UM VELHO COMPANHEIRO

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(04/03/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

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Durante centenas de milhares de anos, o sono dos humanos foi leve e conturbado. Animais selvagens, predadores, grupos inimigos e ameaças de todo o tipo os impediam de dormir profundamente. Era preciso estar vigilante. Nossas noites começaram a ser tranquilas graças ao cachorro. A domesticação progressiva dos cães, com sua capacidade excepcional de detectar intrusos pelo ruído e olfato, latindo e dando sinal nas proximidades do acampamento humano, foi uma enorme mudança. Comparável à descoberta do fogo.

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A capacidade de fazer fogo foi uma das maiores conquistas tecnológicas da humanidade. Permitiu o aquecimento, a iluminação, trouxe conforto e novas técnicas como o cozimento dos alimentos, a cerâmica, a metalurgia e tantos outros avanços. A domesticação do cachorro foi, talvez, o segundo de nossos maiores êxitos. Hoje, o cão é encontrado em todo o mundo como animal doméstico, além do estado feral. Impossível, em nossos dias, uma sociedade humana sem fogo e sem cachorro.

O cão é um mamífero carnívoro da família dos canídeos. Seu nome científico é Canisfamiliaris. A ciência confirmou: o cachorro descende de populações selvagens do lobo eurasiático (Canislupus). Todo cão, independente da raça, é descendente longínquo de lobos selvagens e primo das raposas. O mais miniaturizado dos cachorros, como esses que algumas senhoras levam dentro de suas bolsas, é descendente de um lobo. Durante muito tempo, acreditou-se que o homem domesticara o lobo, recuperando e criando seus filhotes. Hoje, as pesquisas indicam quase o contrário. Foi o cachorro quem, de certa forma, domesticou os humanos, acompanhando-os à distância, persistindo, convencendo-os de sua utilidade e colocando-os a seu serviço.

Um pouco como as hienas fazem com os leões e outros predadores, determinados tipos de lobos seguiam os deslocamentos humanos à distância. Sempre prontos para recuperar resíduos como ossos, ligamentos e restos com um pouco de gordura e carne. Nômades, os caçadores coletores primitivos eram comedores de carniça, como os lobos. Com o tempo, os humanos também seguiam e observavam os mesmos lobos para detectar uma presa ou uma carniça. Para esses animais era um ótimo negócio compartilhar uma carniça ou uma caça com os humanos que apresentavam armas, cada vez mais sofisticadas, para obtê-la e defende-la de outros predadores.

A competência em dar sinal em caso da aproximação de intrusos permitiu e garantiu a proximidade, cada vez maior, desses animais com os acampamentos humanos. Uma interdependência estava criada. Trouxemos os filhotes para dentro de nossas cabanas e cavernas. E imaginamos o simétrico: mitos e histórias em que lobos amamentam os fundadores de Roma ou Mogli, o menino-lobo. Sem falar nos lobisomens.

Com essa proximidade, começamos a compartilhar comidas e doenças, ócio e trabalho, inimigos e ameaças. Os humanos puderam, enfim, dormir. Entrar num estágio de sono profundo, confiando sua noite e seus sonhos ao aguçado olfato e à audição superior dos cachorros. Faz pouco tempo. Menos de 20 mil anos de sono tranquilo e profundo contra centenas de milhares de anos de pesadelos.

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Cachorro de índio

Ao contrário do que muitos imaginam, no século XVI, não foram facões, machados ou anzóis, as tecnologias européias mais amplamente desejadas e adotadas pelos indígenas brasileiros e, sim, o cachorro. A razão inicial da ampla difusão e do sucesso dessa tecnologia européia junto aos índios do Brasil foi seu uso como defesa. Os cães foram mais úteis aos indígenas do que o impenetrável e irreprodutível metal dos europeus.

Na chegada dos portugueses ao litoral brasileiro, a expansão territorial dos tupis ainda não estava consolidada, apesar do desaparecimento dos sambaquieiros e outros povos. As guerras entre tribos e aldeias eram permanentes e marcadas pela exoantropofagia. Mulheres e crianças eram as maiores vítimas: fáceis de capturar, imobilizar e transportar, mais indefesas do que os guerreiros. Buscar água ou brincar longe das aldeias era um risco enorme. A vida concreta das mulheres e crianças indígenas era muito distante da mítica visão paradisíaca apresentada em livros atuais de história.

