O SERTÃO VAI VIRAR PASTO


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Há um século, Euclides da Cunha publicava um dos capítulos mais singulares da prosa brasileira, um clássico sobre a criminosa Campanha de Canudos: Os Sertões. Com ciência e consciência, Euclides apresentou um quadro do semi-árido brasileiro onde o conjunto de seus acertos superou, de longe, alguns de seus deslizes. Como o tríptico das capelinhas de madeira dos sertanejos, seu livro divide-se em três partes: A Terra, O Homem e A Luta. Os Sertões revelaram um Brasil desconhecido e deram um enorme sentido à tragédia de Canudos. O Grupo Estado dedicou recentemente um site aos 100 anos de Os Sertões (www.estadao.com.br). Em Fortaleza, um grupo multidisciplinar de cientistas buscou “atualizar” Os Sertões.

Um Fórum de Debates sobre Natureza e Sociedade no Semi-Árido reuniu especialistas do Brasil e exterior. Ele seguiu o formato euclidiano: um dia dedicado à Terra, outro ao Homem e o último à Luta. A iniciativa foi da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos – FUNCEME, em parceria com o International Research Institute for Climate Prediction. O encontro buscou reviver o debate sobre desenvolvimento sustentável em regiões semi-áridas, iniciado no ano da Rio-92, e confirmou o quanto aplica-se ao autor de Os Sertões, o adágio latino: Ars longa, vita brevis.

Euclides não falou de sertão, mas dos sertões. Com mais de 800.000 km2, o semi árido brasileiro está longe de ser um detalhe geográfico. São muitos sertões. A região reúne a maior diversidade espacial e temporal de paisagens do país. A caatinga possui cerca de 600 espécies de árvores, contra menos de 100 em toda Europa. Ela fornece uma infinidade de bens e serviços como fonte de lenha, madeira, carvão (30% da energia consumida no Ceará vem da caatinga!), fibras, substâncias aromáticas, medicamentos (patenteados por multinacionais) e frutas (Israel produz e exporta para a Europa, por US$ 7/kilo, uma iguaria: o fruto do mandacaru!). A caatinga é a base de uma grande produção animal, desde o mel (o Nordeste é o segundo produtor nacional e o primeiro de cera de abelha) até a pecuária (18% do rebanho bovino, mais de 90% do caprino e asinino e 50% dos eqüinos). Sua fauna é diversificada, com muitas espécies endêmicas. Além disso, a vegetação do semi-árido cumpre importante papel na preservação dos solos, na reciclagem de nutrientes e no funcionamento das bacias hidrográficas.

Nos últimos anos ocorreram transformações sem precedentes no semi árido: intensa urbanização, desenvolvimento de infra-estruturas e serviços, expansão da irrigação no vale do S. Francisco, no oeste da Bahia e no Rio Grande do Norte, crescimento extraordinário da produção de soja, milho e algodão nas áreas de fronteira agrícola do oeste baiano, sul do Maranhão e Piauí. O padrão tecnológico do uso e ocupação das terras está mudando, com um inédito surto de desmatamentos e queimadas. Lavouras avançam sobre a vegetação natural. A caatinga é substituída por plantios de gramíneas exóticas ou transformada com técnicas de rebaixamento e raleamento. O recente mosaico de imagens orbitais, disponibilizado na Internet pela Embrapa Monitoramento por Satélite (www.cnpm.embrapa.br ), permite de observar – com detalhes da ordem de 30m – essas mudanças.

Meteorologistas alertam para um novo episódio do El Niño e talvez para mais uma seca. Qual será a sustentabilidade dos novos sistemas de produção frente a essa calamidade, tão bem descrita por Euclides da Cunha, um século depois? Mínima. Os sertanejos estão ainda mais fragilizados, frente aos efeitos da seca. Vivem num ambiente ecologicamente empobrecido, incapaz de oferecer recursos alternativos à escassez de água e alimentos, à margem das ilhas de modernidade do semi árido. Outra vez, homens e animais sofrerão de sede e fome, a poucos quilômetros do Rio S. Francisco.

Cercado por desmatamentos, o velho Chico é superexplorado para geração de energia, transporte fluvial, coleta de esgotos urbanos e industriais, fonte de água para consumo humano, animal e para a agricultura irrigada, e pede socorro! Mas os sertões não têm o appeal da Amazônia, nem contam com uma ínfima parte dos recursos humanos e financeiros dedicados à preservação da floresta tropical úmida. E ainda existem campanhas pela transposição de suas poucas e preciosas águas…

Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.” Assim, Euclides da Cunha prefaciava seu livro em 1902. Cientistas reunidos em Fortaleza, constataram, a um tempo, enormes avanços na compreensão da natureza e da sociedade no semi árido, experiências positivas de conservação de solo e água, novas tecnologias de convivência com a seca e o vácuo no tratamento justo e global da questão nordestina, a começar por suas elites litorâneas. Estas – como afirmava o discurso de posse de Tancredo Neves – nunca tiveram para com seu próprio povo, a solidariedade que, em seu nome, ousam reclamar do resto da Nação. O que se dirá para com o meio ambiente? Denunciemo-las.

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