NO REINO DAS ÁGUAS INTERIORES


(13/01/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os índios xaraés nunca esqueceram o encontro com aquele monstro, numa tarde de 1543. Em seu relato assustador, eles descreviam o animal como um grande veado. Muito grande, porém sem chifres. Seus passos ecoavam surdos como um bater de tambor. Os guizos espalhados pelo seu corpo soavam como um exército de ameaçadoras cascavéis. Seus olhos estavam tapados. E mesmo assim, ele enxergava. O suor descia de seu pescoço enorme e de sua boca saía uma espuma espessa, enquanto roía um pedaço de metal entre os dentes. Nenhuma lenda dos antepassados jamais evocara a existência de tal monstro.

Mais espantoso: esses animais levavam homens montados em seu dorso, revestidos de adornos por todo o corpo. Dezenas de guerreiros e idosos foram ao encontro desses homens e seus assustadores animais. Os homens brancos e seus amigos indígenas perguntavam sobre a terra, os rios e as águas. Eles mostravam objetos e amostras de ouro e prata. Os xaraés quase não ouviam. Seus olhos e ouvidos estavam voltados para esses estranhos animais que, como os veados, comiam o verde capim. Um guerreiro aproximou-se. Um homem branco fez um gesto para que tocasse no animal. Temeroso, ele estendeu a mão, a ponta dos dedos. O animal estremeceu a pele num arrepio. O guerreiro recuou apavorado. O homem sorridente disse: – Caballo.

O chefe dessa expedição era o explorador Álvar Núñez Cabeça de Vaca. Sua aventura começara em 1540, em Santa Catarina, onde desembarcou com 400 homens e 26 cavalos e dirigiu-se por terra a Assunção às margens do rio Paraguai. No caminho, encontrou as cataratas do Iguaçu. Eles foram os primeiros europeus e os primeiros cavalos a contemplar esse espetáculo das águas.

Em terras xaraés, Cabeça de Vaca deparava-se com uma imensidão de lagos e lagunas, em dimensões nunca vistas. O acampamento dos indígenas ficava às margens da lagoa Uberaba, que atinge mais de 400 km2. Os espanhóis tentaram atravessar o Pantanal. E seus escritos deram lugar à legendária existência de um grande lago ou do Mar dos Xaraés, no centro da América do Sul, lenda aceita por séculos, apesar de Cabeza de Vaca nunca ter usado a expressão “Mar interior” a ele atribuída posteriormente.

No mapa de Hondius (1559), o Pantanal é representado como um grande lago: Eupana Lacus. A mesma figura se reproduz em vários mapas castelhanos e holandeses, desde o de Joannes Jansonius, de 1600, Paraquariae Provinciae, até o de George Matthäus Seutter, de 1728. O grande lago é apontado como a nascente dos rios Paraguai, Amazonas, Tocantins e até do São Francisco, em vários mapas, como no Americae pars Meridionalis, de 1640.

Alheios a tais referências, os lusitanos, bandeirantes e monçoeiros paulistas, chamavam essa região de Pantanal, nome atestado desde 1727. Mas essa denominação também é imprópria, pois trata-se de uma planície sujeita a enchentes sazonais e não de um pântano.

Também as águas não divergem do Pantanal para o Norte, como imaginaram os castelhanos de então. Ao contrário, elas convergem para o Pantanal, do Leste para o Oeste, do Norte para o Sul. As chuvas nas cabeceiras dos rios, no sul da bacia amazônica e na própria região, são responsáveis pelos pulsos de inundação na planície pantaneira, entre novembro e março. E como a declividade média é de apenas três a cinco centímetros por quilômetro no sentido NorteSul e de doze a quinze centímetros, no sentido LesteOeste, o escoamento é lento. A permanência da água na bacia do Paraguai é ampliada por barragens naturais, provocadas por afloramentos, alinhamentos de relevos e morrarias nas regiões da Serra do Amolar, Porto da Manga e Fecho dos Morros.

Essa imensa planície cuja drenagem é comandada pelo rio Paraguai tem cerca de 210 mil quilômetros quadrados (140 mil no Brasil e 70 mil na Bolívia e Paraguai) e conecta formações vegetais de Chaco, Cerrado, Mata Atlântica, Bosque Seco, Amazônia e Caatinga. Apesar das inundações, o clima predominante na região é semiárido. Nos relevos não inundáveis, a vegetação é idêntica à da Caatinga.