A introdução do cachorro pelos portugueses, principalmente pelas mãos dos jesuítas, inaugurou também um novo tempo de sono tranquilo para os índios. Em caso de aproximação de guerreiros inimigos, de dia ou de noite, os cachorros davam sinal e até atacavam os potenciais agressores. A diferença de situação era enorme. O cachorro foi integrado rapidamente nas tribos como o primeiro mamífero doméstico. E que animal doméstico! O mais extraordinário deles. Capaz de seguir os passos do indígena, obedecendo suas ordens e cumprindo tarefas. Essa intimidade é tal que ainda é comum índias amamentarem cachorros em seus seios ou prepará-los assados como alimento.

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Como no caso dos primeiros grupos humanos, só posteriormente os índios descobriram a capacidade de caça dos cachorros. Ou, quem sabe, não foram eles que a revelaram? A eficiência cinegética dos cachorros, caçando sozinhos ou em matilha, como no caso dos lobos, introduziu mudanças nas técnicas de caça indígenas, e até nos ritos relativos à captura da onça, por exemplo, antes atraída para determinadas armadilhas, cavadas no solo, como indicam relatos dos jesuítas. A capacidade do cachorro de farejar, perseguir e acuar as onças no alto das árvores trouxe uma nova realidade. Nenhum índio se sentia mais num mato sem cachorro. O sucesso reprodutivo dos cachorros garantiu uma rápida expansão de sua presença entre as tribos. Logo os caninos chegaram às aldeias mais remotas, cujo contato com os brancos e suas tecnologias só ocorreria séculos mais tarde.

Símbolo e função

Os cães são naturalmente prolíficos. Cada ninhada tem em média de 6 a 8 filhotes. São fáceis de reproduzir. Os cios são frequentes. As fêmeas aceitam muitos machos. As vezes, uma ninhada tem filhos de vários pais. E o intervalo entre partos é pequeno, o que permite duas crias por ano. Qualquer criador sabe: o tempo de geração curto e os filhotes numerosos são os ingredientes básicos para uma seleção genética animal rápida e eficiente. Há séculos, os humanos selecionam e criam, deliberadamente, raças de cachorros capazes de cumprir as mais diversas funções e papéis, sob variadas formas e formatos. As raças são também símbolos de status, beleza, segurança, riqueza, força etc.

É curioso, mas um trabalho de seleção bastante parecido também foi feito pelos cachorros, sem que os humanos percebessem. Foi assim na Babilônia, nas cidades gregas e no Império Romano. Foi assim no Brasil. Nas ruas e subúrbios das metrópoles, nas fazendas e pequenos sítios, nas margens dos rios amazônicos ou em meio à caatinga, nos lixões e favelas. No caso dos vira-latas, as condições ambientais e as leis de Darwin selecionaram o melhor sucesso reprodutivo e adaptativo, a autonomia e a independência.

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O vira-lata brasileiro é um cão autônomo, de grande inteligência e com uma enorme capacidade de adaptação. Seus formato e tamanho são médios. Nem muito grandes, nem muito pequenos. Sua pelagem é curta e de cores adaptadas às condições ambientais, variando do negro ao bege claro. Correm, nadam, sabem dissimular e têm todos os sentidos aguçados e bastante equilibrados. Muitas pessoas ficariam na dúvida para identificar o nome de uma determinada raça de cachorro com pedigree, coisa de cinófilos e especialistas, mas poucos hesitariam em identificar um vira-lata, um rasga-saco, um pé duro ou um SRD (Sem Raça Definida), na linguagem dos veterinários.

