SALVEM OS SOLOS

(02/01/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Recobertos pela urbanização, por estradas e barragens; transformados em depósitos de lixo e produtos tóxicos; contaminados por metais pesados, vazamentos de petróleo e poluentes persistentes ou ainda destruídos pela erosão, os solos são vítimas de um silencioso desastre no Brasil e no mundo.
A preservação das águas, das florestas e da biodiversidade é objeto de preocupação local e internacional. Um sem número de iniciativas busca reduzir poluição, destruição e comprometimento desses recursos. Várias convenções e tratados têm sido firmados.
O financiamento de ações visando sua sustentabilidade atinge vários bilhões de dólares. Mas, paradoxalmente, quase nada tem sido feito para os solos, base fundamental da vida, decisivos na qualidade das águas, do ar e na sobrevivência da vegetação, da fauna e da humanidade.
Os solos, as terras, não são um recurso renovável. A ciência demonstra que sua renovação leva séculos. Para as realidades humanas, eles devem ser considerados um recurso não renovável. Sua degradação reduz a capacidade de produzir e manter os outros recursos renováveis (florestas, alimentos, populações etc.). A qualidade da água e alimentos depende diretamente da qualidade dos solos. Nossa biodiversidade está estreitamente ligada às propriedades dos 247 tipos de solos existentes no Brasil. Os solos são também uma relevante possibilidade de seqüestrar-se carbono da atmosfera, pelas raízes das plantas e na matéria orgânica, graças a novas práticas culturais como o plantio direto na palha ou o cultivo sem aração.
No Brasil, a expansão do plantio direto já ultrapassa 13 milhões de hectares www.embrapa.br/plantiodireto, levando à redução de 90% da erosão dos solos, preservando rios, lagos e barragens do assoreamento e melhorando a qualidade e a disponibilidade de água para irrigação e consumo.
Dados municipais indicam custos menores no tratamento da água e diminuição de enchentes e desmoronamentos, como pode ser conferido em www.agri.com.br/febrapdp. Essa tecnologia, ao eliminar aração e outras operações de preparo do solo, reduziu o tempo de trabalho nas fazendas, favoreceu a diversificação de atividades, diminuiu a migração para as cidades e aumentou a biodiversidade. O uso de combustíveis fósseis caiu 60 a 70%, limitando a emissão de gases com efeito estufa.
Estima-se que 130 milhões de toneladas de carbono são retiradas da atmosfera para cada aumento de 1% de matéria orgânica nos primeiros 20 cm de solo nessas áreas de plantio direto. No mercado virtual de carbono, isso representaria a geração de créditos compensatórios da ordem de um bilhão de dólares/ano!
Apesar dessas soluções ecológicas da agricultura brasileira, a maioria dos fenômenos de degradação dos solos são irreversíveis e tem se acelerado continuamente. O monitoramento por satélite mostra uma crescente disputa pelo uso e ocupação das terras (agricultura, pecuária, infra-estrutura, indústria, urbanização, preservação etc.) principalmente nas regiões Sul e Sudeste www.cnpm.embrapa.br. Esses processos indicam a necessidade de políticas mais específicas e coordenadas (interministeriais) com relação aos solos. Devido à multiplicidade de usuários, planejamento e preservação dos solos também deveriam espelhar essas hierarquias, desde planos diretores de municípios e bacias até o zoneamento ecológico-econômico do país.
Hoje, o grito de SOS, talvez, deva ser entendido como Salvem Os Solos!. Com sua diversidade ecológica, sob florestas e campos cultivados, armazenando rejeitos tóxicos, sepultados sob asfalto e concreto, os solos lançam um chamado às consciências: desçam à terra, desçam à base de suas vidas. Não existe sequer uma ONG no país, criada para defender os solos! Como se um dos maiores desafios ambientais deste século, intimamente relacionado com as preocupações relativas às mudanças climáticas e à biodiversidade, não estivesse sob os nossos pés.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Salvem os Solos!. EcoRio, Rio de Janeiro – RJ, v. 57, p. 18-19, 2001.

 

 

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