SOBRE A FAMÍLIA E A HISTÓRIA DAS PIMENTAS


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

A batata (Solanum tuberosum), a beringela (Solanum melongena), o tabaco (Nicotiana tabacum), o tomate (Lycopersicon esculentum) e as pimentas (Capsicum sp.) pertencem à mesma família vegetal: as solanáceas. Trata-se de uma grande família, espalhada por todo o planeta, com mais de 90 gêneros e cerca de 3.000 espécies. Apesar da distribuição mundial, a maioria das espécies se concentra na América do Sul, na América Central e na Austrália. Na sua grande maioria, são ervas e arbustos.

A palavra solanácea vem do latim solari – consolar ou aliviar – devido às propriedades calmantes (narcóticas) de algumas espécies. Outras são venenosas e terapêuticas: o tabaco (rico em alcalóides e com propriedades inseticidas), a mandrágora ou mandrake (Mandragora officinarum), a belatona (Atropa belladonna, de onde extrai-se a atropina), a erva do diabo do escritor Carlos Castañeda e as daturas (Datura inoxia, Datura stramonium), ricas em estramônio e escopolamina, as pimentas e os pimentões (verdes, vermelhos, doces e tipo caiena). São mais de 20 espécies do gênero Capsicum. Muitas são silvestres e outras totalmente domesticadas pelo homem, com grande variedade de tamanho, cor, forma e pungência, como a pimenta de passarinho, de cheiro ou de bode (Capsicum chinense); a pimenta malagueta (Capsicum frutescens); (Capsicum pubescens); a pimenta vermelha, cambuci, fina, dedo de moça (Capsicum baccatum); os pimentões e a pimenta jalapeña (Capsicum annuum). A maior diversidade de espécies do gênero Capsicum na América do Sul encontra-se na Mata Atlântica entre o Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.

Cristóvão Colombo descobriu as pimentas em 1492. Diego Alvarez Chanca, médico a bordo da segunda expedição de Colombo de 1493, embarcou as primeiras plantas de Capsicum para a Espanha. Em 1494 escreveu sobre os efeitos medicinais destas plantas. Levadas pelos portugueses para a Europa, África e Ásia, já no século XVI uma variedade de pimenta em Goa (Índia) era chamada de Pernambuco, documentando sua origem. O Livro de Cozinha da Infanta Da. Maria de Portugal, de 1507, apresentava diversas receitas de carnes com pimenta.

O alemão Hans Staden, prisioneiro dos índios tupinambás entre 1547 e 1555, fez um relato bastante circunstanciado das pimentas: “Há duas qualidades de pimenta naquela terra. Uma é amarela, outra vermelha. Ambas as qualidades crescem porém da mesma maneira. Quando a pimenta está verde tem o tamanho do fruto da roseira brava, que cresce no espinheiro. O pimenteiro é um pequeno arbusto de mais ou menos uma braça de alto. Tem pequenas folhas e fica cheio de pimenta. A pimenta tem gosto ardido. Os selvagens a colhem e secam ao sol.” Staden relatou o uso da pimenta como alimento (“Quando os índios cozinham peixe ou carne põem dentro habitualmente pimenta verde.”) e como arma de guerra (“Quando o vento sopra, fazem uma grande fogueira e lançam dentro um montão de pés de pimenta. Se a fumaça dá de encontro às cabanas, o inimigo tem que sair então para fora.”). Séculos depois, o mesmo princípio é empregado no spray de pimenta utilizado pela polícia e em armas de defesa pessoal.

Dentre os primeiros e principais registros científicos sobre a pimenta está o trabalho de Leonhartus Fuchsius de 1543: De historia stirpium. Ele apresenta a descrição e três desenhos da pimenteira, muito detalhados. Os frutos e sementes da pimenta espalharam-se pelo mundo e foram incorporados à culinárias dos mais diversos povos. Hoje, só a China planta mais de 700.000 hectares de pimenta e os tailandeses e coreanos estão entre os maiores consumidores do mundo: 5 a 8 gramas por pessoa/dia. A palavra Pimenta tornou-se sobrenome no Brasil e em Portugal, – presente em personagens históricos como José Antônio Pimenta Bueno, Visconde e Marquês de São Vicente. Pimenta e Pimenteiras designam rios, bairros e cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Rondônia e São Paulo.

1 comment for “SOBRE A FAMÍLIA E A HISTÓRIA DAS PIMENTAS

  1. Maria da Cruz Rodrigues de Alencar
    5 de novembro de 2015 at 23:05

    Seu artigo me ajudou bastante, uma vez que estou escrevendo meu TCC sobre pimenta.
    Parabéns pelo seu trabalho.

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