Os índios xaraés informaram Cabeza de Vaca sobre a existência de mais e mais lagoas e de um sem-fim de áreas inundadas, além das quais estavam as montanhas de onde provinham seus pequenos adornos de prata e ouro. Na infrutífera busca desse Eldorado, Cabeza de Vaca perdeu homens e cavalos, e deu início a duas novas epopéias no Pantanal: a dos humanos e a dos equinos.

O cavalo conquista o Pantanal

Não foi o homem e, sim, o cavalo quem conquistou o Pantanal. Após os relatos de Cabeça de Vaca, os europeus fizeram sucessivas e fracassadas expedições em busca desse Eldorado, cujas migalhas de prata e ouro chegavam até os índios xaraés. Muitos dos cavalos perdidos sobreviveram a seus donos falecidos, agruparam-se e se reproduziram. Livres nas pastagens naturais, eles prosperaram ao ritmo das cheias e vazantes, em bandos selvagens. Dispersos por toda a planície, são conhecidos até hoje como baguás.

Por quatro séculos, outros cavalos chegaram ao Pantanal e foram incorporados, pelo acaso e pelas mãos dos homens, aos bandos livres de baguás. O povoamento de Buenos Aires deu origem a manadas de cavalos chimarrões, cujos ancestrais foram abandonados após seu despovoamento em meados do século XVI. Cem anos depois, eram milhares de manadas. Elas alcançaram o Chaco e o Pantanal, tanto por expansão natural, como levados pelos jesuítas das Missões Guaranis dos Sete Povos. Já por volta de 1593, fora fundada a missão espanhola de Santiago de Xerez, próxima ao rio Miranda no sul do Pantanal, posteriormente destruída por bandeirantes paulistas.

Bandeirantes e seus cavalos, aliás, também se espalharam pelo Mato Grosso, em busca de índios, ouro e prata, ao longo do século XVII. Foram necessários mais de cem anos para concluir-se que esse Eldorado dos índios existia realmente, mas já fora descoberto e era explorado há muito tempo pelos próprios espanhóis na cordilheira dos Andes, em minas como a de Potosi, na Bolívia.

Contudo, em 1719, Pascoal Moreira Cabral descobriu ouro em Cuiabá. Com o garimpo aumentou a ocupação da região por novas levas de cavalos e de gado, ampliando a transformação do Pantanal pelos humanos. Por volta de 1736, o Governador do Paraguai comprou uma manada de vacas em São Paulo. Na travessia dos campos do rio Brilhante e no Pantanal, alguns cavalos extraviaram-se e outros foram roubados pelos índios guaicurus.

Embora o cavalo ainda aterrorizasse os indígenas, houve a exceção dos kadiwéu – guaicurus. Essa etnia conquistadora e belicosa transformou o cavalo num meio de transporte, numa arma para escravizar outras tribos e combater portugueses e espanhóis. O primeiro roubo registrado de cavalo pelos guaicurus aconteceu em 1672, mas sua proximidade com o animal é anterior. E durou muito: seus roubos e ataques foram rotina no Pantanal até o século XIX.

Segundo o jesuíta e naturalista José Sanchez Labrador (1717-1798), os guaicurus, “em seus cavalos não gastam selas (…) montam em pelo e para isso de um salto estão em cima deles”. Para ele, os guaicurus entendiam mais de doenças de cavalos do que das suas. De acordo com Félix de Azara, comandante das Fronteiras do Paraguai de 1781 a 1801, a salvação era que os guaicurus se contentavam com uma só presa em cada ataque, “do contrário não restaria um só português em Cuiabá”.

Um tratado de paz foi assinado entre os guaicurus e a Coroa portuguesa em 1791. Caçadores-agricultores, graças ao cavalo eles então se tornaram também pastores e criadores de gado no Pantanal do Nabileque. Em 1795, seu rebanho foi calculado em 8.000 animais pelo coronel Rodrigues do Prado, comandante do Forte de Coimbra. Na Guerra do Paraguai, em 1864, eles lutaram num Regimento Pantaneiro com seus cavalos e atuaram na defesa do Mato Grosso. Seu modo próprio de montar foi imortalizado por Jean Baptista Debret no quadro Ataque da cavalaria guaicuru.

Na medida em que o ouro ficou raro nos aluviões, os povoadores portugueses importaram outras raças de gado e ampliaram a criação extensiva no Pantanal, em cujo manejo já imperava o cavalo pantaneiro. No século XVIII, o reino dos equinos facilitou a implantação progressiva de um império de bovinos e uma transformação ainda maior da vegetação pantaneira.

