O AR NOSSO DE CADA DIA


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Veículos e atividades industriais não são os únicos responsáveis pela degradação da qualidade do ar nas grandes cidades e áreas urbanas do Brasil. A própria população contribui com a poluição queimando lixo, folhas secas, a vegetação de terrenos baldios, entulhos etc. E o faz durante os meses de inverno, os mais críticos, quando as condições atmosféricas dificultam a diluição dos poluentes no ar e quando ocorrem as inversões térmicas.

O monitoramento diário, feito por satélite, das queimadas que ocorrem no Brasil, detecta um grande número de queimadas, tanto nas áreas pobres e peri-urbanas, como em bairros de classe média alta. Ao queimarem o lixo que acumulou-se em praças abandonadas, canteiros centrais de avenidas, terrenos baldios etc., as pessoas ampliam o problema da poluição do ar. O lixo contém borrachas, plásticos, madeiras, papéis com tinta e uma série de resíduos orgânicos e industriais que, ao queimarem, liberam uma fumaça muito tóxica para a saúde humana, rica em óxidos nítricos, furanos e até dioxina.

Grande parte dessas queimadas urbanas ocorre em favelas, em áreas de ocupação, onde a coleta de lixo é deficiente, quando não inexistente ou impossível, por problemas de acesso. Por estarem situadas na parte mais baixa da paisagem, ao longo das margens de rios e córregos, o ar poluído, a fumaça dessas queimadas locais, tende a acumular-se, sem dissipar-se. As pessoas respiram durante horas e horas os poluentes que produzem. Aumenta a ocorrência de doenças respiratórias crônicas como rinites alérgicas, bronquites, asma etc., principalmente entre idosos e crianças.

O uso do fogo na limpeza de áreas urbanas, nada mais é do que a transferência de resíduos sólidos, encontrados pelo chão, para o status de poluentes atmosféricos, espalhados por vastas regiões. Mas em matéria de poluição atmosférica, a agricultura brasileira é uma das campeãs mundiais, graças ao uso generalizado do fogo como técnica cultural.

O fogo está presente desde os sistemas de produção mais primitivos (como os praticados por índios e pequenos agricultores pobres) até os mais modernos e intensificados (como a cana de açúcar e o algodão). Essa tecnologia do Neolítico, que os portugueses aprenderam a usar com os indígenas na pratica da coivara, tem uma longa história em nosso país. Há mais de dez anos, o monitoramento por satélite (www.cnpm.embra p a . b r/projetos/qm d/ ) indica a magnitude desse problema crescente. Em 2000, 2001 e 2002, o total de queimadas detectadas passou de 96.111, para 135.246 e 214.879, respectivamente! A fumaça produzida chega a cobrir um terço da América do Sul. E quando a queimada escapa do controle, transforma-se em incêndio, pode causar graves danos ao meio ambiente, à biodiversidade, ao patrimônio público e privado.

A Embrapa dispõe de tecnologias agrícolas alternativas e mais produtivas para substituir o uso do fogo em qualquer sistema de produção (http://www.cnpm.embrapa.br/projetos/qmd/qmd_2000/index.htm). Para isso acontecer seria necessário uma ação concertada de autoridades e sociedade civil organizada, levando informação e apoio técnico-financeiro para que os agricultores possam abandonar uma prática que ainda lhes parece, social e economicamente, a mais simples de ser utilizada.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . O ar nosso de cada dia. Biodiversidade Brasil, 2003.

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