemplo, que um coreano, indiano ou tailandês não podem imaginá-la como sendo um condimento exótico.

A batata mudou a alimentação dos europeus. Seu sucesso foi tamanho, a ponto de mudar completamente os hábitos alimentares, as práticas de estocagem etc., principalmente nos países da Europa do Norte. A chegada na Europa, no final da década de 1840, de uma praga americana da batata (um fungo) foi tão devastadora que causou a morte por inanição de milhares de pessoas. Levou os irlandeses a migrarem em massa para os Estados Unidos. E foi por causa da América Latina, da batata e de suas pragas, que os Kennedys terminaram por governar, um dia, aquele país. Assim como trouxeram doenças, os ibéricos também levaram novas enfermidades da América e dos índios à Europa e ao mundo, principalmente a sífilis.

Os relatos jesuíticos do século XVI ao XVIII são circunstanciados. Eles atestam essa rápida e ampla introdução e troca de cultivos e animais no Brasil, tanto entre brancos como entre indígenas, seguindo áreas já ocupadas e exploradas por milênios, com a paralela a adoção e até domesticação de algumas plantas nativas, operadas em tempo muito reduzido pelos jesuítas, como no caso da erva mate (Ilex paraguaiensis).

Hoje, a dieta do brasileiro é composta de feijão, arroz, saladas, ovos, frango, macarrão, pão, biscoitos, carne bovina e suína. Todos produtos de origem exótica, introduzidos pelos portugueses. Entre as frutas mais consumidas estão laranjas e bananas, também introduzidas. Nas exportações brasileiras, responsáveis por grandes excedentes comerciais, destacam-se vegetais e animais, importados originalmente pelos portugueses ou pelo comércio que estabeleceram e lhes sucedeu: açúcar, álcool, suco de laranja, algodão, café, soja, carne bovina, suína e de frango. Todos exóticos, nenhum de nossas florestas.

Turistas têm o sentimento de usufruírem da vegetação tropical brasileira, extasiados diante da “natureza”. Na realidade, desfrutam de uma paisagem artificial, humanizada, criada pelo homem, com plantas exóticas. Um exemplo antigo é a narrativa do príncipe Maximiano de Wied Neuwied. Ele esteve no Brasil de 1815 a 1817, encantou-se e fez a seguinte descrição: “O europeu, transplantado pela primeira vez para esse país equatorial, sente-se arrebatado pela beleza das produções naturais, e sobretudo pela abundância e riqueza da vegetação. As mais belas árvores crescem em todos os jardins; vêem-se aí mangueiras colossais (Mangifera indica, Linn.), que dão uma sombra densa e um excelente fruto, os coqueiros de estipe alto e esguio, as bananeiras (Musa) em cerradas touceiras (…) e grande número de outras espalhadas por jardins pertencentes à cidade. Esses soberbos vegetais tornam os passeios extremamente agradáveis; os bosques, que formam, oferecem à admiração dos estrangeiros… Todos vegetais citados são exóticos. Estavam incorporados de tal forma à paisagem que pareciam compor, naturalmente, a identidade da cidade do Rio de Janeiro.

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