O EL NIÑO E A INOVAÇÃO AGRÍCOLA

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(1/3/2016)

Evaristo Eduardo de Miranda

Com tecnologia, inovação e profissionalismo, os agricultores minimizaram de forma inédita os efeitos negativos do El Niño na produção, até onde foi possível. Esse fenômeno climático normalmente traz chuvas acima da média para o Sul do Brasil e diminui as precipitações no Norte e Nordeste. O El Niño de 2015/16 foi comparável aos ocorridos em 1982/83 e 1997/98. E, se seus efeitos foram diversificados em função das regiões, eles também variaram com o nível tecnológico da agricultura.

Quanto mais tecnificada a agropecuária, menor o impacto do fenômeno na mesma região. A seca provocada pelo El Niño no Nordeste, por exemplo, teve impactos maiores em 1982/83 do que nos dias de hoje. Em 1982, a área irrigada e com agricultura moderna mecanizada eram muito menores do que atualmente. Como quase sempre, o fenômeno alterou as condições das lavouras de inverno no Sul e Sudeste e das de verão em boa parte do Brasil. O auge do fenômeno atual ocorreu no final de novembro. A partir de agora sua intensidade declina e ele deve terminar no início do outono.

No Sul e Sudeste, nas lavouras de inverno (trigo, cereais e fruticultura de clima temperado), o excesso de umidade comprometeu a produtividade. E trouxe problemas para o plantio e o desenvolvimento das culturas de verão, como o arroz. O alto volume de chuvas prejudicou seriamente as lavouras de arroz do Paraná (Querência do Norte), do Rio Grande do Sul e de nossos vizinhos do Mercosul. Na soja, a abundância de chuvas provocou atrasos e dificuldades no plantio e nas aplicações de fungicidas, inseticidas e herbicidas, afetando a produtividade. Nessas condições, o nível dos equipamentos de mecanização, pulverização e a qualidade dos operadores fizeram a diferença no controle sanitário dos plantios.

Os altos índices pluviométricos favoreceram as pastagens e a pecuária leiteira, contribuíram para recuperar as reservas hídricas em solos, lençóis freáticos, açudes e barragens do Sul e Sudeste. No Centro-Oeste faltaram chuvas nas fases finais do ciclo da soja, o oposto do que ocorreu nos polos produtivos de grãos no Paraná e Rio Grande do Sul. O Ministério da Agricultura e a Embrapa acompanham tudo de perto e realizam constantes reuniões nas principais regiões afetadas.

Em Minas Gerais, quase não ocorreram problemas. Segundo a Conab, a produção mineira da oleaginosa atingirá o recorde de 4,33 milhões de toneladas, volume 23,6% superior aos 3,5 milhões de toneladas da safra 2014/15, e com uma pequena redução na área plantada. Apesar do excesso de chuva, para o Mato Grosso do Sul, a Conab projeta uma produção recorde de soja: 7,58 milhões de toneladas. Um crescimento de 5,6% com relação à última safra, de 7,18 milhões de toneladas.

No Matopiba houve atraso nas chuvas de verão e choveu pouco no final de 2015, algo em torno de 50 mm em dezembro passado. Isso dificultou o início do plantio da soja, no Sul do Maranhão e Piauí. O impacto dessa situação foi tanto mais severo quanto menor o nível de mecanização do produtor. A janela de plantio se reduziu. Alguns agricultores trocaram a soja pelo milho. O Sul do Maranhão terá a pior safra, interrompendo um processo de aumento constante da produção. As maiores perdas foram as de quem plantou cedo. Quem plantou mais tarde ainda teve como se ajustar em termos de variedades e ciclo. Mas o Matopiba inclui também o oeste da Bahia e garantiu 11% da safra nacional de soja em 2014/15.

Em breve ocorrerá uma transição climática, com o final do fenômeno do El Niño. De certa forma, em 2016 cada estação do ano estará sob a influência de um fenômeno climático diferente. Isso pede a atenção dos produtores. Para alguns meteorologistas o frio deve chegar mais cedo. Os modelos climáticos projetam uma nova fase de águas frias sobre o Oceano Pacífico equatorial, indicativo da provável configuração de um episódio de La Niña. Os El Niños de 1997/98 e de 1982/83 foram substituídos por um La Niña no segundo semestre. O último La Niña aconteceu entre 2010 e 2011.

Agricultores e pesquisa agropecuária têm a responsabilidade de aproveitar crises e extremos climáticos para instrumentalizar processos de adaptação. Existem alternativas tecnológicas para aumentar a sustentabilidade da produção, frente às variações climáticas. Elas precisam ser aperfeiçoadas tecnologicamente e melhor ajustadas em suas aplicações aos diversos sistemas de produção e regiões. Ampliar a irrigação, a eletrificação, a mecanização rural, a armazenagem nas fazendas, melhorar a logística e o seguro rural, hoje quase inexistente, seriam um enorme avanço, diante das incertezas climáticas presentes e futuras, sejam do El Niño ou de La Niña.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . O El Niño e a inovação agrícola. Agro DBO (São Paulo), v. 75, p. 36-37, 2016.

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