PRATO CHEIO


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Está sobrando alimentos no Brasil. O país tem mais obesos do que subnutridos, segundo divulgou o IBGE a propósito da POF, a Pesquisa de Orçamento Familiar realizada entre 2002 e 2003. Para um agrônomo, essas informações são literalmente um “prato cheio”. Dos 95,5 milhões de brasileiros com 20 anos ou mais, apenas 4% têm déficit de peso, incidência considerada normal pelos especialistas, já que há pessoas naturalmente magras. Esses mesmos resultados alertam para outro problema na saúde dos brasileiros: a obesidade. São 38,5 milhões de brasileiros acima do peso, o que representa 40,6% da população de adultos. Destes, 10,5 milhões, são obesos. Os dados não abordaram o tema das crianças, nem de seus hábitos alimentares, muito menos o quanto eles podem determinar uma vida adulta com saúde. Eles ilustram a realidade da segurança alimentar, pouco destacada pela mídia. Onde estariam os 53 milhões de pessoas famintas evocadas na última eleição presidencial?

É fácil observar porque o prato esta “cheio”. A agricultura brasileira produz cerca de 130 milhões de toneladas de grãos/ano. Se for considerada a produção de alimentos consumidos in natura (frutas, legumes, verduras…), raízes e tubérculos (batata, mandioca, inhame…), cereais (arroz, trigo, milho…), leguminosas (feijões, soja, amendoim…) e outros alimentos o total ultrapassa em muito os 200 milhões de toneladas. Sem mencionar os produtos do extrativismo, muito significativos em culinárias locais como açaí, buriti, chocolate, diversos palmitos etc. Nem toda essa produção é destinada diretamente ao consumo humano ou ao mercado interno, além de conter proporções variadas de proteínas, carboidratos e oleaginosos comestíveis. Mesmo assim, são números muito expressivos.

A população projetada pelo IBGE para 2005 é de 184 milhões de habitantes. Comparando-se população e produção agrícola, a disponibilidade potencial de alimentos de origem vegetal por habitante é superior a uma tonelada por ano! Isso representa uma segurança alimentar quatro vezes superior ao estipulado pela OMS (órgão da Organização das Nações Unidas para a Saúde), da ordem de 250 kg de grãos por habitante/ano. Graças aos avanços científicos e a outros fatores, a produção agrícola segue crescendo mais do que a população, no Brasil e no mundo. E melhorando em qualidade.

É o caso do feijão. No Brasil, seu consumo vem caindo a cada ano. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em 1965, o consumo alcançava 25 quilos/habitante/ano. Hoje, está na faixa de 14 a 15 quilos. O Brasil ainda é um dos maiores consumidores, perdendo apenas para alguns países da África, com média anual de 50 quilos por habitante. Graças a pesquisa agropecuária, não só a produtividade dos feijoeiros tem aumentado: estão surgindo variedades biofortificadas, com maiores teores de ferro, proteína, vitaminas, sais minerais e fibra solúvel. O percentual de fibras no feijão pode variar de 16% a 33% e o consumo diário de 30 gramas de feijão garante 28% das necessidades de ferro do organismo. Segundo a FAO (órgão da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), 130 gramas de feijão são suficientes para atender 100% das necessidades de ferro. A pesquisa agropecuária também tem melhorado as características culinárias das novas variedades em termos de sabor, textura de caldo, cor e tempo de cozimento, cada vez mais curto, abaixo de 30 minutos. Economia de tempo, combustível, impacto ambiental e dinheiro.

Além do arroz, feijão, pão e macarrão, o prato do brasileiro também anda cheio de carnes. Os brasileiros comem cada vez mais proteínas animais. Um bom exemplo é a carne de frango. Para 2005, a demanda é de mais de 6 bilhões de toneladas. O consumo atual é de 33 kg de carne de frango por habitante, bem superior ao do feijão. Em 1990, esse consumo era de 14,2 kg. A aquisição domiciliar de carnes aproxima 40 kg/habitante/ano, o que exclui o consumo fora do domicílio – muito significativo em regiões economicamente mais desenvolvidas -, bem como o alimento adquirido pronto para consumo. O IBGE levantou quase um quilo per capita anual só para o frango assado, empanado etc. levado para ser consumido em casa. Nas proteínas animais, ainda deveria ser considerada a caça e toda a coleta de peixes e crustáceos, sobretudo na Amazônia, Centro Oeste e litoral. Agregando-se coxinhas e espetinhos, quibes e esfihas, presuntos e salames, toda carne consumida nas churrascarias, os pedaços de frango, bifes e hambúrgueres servidos em refeitórios, merendas escolares, restaurantes, redes de fast-food etc., o consumo médio dos brasileiros ultrapassa um quilo por semana. Nada mal. E nesse sentido vai bem a alimentação dos brasileiros.

As proteínas animais não se limitam às carnes e incluem outros alimentos como ovos, leite e derivados (manteiga, iogurtes, queijos etc.). O Brasil captou em beneficiadoras e indústrias mais de 14 bilhões de litros, dos mais de 22 bilhões produzidos em 2004. A produção de ovos em 2004 foi cerca de 1,5 bilhões de dúzias. Proteína animal completa, o ovo contribui na alimentação dos brasileiros, incorporado aos mais diversos produtos alimentares (bolachas, macarrões, sorvetes, doces, pães etc.). Sem falar nos 6 milhões de codornas e seus ovinhos.

Com o prato cheio, com segurança alimentar e uma população bem alimentada será mais fácil para o Brasil atingir as famosas Metas do Milênio, adotadas na Conferência das Nações Unidas de Copenhague por 189 países. Seremos ajudados pela produção agrícola, pelo barateamento dos alimentos e pela educação. Entre as metas beneficiadas estão as que buscam, entre 1990 e 2015, reduzir em dois terços a mortalidade infantil e em três quartos a taxa de mortalidade materna. A meta de reduzir pela metade a população vivendo em condições extremas de pobreza também poderá ser atingida, se depender dos agricultores e da tecnologia agrícola nacional. Uma outra Meta do Milênio visa objetivos de universalizar o acesso à educação e isso tem a ver com obesidade, de crianças e adultos.

Os dados do IBGE, do agronegócio, da produção agrícola e o aumento dos obesos mostram que está “sobrando” comida no Brasil. Ao contrário de tantos países da África e América Latina, no Brasil a segurança alimentar é uma realidade consolidada. Os hábitos alimentares da população se alteraram. O consumo alimentar per capita continuará aumentando significativamente em conseqüência do desenvolvimento econômico e da redução constante do preço dos alimentos. Cresce o poder de compra de alimentos pelas famílias, mesmo quando sua renda fica constante. Aliás, a obesidade não faz muita distinção de renda: 12,7% das pessoas que ganhavam entre R$ 50 e 100 reais eram obesas. Entre os que recebiam acima de mil reais, o percentual de obesos era de 11,7%. Daí a importância de universalizar e melhorar a educação. Quem sabe chegará o dia em que a preocupação da já educada população brasileira será apenas a de controlar seu peso, colocando menos comida no prato, com mais critério e consciência? Contradizendo, enfim, a afirmação bíblica de que “todo o trabalho do homem é para a sua boca” (Ecl 6,7).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Prato Cheio. Revista E-SESC SP, 01 maio 2005.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *