O DESAFIO DOS QUATRO “Rs”

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Precisamos urgentemente superar resistências culturais e econômicas e aprender a reduzir, racionalizar, reutilizar e reciclar

Escolas, empresas e residências cada vez mais separam o lixo para a coleta e a reciclagem. Lixeiras destinadas a receber papéis, plásticos, materiais orgânicos e metais, com cores características, generalizam-se em ambientes públicos e privados. Esses esforços para racionalizar o consumo de recursos naturais e reduzir a produção de resíduos são importantes mas continuam insuficientes diante da falta de consciência ambiental do consumidor. Cada vez mais, os consumidores optam em massa por produtos e serviços com alto desperdício de recursos naturais e alta produção de lixo e poluentes.

Diante desse desafio, o sistema educacional pode cumprir um papel relevante, conscientizando as novas gerações. Continua existindo um forte desequilíbrio entre os 4 Rs, que norteiam os defensores da reciclagem: Reduzir, Racionalizar, Reutilizar e Reciclar. Enquanto os dois últimos – Reutilizar e Reciclar – são razoavelmente aceitos e incorporados no dia a dia das sociedades, os dois primeiros – Reduzir e Racionalizar – ainda encontram resistências culturais e econômicas.

As economias modernas não conseguiram se desvencilhar dos lucrativos descartáveis. Latas, plásticos, caixinhas de papel, sacos plásticos e todas as demais embalagens não retornáveis livraram o consumidor de muitos incômodos do dia a dia. Passaram a ser sinônimo de conforto. E agora, mesmo diante da crise de recursos naturais, qualquer opção a estes descartáveis soa como retorno a um terrível passado de desconforto, incômodos e mercados restritos. O Brasil produz todo ano cerca de 9 bilhões de garradas PETs e menos da metade é reciclada!

O raciocínio do consumidor final, muitas vezes, se estende aos processos produtivos. Mesmo onde as indústrias são controladas e a racionalização do uso de insumos já provou ser economicamente eficiente, ocorrem desperdícios em nome do comodismo. É cômodo terceirizar certos processos de produção altamente consumidores de energia ou matérias-primas e desconhecer os desperdícios praticados pelos fornecedores. É mais simples entregar os resíduos a empresas especializadas, sem controlar onde e como estas empresas dispõem os resíduos, principalmente nos países em desenvolvimento.

Apesar dos esforços governamentais e não-governamentais combinados e do sucesso de campanhas para reduzir a produção de lixo e poluentes, mesmo os países desenvolvidos ainda enfrentam aumentos indesejáveis. Segundo estudos do World Resources Institute (WRI), a produção total de resíduos dos Estados Unidos, Aústria, Alemanha, Holanda e Japão cresceu pelo menos 28% nos últimos 25 anos.

Metade a três quartos dos recursos naturais utilizados voltam ao meio ambiente na forma de resíduos no prazo de um ano. “Os ganhos de eficiência conseguidos com o comércio eletrônico e a mudança das indústrias pesadas para as indústrias da informação e de serviços foi mais do que suplantado pela tremenda escala de crescimento econômico e pelas escolhas do consumidor, que favorecem estilos de vida altamente consumidores de energia e materiais”, resume Emily Matthews, do WRI.

Lembrar-se do Princípio de Lavoisier de Conservação da Matéria está mais do que nunca na ordem do dia (Carta Escola XXXX). É nas duas pontas – extração/beneficiamento primário e descarga de rejeitos -, que ocorrem os maiores desequilíbrios e resíduos dispostos de forma inadequada no meio ambiente. Para um desenvolvimento sustentável, sociedades e governos precisam monitorar todo o ciclo dos materiais, identificar as etapas falhas dos processos e controlar os desperdícios e resíduos persistentes. E assim lidar efetivamente com os 4Rs.

E-LIXO & E-POLUIÇÃO

As vantagens ambientais do uso crescente de computadores são grandes. Via de regra, o aumento de uso dos computadores e da Internet são tidos como vantajosos para o meio ambiente. Teoricamente reduz-se o uso de papel, de químicos fotográficos e o gasto de combustível com viagens (de trabalho, de casa para o escritório e até reuniões internacionais), entre outros.

