UM CEMITÉRIO DE ÁRVORES


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

No Brasil, é difícil achar uma época pior para plantar árvores do que a semana do meio ambiente, no início de junho. Mesmo assim, um grande desperdício de energia, dinheiro e boa vontade alheia foram gastos em publicitários plantios de árvores na semana passada. Na falta de ações concretas no campo do meio ambiente, políticos e prefeitos tentam mostrar serviço, pelo menos durante essa semana, plantando árvores destinadas à morte.

Nesta época do ano aqui na região Sudeste quase não chove, as temperaturas são baixas e adversas ao crescimento da vegetação. Além de tudo, existe o risco das queimadas e geadas. Qualquer pessoa de bom senso sabe disso. A época é de podar e não de plantar. A primavera só chega ao final de setembro, quando as chuvas voltam e as temperaturas se elevam. Há muitos anos festejávamos – corretamente – o dia da árvore, em setembro, plantando árvores.

A semana do meio ambiente foi definida em países do hemisfério norte. Ali se está em plena primavera, assistindo-se ao anúncio dos frutos do verão. Nada contra festejar o meio ambiente no outono, já que há muito por se fazer. Mas o desconhecimento do tempo e da natureza no plantio de árvores, de quem se apresenta como defensor da mesma, frisa a burrice e levanta suspeita.

É no mínimo um mau uso do dinheiro público ou das isenções ou benefícios fiscais que o estado pode propor nessa matéria. Lembram o trabalho de um banco que começou arborizar canteiros e acostamentos da rodovia dos Bandeirantes, em pleno outono e inverno. O pior é que, sem nenhuma modéstia, elegiam-se em modelo: façam como a gente, plantem árvores em nossas estradas! Deu no que deu. A imensa maioria das árvores morreu com a seca e a geada ou sufocada pelo capim. Em muitos locais o fogo consumiu, não só as mudas, como também as placas de propaganda enganosa dos senhores do dinheiro.

Plantar não é difícil. O duro é fazer a muda de árvore vingar e crescer. Para isso é necessário mais do que uma cova e uma muda. Administrações anteriores de Campinas também lançaram uma tarefa que lembrava metas estalinistas: plantar um milhão de árvores! Em pleno outono, inverno.

Plantar árvores nesta época do ano é o mesmo que semear um cemitério de plantas, com covas, enterro e ritual. Quantas mudas desse milhão restaram? Quantas restarão de todas plantadas na semana passada? Mas há o aspecto educativo, dirá alguém. Por certo existem outras ações de educação ambiental, mais interessantes e eficientes a serem realizadas. Ações que não deixarão para as crianças o exemplo do fracasso.

Ninguém está contra o plantio de árvores, a recomposição da mata ciliar ou o verde na cidade. Mas os problemas do meio ambiente não podem ser confundidos com jardinagem. Campinas e região sofrem e sofrerão cada vez mais de graves questões ambientais, por culpa de seus governantes e também da inconsciência e da falta de civismo de seus moradores.

Basta ver as conseqüências ambientais do traçado de prolongamento da Rodovia dos Bandeirantes, imposto à região. Basta ver a situação crítica do destino do lixo urbano. Basta ver a qualidade cada vez pior da água de beber, originária de rios que servem de mananciais e para o despejo do esgoto industrial e urbano. Basta ver o que foi feito do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Campinas – COMDEMA na administração anterior. E a lista é grande. Passada a semana do meio ambiente, gostaríamos de ver nossos governantes eleitos atuando em temas relevantes e estratégicos e não em maquiagem.

Existem heranças do passado, mas há também esperanças no futuro. De Paulínia, o maior e mais grave foco de poluição do ar e das águas da região, chegou a notícia que a Petrobrás vai – enfim – fornecer uma gasolina e um diesel com menos enxofre para Campinas. Os excelentes resultados do programa de prevenção de incêndios nas matas, promovido em conjunto pela Prefeitura de Campinas, Polícia Florestal, Corpo de Bombeiros, Núcleo de Monitoramento Ambiental da Embrapa e Defesa Civil, é outro exemplo de como parcerias podem ajudar a resolver problemas crônicos. A presença do prefeito municipal na audiência pública da Área de Proteção Ambiental do Camanducaia foi um sinal animador. Quem sabe outras ações positivas serão engajadas. Quem sabe a semana do meio ambiente de 1998 tomará outra dimensão e o sacrifício das árvores, na entrada do Terceiro Milênio da Era Cristã, não terá sido inútil.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Um cemitério de árvores. Correio Popular, Campinas – SP, p. 03, 14 jun. 1997.

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