O SRD tolera e resiste a doenças que vitimam outros cães de raça. Ele enfrenta sozinho condições ambientais muito adversas, nas quais os cães de raça não teriam nenhuma chance de sobrevivência, seja no meio do mato, na área rural ou nos grandes centros urbanos. Oposto aos cachorros de raça, especialistas e especializados, o vira-lata é um generalista. Seus talentos, conhecimentos e interesses se estendem a vários “campos”, não se confinando em uma especialização, como seus parentes com pedigree. Ele está geneticamente equipado para lidar com as mais diversas situações, impostas pela natureza ou pelos humanos.

Uma coleção de acasos e oportunidades deu origem e moldou o vira-lata brasileiro. Ele segue evoluindo enquanto, no caso dos cães de raça, o esforço dos humanos é garantir a não evolução, a manutenção das características da raça e sua imutabilidade. Nesse processo, o animal vira-lata foi muito mais proativo do que os humanos. Na história da introdução e multiplicação de cachorros pelo Brasil afora, o cão foi mais sujeito do que objeto. Ele sentia o cio das fêmeas. Ele fugia para encontrá-las e viver suas aventuras. Pouco exigente em termos de alimento e abrigo, ele fez sua vida nas fazendas, nos vilarejos, seguindo e abandonando boiadas ou bandeiras, sítios e residências, saltando de canoa em canoa, de vagão em vagão, de circo em circo, seguindo andarilhos e romeiros, ou caminhando solitário pelas trilhas e estradas, empreendendo viagens aventureiras e amorosas, pelas terras do Brasil.

Olhos nos olhos

É necessário um treinamento enorme para um chimpanzé aprender o significado de uma ordem ou de dois gestos humanos. Um cachorro é capaz de entender mais de 100 palavras e identificar pelo nome até 200 objetos. No Pantanal, na pampa, nas caatingas, nos cerrados e nas montanhas de Minas Gerais, os cães pastores, de raça não definida, atendem a apitos, assobios, gritos, palavras e gestos, mesmo a grandes distâncias, realizando com precisão suas tarefas junto aos rebanhos de bovinos, ovinos e caprinos. Da mesma forma, na zona rural, os vira-latas aprendem e colaboram nas diversas técnicas de caça empregadas no caso de onças, tatus, pacas, perdizes, jacus ou do que seja. A razão é simples: há milhares de anos o cachorro tem sido selecionado para nos entender, nos ajudar, cumprir nossas ordens e atender nossos desejos.

Desde sua domesticação, o cachorro tornou-se um animal poliglota, um dos poucos capazes de comunicação interespecífica. Esse animal bilíngue comunica-se com sua espécie e com os humanos, como nenhum outro. Os cães estão sempre atentos, captam e interpretam corretamente a voz dos humanos, seus gestos, a expressão de seus rostos e, sobretudo, seus olhos. Eles são os únicos animais a observar os olhos humanos, reagindo de forma pertinente. Um cão faceum homem vendado ou encapuçado fica perplexo. Nenhum outro animal fixa tanto os nossos olhos. Poucos o fazem de forma tão profunda, como os vira-latas. É sua obrigação insinuar-se e enxertar-se em permanência no meio dos humanos, acompanhando sua evolução tecnológica e urbana, conquistando os mais diversos grupos e lugares sociais. O primeiro terráqueo no espaço sideral foi um cão: a cadela russa Laika.

Alguma raças de cachorros praticamente não latem, outras não uivam e outras ainda, são muito barulhentas. Os vira-latas, dada a multiplicidade de situações que enfrentam para sobreviver em meio a outros animais e humanos, em áreas rurais e urbanas, não perderam uma só nota musical de suas competências sonoras. Para humanos atentos e acostumados com cachorros, eles são capazes de rosnar, acuar, barroar, cainhar, esganiçar, ganir, ladrar, latir, uivar e ulular. Não temos tantos verbos para descrever os sons de uma outra espécie animal. Em geral, basta um ou dois. E, no universo sonoro, os cães ainda são capazes de muito mais. Nós é que, simplesmente, não os escutamos.