No século XIX ocorreram outros aportes de animais. Da Fazenda Imperial do Curral, em Goiás, D. Pedro II presenteou o Governador do Mato Grosso, Dom Luis Melo Albuquerque Pereira e Cáceres, com um lote de éguas e um garanhão. Além de servir às éguas da Cavalaria Real, esses animais foram usados por fazendeiros na lida com o gado da região pantaneira ao sul de Vila Bela da Santíssima Trindade, então capital da Província do Mato Grosso.

Ao conquistar o Pantanal, os cavalos forjaram uma raça. O atual Cavalo Pantaneiro é uma raça reconhecida, resultado desses vários cruzamentos de equinos de origem lusitana (Berbere, Céltico e Andaluz), do Cavalo Árabe e do Crioulo Argentino, sob pressão de uma seleção natural em que a dinâmica da água foi fundamental. Trata-se de um caso único de cavalo “anfíbio”.

As águas modelaram um cavalo

O Cavalo Pantaneiro é capaz de pastar embaixo d’água, sem respirar, e de passar meses com as pernas dentro d’água. Para a maioria dos outros cavalos menos tempo já seria suficiente para apodrecer o casco. Graças ao seu casco fechado e pequeno, como “casco de burro”, ele resiste. O que seria um defeito em outros cavalos, nas águas do Pantanal é qualidade. Isso reduz a adesão com o barro, facilita a marcha e ajuda na resistência à broca do casco, um fungo devastador em outras raças.

Selecionado dos pés à cabeça pelas águas, o Cavalo Pantaneiro começa cedo no aprendizado do convívio com as inundações: a capacidade de armazenamento de leite nas tetas das éguas é bem limitada, assim, ao contrário do bezerro que mama poucas vezes ao dia, o potro mama a toda hora. Por essa razão, acompanha a mãe onde quer que ela vá e com ela aprende os truques desse convívio.

Em sua maioria, os potrinhos pantaneiros nascem no período das cheias. Logo andam na água, enfrentam o frio e o calor, aprendem a nadar e, sobretudo, a pastar com a cabeça mergulhada, prendendo a respiração. Esse é um dos segredos do Cavalo Pantaneiro, assinalava há muito tempo o especialista Dr. Pedro Gouveia.

No Pantanal, durante meses, o capim fica recoberto pela água. Para poder pastar com a cabeça embaixo d’água, o potrinho faz exercícios respiratórios que abrem e ampliam o seu peito. A avantajada musculatura peitoral o transforma num animal de tração dianteira. Em seu passo peculiar, ele não empurra o corpo com as patas traseiras como os outros cavalos. Ele puxa. Isso é uma enorme vantagem no barro e nos borocotós de tijuco do Pantanal! E suas narinas largas e elásticas ficam quase transparentes na hora de maior esforço, em mais um sinal externo de sua grande capacidade respiratória.

Miúdo, frugal, resistente, com casco fechado, o peito amplo e a garupa pequena e inclinada, o Cavalo Pantaneiro é, em seu formato, o contrário dos padrões de beleza para equinos. Contudo, seus aparentes defeitos, as águas do Pantanal transformaram em virtudes insuperáveis como instrumento na criação e manejo do gado pantaneiro. E quando sua cauda se levanta no galope, ele lembra a elegância de sua herança berbere e árabe.

No ritmo das águas

Sobre um piso de água, entre o cavalo e o céu pantaneiro está o peão. Como nas caatingas nordestinas, a ocupação do Pantanal foi feita por homens livres. Praticamente não houve escravidão na pecuária da região, ao contrário da mineração, agricultura e serviços domésticos. A pecuária extensiva só podia ser praticada por homens livres, pois eles partiam solitários por longos períodos, cuidando do gado. Um escravo não retornaria à fazenda. Nem o gado.

Os peões mantêm um forte vínculo de trabalho e amizade com seus patrões, baseado na honra, na confiança e no compadrio. Eles gerenciam com ampla autonomia o seu trabalho, habituados com a vida rude do campo e com a lida do gado em meio às águas do Pantanal. A qualquer dificuldade maior, eles mudam de fazenda e seu trabalho é sempre bem vindo numa região de mão de obra escassa. Por vezes vivem com razoável conforto, próximos às sedes das fazendas; outras vezes, vivem de forma precária e feliz, em retiros distantes onde sua presença é necessária para cuidar dos rebanhos.

