SER TÃO SEM FUTURO

(02/01/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

O Século 19 terminou com uma tragédia: a campanha militar da rés-pública contra o povo de Canudos:

“Agora tenho de falar-vos de um assunto que tem sido o assombro e o abalo dos fiéis, de um assunto que só a incredulidade do homem ocasionaria semelhante acontecimento: a república, que é incontestavelmente um grande mal para o Brasil.”

Assim falava Antonio Conselheiro, de um regime que começou sob governos militares e em um século acumulou mais de 50 anos sob ditadura.
O Século 20, graças a Euclides da Cunha, começou com a publicação de um dos capítulos mais singulares da prosa brasileira, um clássico sobre a criminosa Campanha de Canudos: Os Sertões. Com ciência e consciência, Euclides apresentou um quadro do semi-árido brasileiro onde o conjunto de seus acertos superou, de longe, alguns de seus deslizes. Como o tríptico das capelinhas de madeira dos sertanejos, seu livro dividiu-se em três partes: A Terra, O Homem e A Luta.
Os Sertões revelou aos brasileiros um país desconhecido e deu um enorme sentido à tragédia de Canudos. Foi a primeira tentativa de explicação a partir do quadro natural, econômico, social, cultural, político e religioso do que realmente aconteceu. De lá para cá, muitas pesquisas, livros, ensaios, filmes e reportagens tentam desvendar ainda – longe de esgotar – o inexplicável. Foi assim, em Fortaleza, no Fórum de Debates sobre Natureza e Sociedade no Semi-Árido, no final de Agosto passado, que um grupo de cientistas buscou “atualizar” Os Sertões.
Esse Fórum reuniu especialistas do Brasil e exterior. Ele seguiu o formato euclidiano: um dia dedicado à Terra, outro ao Homem e o último à Luta. A iniciativa foi da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos – FUNCEME, em parceria com o International Research Institute for Climate Prediction e contou com o apoio do Banco Mundial e outras instituições.
Canudos fica na Bahia, mas Antonio Conselheiro – homem letrado, que sabia francês, latim e deu aulas particulares de matemática – era cearense. O encontro buscou reviver o debate da Conferência Internacional sobre Impactos de Variações Climáticas e Desenvolvimento Sustentável em Regiões Semi-Áridas, iniciado em Fortaleza no ano da RIO’92. O Fórum confirmou o quanto se aplica ao autor de Os Sertões, o adágio latino: Ars longa, vita brevis.
Euclides não falou de sertão, mas dos sertões. Com mais de 800.000 km2, o semi-árido brasileiro está longe de ser um detalhe geográfico. São muitos sertões. A região reúne a maior diversidade espacial e temporal de paisagens do país. A caatinga, por exemplo, possui cerca de 600 espécies de árvores, contra menos de 100 em toda Europa. Ela fornece uma infinidade de bens e serviços como fonte de lenha, madeira, carvão (30% da energia consumida no Ceará vem da caatinga!), fibras, substâncias aromáticas, medicamentos (patenteados por multinacionais) e frutas (Israel produz e exporta para a Europa, por US$ 7/kg, uma iguaria: o fruto do mandacaru!). A caatinga é a base de uma grande produção animal, desde o mel (o Nordeste é o segundo produtor nacional e o primeiro de cera de abelha) até a pecuária (18% do rebanho bovino, mais de 90% do caprino e asinino e 50% dos eqüinos).
Sua fauna é diversificada, com muitas espécies endêmicas. Além disso, a vegetação do semi-árido cumpre importante papel na preservação dos solos, na reciclagem de nutrientes e no funcionamento das bacias hidrográficas.
Os sertões estão mudando. Nos últimos anos, ocorreram transformações sem precedentes no semi-árido: intensa urbanização, desenvolvimento de infra-estruturas e serviços, expansão da irrigação no Vale do São Francisco, no Oeste da Bahia e no Rio Grande do Norte, crescimento extraordinário da produção de soja, milho e algodão no Oeste baiano, Sul do Maranhão e Piauí.
Mas o padrão tecnológico do uso e ocupação das terras está mudando nos sertões, com um inédito surto de desmatamentos e queimadas. Lavouras avançam sobre a vegetação natural. A caatinga é substituída por plantios de gramíneas exóticas ou transformada com técnicas de rebaixamento e raleamento.
O recente mosaico de imagens orbitais, disponibilizado na Internet pela Embrapa Monitoramento por Satélite (www.cnpm.embrapa.br), permite de observar – com detalhes da ordem de 30 m – essas mudanças.
Meteorologistas alertam para um novo episódio do El Niño e para mais uma seca na região com 60% de chances de ocorrer.
Qual será a sustentabilidade dos novos sistemas de produção, um século depois de Os Sertões, frente a essa calamidade tão bem descrita por Euclides da Cunha? Mínima. Os sertanejos estão ainda mais fragilizados, frente aos efeitos da seca. Vivem num ambiente ecologicamente empobrecido, incapaz de oferecer recursos alternativos face à escassez de água e alimentos, à margem das ilhas de modernidade agrícola existentes no semi-árido. Mais uma vez, homens e animais, sofrerão de sede e fome, a poucos quilômetros do Rio São Francisco.
Cercado pelo desmatamento, o “Velho Chico”, superexplorado para geração de energia, transporte fluvial, coleta de esgotos urbanos e industriais, como fonte de água para consumo humano, animal e para a agricultura irrigada, pede socorro!
Mas, os sertões não têm o appeal da Amazônia, nem contam com uma ínfima parte dos recursos humanos e financeiros dedicados à preservação da floresta tropical úmida. E ainda existem campanhas pela transposição de suas poucas e preciosas águas…

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”.

Assim, Euclides da Cunha prefaciava seu livro em 1902. Cientistas reunidos em Fortaleza constataram enormes avanços na compreensão da natureza e da sociedade no semi-árido. Avançam experiências positivas de conservação de solo e água, como o milhão de cisternas rurais em instalação pela Igreja e pela Caritas, fornecendo água em qualidade e quantidade, reduzindo as doenças, liberando o tempo de busca da água para o lazer e trabalho e diminuindo a dependência ao coronelismo local, que ainda comanda a distribuição com caminhões pipa.
O fracasso da SUDENE e o atual vácuo de políticas públicas capazes de dar um tratamento justo e global à questão nordestina é real. A omissão com os sertões começa nas elites litorâneas; estas – como afirmava o discurso de posse de Tancredo Neves – nunca tiveram para com seu próprio povo, a solidariedade que, em seu nome, ousam reclamar do resto da Nação. O que se dirá para com o meio ambiente? Denunciemo-las.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Ser tão sem futuro. EcoRio, v. 70, p. 10-11, set. 2002.

 

 

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