O BRASIL E AS EMISSÕES DE CO2


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Qual a contribuição do Brasil para o efeito estufa pela emissão de gás carbônico (CO2) de combustível fóssil na atmosfera terrestre? O Brasil é acusado na mídia de ser um dos grandes emissores de CO2. Até como quarto emissor mundial de CO2 somos colocados, sem que se explique o que está sendo comparado, a partir de que dados e com que critérios. Considerando quatro indicadores homogêneos de comparação: o valor absoluto das emissões de CO2 e os valores relativos por habitante, por km2 e riqueza produzida, o Brasil está entre os que menos contribuem com esse fenômeno, segundo os dados da Energy Information Administration dos EUA de 2005 e do Balanço Energético Nacional.

Emissões Totais Absolutas

Em termos absolutos de emissões totais de CO2 de origem fóssil, o mundo emitia 28,193 bilhões de toneladas em 2005. Os EUA respondiam por 21% das emissões mundiais com 5,957 bilhões de toneladas, seguidos pela China com 5,323 bilhões (19%). Depois vinha a Rússia com 1,696 bilhões (6%), o Japão com 1,230 bilhões (4,4%) e a Índia com 1,166 bilhões (4%). Juntos, só esses seis países representavam 55% das emissões planetárias. O Brasil estava em 18º lugar com 360 milhões de toneladas (1,3%), bem atrás da Alemanha, Canadá, Inglaterra, Coréia do Sul, Itália, África do Sul, França, Austrália, México e outros países. Para o Brasil ser o quarto emissor mundial, logo após a Rússia, teríamos de multiplicar por cinco nossas emissões anuais, algo inimaginável, mesmo agregando nossas emissões de origem não fóssil. E ainda nessa hipótese, deveríamos também agregar esse tipo de emissões às contas de todos os outros países para poder comparar.

Emissões por habitante

Os Estados Unidos da América também são líderes da emissão de CO2 por habitante/ano: mais de 20 toneladas e só perdem para alguns países produtores de petróleo como Qatar (62t) ou Emirados Árabes (33t). A Austrália com 20t quase empata os norte-americanos, seguida pelo Canadá (19t), Rússia (12t) e Alemanha (10t). A média da Europa é de 8 t/CO2/habitante/ano. Com 16,4t, a Holanda é uma das campeãs européias das emissões.

Exceto Alemanha e Dinamarca, os países europeus têm aumentado suas emissões de CO2 nos últimos dez anos. Alguns, como a Espanha, em mais de 50%. E são signatários do Protocolo de Kyoto! A Europa está construindo enormes gasodutos vindos da Rússia. O consumo de gás aumentará cerca de 50% no curto prazo. As emissões européias são o dobro da média mundial que é de 4,4 t/ CO2/habitante/ano.

A China, tratada como grande emissora de CO2 devido ao uso crescente de carvão mineral e derivados de petróleo, com 4 t/CO2/habt/ano ainda é inferior à média mundial. A emissão total de CO2 da China ultrapassou os EUA em 2007, mas ela cuida sozinha de 25% da população do planeta.

A América Latina apresenta uma média de emissões de CO2 de 3,1 toneladas por habitante com destaque para Venezuela (6t), Chile (4,4t), México (3,8t) e Argentina (3,7t). E o Brasil?

Cada brasileiro emite 1,9 tonelada de CO2 por ano. Não basta plantar apenas duas ou três árvores por pessoa para retirar esse carbono da atmosfera. Mas emitimos doze vezes menos do que os norte-americanos, quatro vezes menos do que os europeus e metade da média mundial. E ainda menos do que os latino-americanos (3,1t), do que a Ásia e Oceania (2,87t) e Oriente Médio (7,9t).

Emissões por km2

A estimativa das emissões de CO2 por quilômetro quadrado também é muito favorável ao Brasil. Aqui, as emissões são da ordem de 42 toneladas de CO2/km2/ano enquanto no Canadá são de 69t, na China de 555t, nos EUA de 710t, na Alemanha de 2.365t, no Japão 3.256t e na Holanda de 6.493 t/CO2/km2/ano!

Emissões para gerar riquezas

O quociente entre o total de toneladas CO2 emitidas por um país e seu Produto Interno Bruto (PIB) dá uma medida da eficiência energética e ambiental das economias nacionais na geração de riquezas. A grosso modo, quanto mais eficiente o país, menor o número. Dada a variação da cotação do dólar entre países, o PIB foi calculado em função do poder de compra das moedas nacionais, o chamado Purchasing Power Parities (PPP).

Os campeões de emissões de CO2 para gerar riquezas são China (0,63) e Holanda (0,62), esta com destaque nos três quesitos (emissões por habitante, por área e por unidade de PIB), seguidas pelo Canadá 0,61. A média mundial é 0,49 e a da Europa 0,39. Alto uso de energia nuclear e a boa eficiência geram índices mais baixos como Japão (0,36) e França (0,26).

O Brasil, com um quociente de 0,24, é mais eficiente do que todos citados anteriormente, do que a média da América Latina (0,32) e muito distante de Bolívia (0,40), Venezuela (0,80), Antilhas Holandesas (3,34) e Suriname (5,10)!

Réu ou vítima?

O que explica o excelente desempenho do Brasil é sua matriz energética, com uma das maiores percentagens de energia renovável do Planeta: 46,4% contra uma média mundial de 13,9%. A agricultura brasileira garante 28,5% dessa energia renovável. Existe, porém, uma injustificável vitimização do País nesse tema, cultivada inclusive na mídia e em salas de aula, aqui e no exterior. Um tratamento bem diferente do dispensado à Holanda, por exemplo, que apesar de tão ameaçada pelo aumento do nível dos oceanos usa e abusa dos combustíveis fósseis.

De qualquer forma, o excepcional desempenho do Brasil não é uma licença para aumentar de forma irresponsável as emissões de CO2, mas nesse tema estamos mais para vítimas do que para réus.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . O Brasil e as emissões de dióxido de carbono. EcoRio, v. 142, p. 15-17, 2008.

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