A dinâmica das águas pantaneiras abre e fecha caminhos, amplia e reduz distâncias, oferece e encobre as pastagens. Parece paradoxal: no isolamento das fazendas em meio às pastagens extensivas, o relacionamento humano e as regras de vizinhança são a base da vida. Todas as fazendas dão passagem para todos, homens e animais. Basta respeitar uma regra de ouro: porteira fechada deve ficar fechada e porteira aberta, deve ser deixada aberta. Quando cavaleiros e/ou veículos se cruzam, as perguntas inevitáveis são sempre sobre as águas: ainda dá passagem em tal lugar? O recuo das águas já permite passar por determinada vazante?

O peão vive atento às águas. A qualquer prenúncio de cheia leva o gado para pastagens mais altas, nas chamadas “cordilheiras”. E o protege de atoleiros, águas traiçoeiras, ataques de onças, além de cuidar de suas enfermidades e ferimentos. Nas cheias maiores e prolongadas, sitiados pelas águas, os rebanhos dependem totalmente dos peões para sobreviver. A extensão dessas áreas elevadas e sua capacidade de acolher o gado sempre definiram o tamanho dos rebanhos nas fazendas.

O gado Pantaneiro, também denominado Tucura ou Cuiabano, descende de bovinos de raça taurina, introduzidos no Brasil no século XVI. Por seleção natural e graças ao manejo nas fazendas, ele adquiriu resistência a diversas doenças e rusticidade para suportar, em ambiente aberto, a uma amplitude térmica de quase 40 graus centígrados entre os dias mais quentes do verão e as noites mais frias do inverno, sujeitas a geadas.

É um gado adaptado aos mais diversos tipos de pastagens, cuja palatabilidade e qualidades nutritivas variam muito entre a época da seca e a das cheias. Também sobrevive a períodos de escassez de alimentos. Essas características foram razoavelmente mantidas com a introdução do gado zebu e os cruzamentos obtidos nas fazendas ao longo do século XX. Hoje, sua produtividade e rentabilidade são baixas se comparadas aos outros rebanhos do país, mas ele cumpre um papel ambiental relevante.

Na época da seca, o recuo das águas permite a rebrota de verdes pastagens, consumidas pelo gado. O gás carbônico retirado da atmosfera pelo capim ao crescer é transformado em carne pelos bois e, em parte, retorna à atmosfera através da sua respiração. Apenas uma pequena parte é emitida sob a forma de metano, produzido pelas bactérias do sistema digestivo dos bovinos. Com o declínio recente da pecuária em certas áreas do Pantanal, o capim deixa de ser pastejado pelos bois. Isso traz duas consequências ambientais negativas em termos dos chamados de gases de efeito estufa: o aumento das queimadas e das emissões de metano e monóxido de carbono.

Como se diz na região, o boi é o bombeiro do Pantanal. Ele age na prevenção dos incêndios ao consumir um capim cujo destino será o de tornar-se palha seca e comburente. A redução dos rebanhos é sinônimo de acúmulo de capim seco, aumento das queimadas e, em consequência, das emissões de monóxido de carbono. E quando o capim não queima, é ainda pior. Ele acaba recoberto pelas águas durante a cheia. Apodrece embaixo d’água e boa parte de sua matéria orgânica vira gás metano.

Na cheia, essa vegetação morta é fonte de alimento para peixes detritívoros como curimbatás e sairus. Parte desses restos retem sedimentos, matéria orgânica dissolvida e serve ao desenvolvimento de algas e microorganismos. O crescimento da vegetação terrestre alagada alimenta peixes herbívoros com flores, frutos e sementes. A vegetação aquática, rica em insetos, alimenta os peixes insetívoros. A inundação propicia alimentos para os cardumes que são a base da cadeia alimentar, presas dos peixes carnívoros e de outras espécies animais como aves aquáticas, jacarés, lontras e ariranhas.

Há mais de trezentos anos, bovinos e equinos modificaram a vegetação terrestre e aquática do Pantanal e geraram novos equilíbrios agroecológicos. Seu desaparecimento teria efeitos ambientais inimagináveis.

Transformado pela presença humana há séculos, desde 1972, o Pantanal é reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Ciência e a Cultura – UNESCO. Em todo o Planeta, o objetivo dessa distinção é o de assegurar às gerações futuras a herança de valores do passado. Entre os tesouros desse reino das águas, além da fauna e da flora, estão o cavalo, o gado, o homem pantaneiro e todo o seu patrimônio cultural.

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