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Suas orelhas, movidas por 25 músculos, giram, sobem, descem, movem-se de forma dissociadas ou coordenadas e detectam com precisão a origem dos sons. Para defender um estábulo ou caçar uma presa, esse recurso é fundamental. Cães são muito mais eficientes que gatos ao caçar ratos, apesar do marketing dos felinos. Eles ouvem os ruídos sutis das mandíbulas dos roedores, roendo, e sabem onde estão. Seus aparelhos auditivos captam frequencias 2 a 3 vezes maiores do que somos capazes. Em termos de comparação, para alcançar a gama auditiva dos cães teríamos de agregar 48 teclas à direita de um piano. Por isso, eles sabem, de longe, pelo som, se um animal escapou do curral, se um estranho parou do lado de fora do muro ou se o veículo de sua dona aproxima-se a cinco quadras dali. E tomam as providências pertinentes.

Faro fino

Cães de raça são procurados em canis especializados, comprados por altos valores, com atestados de pedigree. No caso dos vira-latas é o contrário. São eles quem buscam os humanos. Eles são capazes de insinuarem-se e serem úteis nos mais diferentes ambientes ecológicos, sistemas de produção ou condições sociais do Brasil. Se os atestados de pedigree documentam toda a linhagem genealógica de um cão de raça, raramente têm-se idéia de quem foram os pais de um sem raça definida. Mesmo assim, um cão de raça, com chip de identificação e toda sua genealogia mapeada, tem pouca chance de sobreviver se for abandonado na avenida Paulista em São Paulo.

Os vira-latas urbanos aprenderam a atravessar as ruas. Aguardam os veículos passarem. Respeitam os sinais. E, em muitos casos, usam homens-guias. Nos cruzamentos mais difíceis, eles observam e seguem os humanos. Da mesma forma que os deficientes visuais utilizam-se de cães-guias, os vira-latas, nessas situações e em algumas outras, servem-se dos humanos. Sem necessitar treina-los. Devem fazer comentários impressionantes entre si, mas inaudíveis para nós, sobre essa domesticação de humanos urbanóides.

Os vira-latas demonstram tão rapidamente sua capacidade de aprender e expandir sua mente por razões genéticas. Mas também porque desde os primeiros dias de seu nascimento estão expostos a uma grande variedade de experiências sensoriais, principalmente nas patas. Seguem suas mães no capim, na areia, no cimento e na terra. Seu sistema proprioceptivo está, inicialmente, na base das quatro patas. Criados junto às crianças em terreiros de fazendas, jardins ou quintais, esses cães são mais do que companheiros: eles influenciam a psicologia humana pelo resto da vida. Existem sepulturas de mais de 10.000 anos em que cachorros foram enterrados ao lado de seus donos. E há muitos cemitérios dedicados aos cachorros em nossas cidades.

O agitar da cauda expressa a vida emocional dos cachorros, da mesma forma que nossas expressões faciais. A cauda é, de certa forma, o rosto do cão. Estudos comprovam que o rabo balança, de forma assimétrica, de um lado para o outro. O cachorro agita sua cauda mais para a direita na presença ou proximidade do seu dono e em situações de conforto. Ele a balança mais para a esquerda quando está com medo, cauteloso ou apreensivo. Como diz a lenda, existem vira-latas tão inteligentes que são capazes de jogar pôquer. Mas nunca ganham porque quando têm um bom jogo… sempre balançam o rabo.

A maior genialidade sensorial do vira-lata é seu olfato. Além de uma sensibilidade bem superior à nossa, o que assombra é sua capacidade seletiva. Onde sentimos cheiro de feijoada, o cachorro identifica o odor da línguiça, do feijão, do louro, da cebola e de todos os ingredientes, um por um. O olfato seletivo dos vira-latas permite que sigam uma pista, uma presa ou uma fêmea por longas distâncias. Eles identificam no meio de um saco de lixo ou de um monturo repleto de odores químicos, industriais, orgânicos etc. a presença de algum alimento comestível. Por menor que seja. Ou, em outras palavras, praticamente qualquer produto orgânico, em qualquer estado de decomposição. Vira-latas não ruminam. Engolem rapidamente, quase sem mastigar. Seus sucos gástricos poderosos transformam todas as matérias e bactérias em nutrientes saudáveis.

