NO PRINCÍPIO (E NO FINAL) ERA O FUNGO


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os fungos descendem das pequeninas algas. Como os animais, eles perderam um dia a clorofila, a capacidade de fazer fotossíntese. São muito antigos e já existiam no mar, antes da conquista do mundo terrestre pelas formas de vida. Há mais de 430 milhões de anos atrás, a Terra conheceu um período de seca muito prolongado. Os mares recuaram. Formaram-se lagos, lagoas e pântanos salgados onde a vida, sob formas muito primitivas, ficou aprisionada. As algas verdes, capazes de fotossíntese, proliferaram. E junto com elas, pequenos organismos, assemelhados aos camarões. Nessa época, surgiu essa forma de vida pela qual poucos se interessam: os fungos.

Seres filamentosos, os fungos são incapazes de produzir seu próprio alimento, como fazem as plantas. Como os animais, eles nutrem-se de outros seres, especialmente de vegetais e de matéria orgânica em decomposição. Eles tem um jeito de plantas, com muitas semelhanças morfológicas, mas não são. As paredes celulares dos fungos são de quitina, principal constituinte da carapaça ou do exoesqueleto dos insetos e artrópodes. Nem por isso, os fungos são animais. Eles situam-se entre vegetais e animais e constituem um reino a parte, os Fungi, assim como as bactérias pertencem ao reino Monera.

Já foram descritas umas 70.000 espécies de fungos. Talvez existam até 1,5 milhões de espécies, sendo que a maioria ainda está sendo identificada e descrita pelos micologistas. Os fungos ocorrem em todos os ambientes do planeta e são importantes decompositores (saprófitas) e parasitas. Os parasitas desenvolvem-se em organismos vivos e os decompositores em organismos mortos. A abundante serapilheira das florestas tropicais é um impressionante meio de cultura de fungos. Graças a eles, as primeiras etapas da degradação da matéria vegetal, principalmente da lignina, é possível, abrindo o caminho para a ação mineralizadora de outros organismos, como as bactérias. Os fungos mais conhecidos são os mofos, as leveduras e os cogumelos.

O pão nosso de cada dia não seria o mesmo sem os fungos. As leveduras, fungos unicelulares, intervém na fermentação e preparação de pães, bolos, açúcar e álcool de cana, vinhos, cervejas, queijos, iogurtes e em muitos alimentos. Os fungos estiveram ou estão presentes em quase tudo que comemos. A grande maioria das plantas vasculares têm associações simbióticas com fungos na raiz, as chamadas micorrizas. Esta associação ajuda as raízes na absorção de água e nutrientes. A famosa trufa, um dos cogumelos mais caros e saborosos do mundo, é um tipo de micorriza. Nas florestas tropicais, por exemplo, as sementes de muitas orquídeas requerem o ataque de um fungo específico para germinar. Os cogumelos são o corpo de frutificação de fungos basidiomicetos, cujo reprodução é sexuada. Existem cogumelos comestíveis e outros extremamente venenosos.

A humanidade depende do trabalho dos fungos na agricultura, ecossistemas, lixões, aterros sanitários e laboratórios. Primeiro antibiótico da ciência moderna, a penicilina salvou milhões de vida e foi produzida a partir de fungos do gênero Penicillium. Ela ainda é utilizada contra Streptococcus e outros organismos potencialmente perigosos. Por outro lado, os fungos parasitas infectam todos animais, incluindo humanos, com resultados variando de um suave comichão à morte. Fungos parasitas infectam plantas, causando doenças, o apodrecimento de troncos e tocos e aumentando o risco de queda das árvores. E ajudam a reciclar a matéria orgânica nos solos.

Como a amizade e o convívio dos fungos e algas já data de mais de 400 milhões de anos, os ascomicetes decidiram viver como líquenes. O líquen é o resultado de uma relação simbiótica muito estreita entre um fungo e um organismo fotossintético, usualmente uma cianobactéria ou uma alga verde. O talo é predominantemente constituído pelo fungo, com as células algais dispostas em uma camada interna ou dispersas no tecido fúngico. Um líquen comporta-se de forma tão semelhante a um organismo único que são classificados em gêneros e espécies. Essa classe de seres vivos foi estabelecida antes dos liquens serem considerados fungos especializados, mas, como sua classificação ainda é incerta, ela é mantida dentro da botânica por conveniência.

Os líquenes vivem sobre o solo, rochas e cascas de árvores e arbustos. Certas espécies, muito sensíveis à poluição atmosférica, são utilizadas como um indicador de poluição e outras têm uso comercial, na extração de corantes e de antibióticos. Na ante sala da morte e da mineralização, os fungos evocam os ciclos da vida, uma passagem do mundo orgânico ao inorgânico, feito de areias, conchas e esqueletos.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . No Princípio (e no final) era o Fungo. Terra da Gente, v. 3, p. 44-44, 2006.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *