O FUTURO DO FUTURO


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Reportagens e filmes dos anos sessenta e setenta previam um mundo maravilhoso para depois do ano 2000. Segundo a ficção científica, no século XXI não íamos precisar caminhar pois haveriam calçadas rolantes; para comer teríamos pílulas com os sabores dos mais deliciosos pratos; ao invés de automóveis teríamos espaçonaves; robôs serviriam de empregada doméstica, um pouco como no desenho animado dos Jetsons, além de outros delírios tecnológicos. A realidade desmentiu a ficção.

Hoje, ninguém pode estimar o real valor de uma casinha na beira de um rio, perto de uma cachoeira, vizinha de uma mata, com palmeiras onde cantam os sabiás. O que poderá valer um cantinho desses, um pedacinho de natureza bem preservada, no ano 2500? E o que dizer então do valor da Amazônia brasileira?

Estudos científicos mostram que na proclamação da República, o Brasil era um país praticamente intacto, em termos de meio ambiente. A eficiente política de gestão florestal sustentada da Coroa portuguesa e do Império brasileiro haviam preservado nossas matas, garantindo a incorporação ao Brasil de grande parte da região amazônica, que inicialmente pertencia de fato e direito à Espanha. Até terras na Ásia, como as Filipinas, Portugal cedeu à Espanha no Tratado de Madri (1750), além do Uruguai (Província de Sacramento) para garantir a Amazônia brasileira. Nossa população era de 17 milhões de habitantes, concentrada na costa atlântica.

Terminamos o século XX, com mais de 170 milhões de habitantes. Somente nos últimos trinta anos, desmatou-se mais de 600.000 km2 na Amazônia! No ano passado, foram 25.500 km2 desmatados, uma área maior do que o estado de Sergipe. A cada cinco anos, desde 1950, estamos desmatando mais do que todo o período da Coroa portuguesa e do Império juntos! Onde isso vai terminar?

Mas o século XXI também começou sob a consciência da conservação ambiental. E ela vai além da ecológica. Enquanto esta só preocupa-se com os ecossistemas, a consciência ambiental integra o homem, suas tradições, sua cultura, valores e história. As culturas caipira, caiçara, ribeirinha, sertaneja, gaúcha, quilombola, indígena etc. são um precioso patrimônio a ser conservado. Junto com a natureza, elas constróem a terra da gente e compõe um tesouro transmitido e ampliado, de geração em geração.

Os brasileiros, em sua maioria, reconhecem a sacralidade da natureza. O fascínio pela tecnologia moderna não apagou no coração do povo, o amor pela natureza e pelos homens que vivem da terra. Pelo contrário, recursos tecnológicos sofisticados, como o monitoramento por satélite, as técnicas de reprodução in vitro, o sequenciamento genético etc. têm sido empregados para defender a conservação das matas, dos rios, dos peixes e de toda a fauna. A Internet é uma poderosa ferramenta na mão das ongs, no fomento do turismo ecológico e de aventuras, da pesca esportiva e de uma série de atividades visando o desenvolvimento sustentável e a conservação ambiental.

A conservação da natureza e da cultura popular brasileira depende de todos. As iniciativas conservacionistas não cessam de multiplicar-se por todo o país. Contudo, os brasileiros precisam de mais informação e conhecimentos científicos sobre esses tesouros escondidos nos sopés de serras, nas cordas das violas, nas correntezas dos rios, na voz dos cantadores e nos frutos da terra. Ninguém trocaria a boa cozinha mineira ou o feijão tropeiro por um comprimido de astronauta. Ninguém trocaria um rancho à beira mar ou uma casa com alpendre no sertão, por um apartamento num prédio de 500 andares, todo informatizado. Enfim, talvez exista algum maluco que até aceite essa troca, mas ele não sabe o que está perdendo. O futuro do futuro está na conservação e no desfrute do meio ambiente.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . O Futuro do Futuro. Terra da Gente, Campinas – SP, v. 1, p. 78-78, 2004.

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