O CARBONO É NOSSO

(17/05/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Em tempos de aquecimento global, duas preocupações mobilizam a opinião pública: como reduzir emissões e como retirar o excesso de carbono da atmosfera. As soluções de grande magnitude estão na agricultura brasileira.

A primeira solução é a cana-de-açúcar, cuja área aproxima 6 milhões de hectares. Etanol e eletricidade da queima do bagaço já representam 14,4% da matriz energética do país, quase empatando com a hidroelétrica.

A segunda é o cultivo de florestas. Em quase 5 milhões de hectares, elas garantem 80% do carvão e lenha do Brasil, evitando o desmate. Além da celulose, elas produzem madeira e armazenam muito carbono em vigas e pilares, móveis e utensílios, portas e janelas… O mesmo ocorre na recomposição de reservas florestais.

A terceira contribuição agrícola está no biodiesel, H-diesel e diesel verde em que óleos vegetais substituem uma parcela do combustível fóssil. Hoje isso é sinônimo de soja e dendê, plantas exóticas, como cana, pinus e eucalipto. Mas as oleaginosas nativas podem trazer novidades nessa matriz.

Alternativas de produção, terras adequadas, tecnologias disponíveis e experiência de 4 séculos fazem do Brasil a referência mundial em agroenergia. O grande desafio é sê-lo de forma sustentável, se possível com ganhos ambientais em lugar de perdas. Para tanto, 3 caminhos deveriam ser trilhados:

1. Conhecer e respeitar a aptidão das terras. A agricultura sustentável planta a cultura certa, no lugar certo, do ponto de vista ambiental, social e logístico. Isso reduz impactos indesejados (erosão, uso desnecessário de agroquímicos, frustrações de safra) e garante sucesso duradouro. Transformar as melhores áreas agrícolas em Unidades de Conservação para “barrar o avanço da soja ou do agronegócio” é duplo equívoco. Deixa as piores terras agrícolas para gerar emprego e renda, com maior risco de impactos ambientais negativos. E não garante a efetividade das áreas protegidas, cedo ou tarde invadidas e exploradas de forma predatória. Por outro lado, implantar culturas sem zoneamento, em áreas não aptas, na base de voluntarismo, ajuda governamental ou sede de lucro, significa desmate desnecessário e fracasso em curto prazo. A gestão territorial sustentável da agroenergia exige mapear a aptidão das terras e monitorar as áreas de expansão dos cultivos.

2. Usar a melhor tecnologia em cada caso. Não expandir com práticas do Neolítico, como o uso do fogo na colheita da cana. Toda área de expansão deveria ser de colheita sem queima. O respeito das áreas de preservação permanente (APPs) é regra na implantação da agricultura moderna, mecanizada, mas isso não basta. A recomposição da vegetação nativa está ao alcance dos agentes do agronegócio. Ao plantar mudas na mata ciliar, ao controlar o fogo e a caça, eles ampliariam a diversidade de habitats para a fauna, enriqueceriam a biodiversidade com espécies nativas e acelerariam um processo muito longo, se deixado “a cargo da natureza”.

3. Diversificar o uso das terras. A combinação de cultivos anuais e perenes com pecuária atende simultaneamente a produção de energia, alimentos e matéria-prima para indústrias. Os sistemas de integração lavoura-pecuária, extrativismo-pecuária, culturas energéticas-alimentares, plantio direto etc. respeitam a ecologia da paisagem; melhoram a gestão do espaço rural na bacia hidrográfica; ampliam o uso sustentável dos recursos naturais; e protegem água, qualidade do ar, vegetação e fauna. Tais sistemas precisam ser generalizados. O saber tradicional e novas espécies da biodiversidade podem representar um diferencial de mercado se o território é bem gerido e explorado de forma equilibrada.

Podemos mapear a localização e a expansão da agroenergia brasileira. Mas ainda nos falta um zoneamento ecológico-econômico para orientar a necessária gestão territorial, ainda falta inteligência estratégica aos setores público e privado. Sem isso, a lógica dos projetos individuais predomina. É o que queremos?

 

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . O CARBONO É NOSSO. Terra da Gente, v. 37, p. 82, 2007.

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