Com esse conjunto de excelências é normal que, como superlativo de beleza, utilizemos em português a expressão “Bonito pra cachorro!”. Da mesma forma, um prato delicioso é “Bom pra cachorro”. Para elogiar a excepcional competência ou desempenho de alguém, dizemos “O cara é o cão!”. E a fidelidade a toda prova é a fidelidade canina.

Atores históricos

Os vira-latas desembarcaram com os povoadores portugueses, participaram das entradas e bandeiras, testemunharam o Grito do Ipiranga às margens plácidas, o golpe militar do 15 de novembro e estiveram presentes nas diversas expedições do Marechal Rondon e dos irmãos Villas Boas. Há uns quinze anos atrás, ouvi emocionado, numa roda de jornalistas, uma lição de patriotismo relatada pelo grande indigenista Orlando Villas Boas, bem do seu jeito, como quem conta um causo. Eu vou narrar, do jeito que eu me alembro.

Orlando Villas Boas estava numa de suas heróicas expedições pelo Brasil desconhecido, sem contato com a civilização há muito tempo. Um dia, consultando seu diário, realizou que era 7 de setembro. Não teve dúvidas. Mandou improvisar um mastro com um tronco de paxiúba. Reuniu todos seus homens e, em ordem unida, hastearam a bandeira brasileira e cantaram o hino nacional, lá no coração da selva. Uma manifestação cívica sem nenhuma outra testemunha do que a natureza, naquele fim de mundo. A emoção foi geral. Terminada a comemoração patriótica, o chefe de seus mateiros, um rude e experimentado sertanejo, aproximou-se. Com jeitinho, quase confidente, puxou o sertanista de lado e comentou:

Bonita cerimônia, heim, Dr. Orlando?

Pois é.

Agora, mal lhe pergunte…

Sim…

Qual foi mesmo a razão dessahomenage toda?

Ora! A Independência!

Ah! Ela merece. Merece mesmo.

Como ela?

A Pendência.

Pendência?

É. Ela. Cachorra boa pra paca como a Pendência nunca mais nóis tivemo, depois que aquela onça matô a coitada. E eu que já quase nem me alembrava do dia dessa tragédia.

BOX SOBRE O VIRA-LATA TUCON

De todos meus vira-latas, o mais excepcional chamou-se Tucon. Da expressão francesa, pouco elogiosa, Tout Con, Todo Besta. Comprei-o de um garoto, numa calçada. Criou-se em Petrolina, no sertão pernambucano. Quase morreu de cinomose. Deu uma de sertanejo. Sobreviveu e tornou-se um forte. Não era Nada Besta. Fazia coisas extraordinárias. Sempre o levava nas pesquisas de campo. Se ele deixasse de me seguir na caatinga, podia parar e retornar. Caira algum objeto. Ele ficava ao lado, guardando. Fosse um termômetro, uma faca ou um papel. Ai de quem se aproximasse. Atendia mais de vinte ordens diferentes. Quando estudava um animal selvagem, bastava um pequeno gesto ou uma expressão com os olhos para que ele fosse numa ou noutra direção, espantando-o para mim. Era preto, com o peito amarelo. Canindé, como se diz no sertão. Tinha duas pintas amarelas sobre os olhos. Era quatrolho. Por isso, enxergava muito bem à noite. Tinha uma unha no alto de cada pata dianteira. Era pisunho. Por isso, o lobisomem nunca se aproximaria de casa. Tinha o peito pronunciado e uma cintura fina. Era vazado. Por isso, tinha um fôlego enorme. Era pé-duro e corria muito. Um vaqueiro me ofereceu uma rez em troca do cachorro. Um caçador, seu rádio e sua bicicleta. Tucon ofendeu-se com essas propostas indecentes. Sobreviveu quando nos perdemos no Raso da Catarina, atravessamos a pé a Chapada do Araripe e exploramos a alcantilada Serra de Sento Sé. Lutou e venceu cães enormes e ferozes, brincou com mocós, nadou no São Francisco e enfrentou serpentes. Um dia, esse sertanejo migrou para S. Paulo. Como tantos. Morreu atropelado por um táxi, na Lapa.

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Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de .Um velho companheiro. National Geographic, v. 1, p. 30-43, 2010.

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