Há o reverso da moeda, com um amontoado de problemas. Por exemplo, produzir um chip de memória para computadores de apenas 2 gramas requer mais de um quilo de químicos e combustíveis fósseis. Ou seja, 630 vezes o peso do chip final. No processo de produção dos chips também entram grandes quantidades de água e saem efluentes tóxicos, um sério agravante para um planeta que caminha a passos largos para uma crise de disponibilidade de recursos hídricos.

Segundo Liana John, jornalista especializada em meio ambiente, não são só os chips. Outros componentes dos computadores levam materiais tóxicos, que somam mais de mil químicos e minerais, entre os quais estão substâncias à base de cloro e bromo, gases tóxicos, metais pesados, materiais foto e biologicamente ativos, ácidos, plásticos e aditivos plásticos. Os metais pesados usados nos componentes são: chumbo e cádmio (nos circuitos integrados); óxidos de chumbo e bário (nos tubos dos monitores); mercúrio (nos teclados e telas planas) e bromo (na tinta anti-inflamável das bases dos circuitos, cabos e plásticos) entre outros.

Há relatos de aumento de casos de câncer e abortos em trabalhadores das indústrias informáticas primárias e entre os recicladores destes materiais, com altos índices de poluentes presentes no sangue. Os resíduos de fabricação ou a disposição inadequada de sucatas podem poluir os solos e a água e causar a morte de peixes e outros animais. Vários destes poluentes são bioacumulativos na teia alimentar e altamente persistentes no ambiente.

Uma coisa é doar o seu computador usado e antiquado para uma escola da periferia ou instituição de caridade, dentro da lógica do reutilizar e reciclar. Outra coisa é planejar a vida de outra forma, mudar os hábitos de consumo, usar o mesmo equipamento no trabalho, em casa ou na escola e evitar a troca freqüente dos recursos de informática ou telefonia móvel para evitar o e-lixo.

A altíssima rotatividade dos produtos, acessórios e periféricos – uma característica do mercado de informática e telefonia celular, sempre ávido por novidades – leva a uma produção de sucatas sem precedentes. Ela, por sua vez, conduz a um outro mercado de alto impacto social e ambiental: o de rejeitos.

Os Estados Unidos exportam de 50 a 80% de todo o e-lixo que produzem. O objetivo declarado é reciclagem, feita em países como Índia e China, onde recentemente foram descobertos vários depósitos deste tipo de rejeito. Trata-se de uma lógica semelhante à da exportação de pneus velhos ou resíduos industriais tóxicos ou radioativos. Embrulha-se em papel dourado – o da reciclagem – a simples venda de materiais perigosos para países em desenvolvimento, que concordam em arriscar a saúde de sua população e de seus ecossistemas em troca dos dólares que faltam na economia.

Para tratar da e-poluição crescente surgiram até entidades ambientalistas especializadas, como a Silicon Valley Toxics Coalition, a Campaign for Responsible Technology e a CorpWatch, todas norte americanas. Seus membros pregam o uso responsável da tecnologia, que inclui programas de redução da produção de rejeitos, adoção dos mesmos padrões ambientais na sede e filiais (nacionais e internacionais) de todas as grandes corporações e responsabilidade sobre todo o ciclo dos produtos – da extração de matéria prima para fabricação à disposição final das sucatas em aterros adequados.

Quanto ao comércio internacional destes resíduos para “reciclagem”, o mais correto e justo, ambiental e socialmente, seria a sua eliminação. O caminho é longo e difícil. Talvez possam existir atalhos nos acordos vigentes sobre transporte de produtos tóxicos, como a Convenção da Basiléia. Para isso, o nível de consciência planetário e de mobilização das futuras gerações, principalmente nos países desenvolvidos, deverá crescer muito para lidar com os 4Rs (Reduzir, Racionalizar, Reutilizar e Reciclar) e não apenas com dois deles (Reutilizar e Reciclar).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . O desafio dos quatros “Rs”. Carta Capital na Escola, v. 22, p. 30-31, 2007.

 

 

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