MUDANÇAS GLOBAIS


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

As condições de vida na Terra avariaram muito ao longo de bilhões de anos. Os próprios seres vivos foram capazes de modificar a atmosfera e o clima do planeta. Nas primeiras etapas da vida, a atmosfera era mais pobre em oxigênio e não havia uma camada de ozônio suficiente para proteger os seres vivos da radiação ultravioleta proveniente do sol. Minúsculos seres capazes de fazerem fotossíntese, como as algas, contribuíram para o enriquecimento da atmosfera em oxigênio e para o surgimento posterior da camada de ozônio. Essa proteção essencial contra radiações cósmicas criou as condições para o surgimento e a manutenção de novas formas de vida no planeta, muito mais complexas, como os vertebrados.

Agora, essa responsabilidade por mudanças no clima do planeta, parece poder ser atribuída aos seres humanos. Durante milênios, a principal energia utilizada pela humanidade era renovável: lenha e carvão vegetal. Nos primórdios da revolução industrial, fontes não renováveis de energia como o carvão mineral e o petróleo passaram a ser utilizadas em escala cada vez maior. Ainda hoje, elas são a base do desenvolvimento econômico dos países industrializados e em vias de desenvolvimento. A queima de petróleo e de carvão vegetal libera na atmosfera diversos gases e principalmente o dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2). Medidas diversas atestam o aumento progressivo da concentração desse gás na atmosfera terrestre, desde 1850.

Um dos papéis importantes da atmosfera terrestre, além de proteger a vida no planeta contra as radiações cósmicas, é o de regular a sua temperatura. O aquecimento da Terra pelo Sol durante o dia, é dissipado para o espaço sideral durante a noite. Se não fosse assim, a Terra iria aquecendo-se cada vez mais, até tornar-se uma bola de fogo. Se ao contrário, dissipasse mais calor do que recebe, a Terra congelaria. A duração dos dias e noites variam com as estações, mas o balanço térmico no final de um ano é nulo: o que a Terra recebeu de calor, ela dissipou. A atmosfera garante uma “suavidade” nesse fenômeno, assegurando o transporte de calor e umidade entre as várias regiões do planeta e diminuindo os contrastes térmicos entre o dia e a noite.

Uma maior concentração de dióxido de carbono na atmosfera favorece um aumento médio da temperatura do planeta, o chamado aquecimento global. Não se trata do aumento da temperatura terrestre numa zona ou região, mas em todo o planeta. O fenômeno também é chamado de efeito estufa e, além do gás carbônico, outros gazes contribuem como o metano e os óxidos de nitrogênio.

Durante algum tempo falou-se de mudanças climáticas produzidas pelo aquecimento global. Hoje existe um complexo fenômeno conhecido como mudanças globais. Elas não são apenas climáticas. Elas afetam e são afetadas pelas alterações nas temperaturas dos oceanos, pela redução da camada de ozônio, pela regressão das geleiras e calotas polares, pelas mudanças nas correntes, na acidez e na salinidade dos mares, pela redução das florestas, pelo crescimento das queimadas, pelo aumento na intensidade de furacões, tempestades, secas, inundações, ressacas etc.

As populações humanas mais dependentes das condições climáticas, principalmente as que vivem em deltas, estuários e áreas costeiras, estão entre as mais vulneráveis face as mudanças globais. Os impactos ambientais dessas mudanças estão afetando e vão interferir na saúde das populações, na multiplicação de diversos vetores de doenças, na produtividade da agricultura, nos sistemas de abastecimento, na geração de energia e no gerenciamento das água, com um potencial de geração de conflitos regionais e internacionais.

O fenômeno tem congregado cientistas e profissionais em áreas relacionadas com as mudanças globais em programas internacionais de pesquisa IGBP – Programa Internacional da Biosfera e Geosfera, em diversos comitêsd nacionais e regionais e existe há alguns anos o IAI – Instituto Interamericano para Pesquisas em Mudanças Globais. O aparato científico, principalmente de satélites espaciais e sensores instalados em todo o planeta garantem um monitoramento cada vez mais sofisticado da atmosfera, dos oceanos, continentes e de toda a biosfera.

A discussão sobre os progressos e as incertezas no estudo das causas, da magnitude, das conseqüências e da vulnerabilidade face às mudanças globais, incluindo a percepção da sociedade com relação aos problemas ambientais advindos ainda é muito grande. A nível internacional diversas convenções e tratados têm sido propostos e alguns implementados, visando minimizar esse fenômeno, como no caso da redução dos gazes causadores da destruição da camada de ozônio, ou ainda do Protocolo de Kyoto, que busca reduzir a emissão dos gazes de efeito estufa.

Neste século o homem, além de se multiplicar em quantidades sem precedentes, pela tecnologia foi capaz de ampliar o espaço de atuação de cada indivíduo e do seu conjunto. Há alguns anos ouvia atônito de um índio na fronteira do Brasil com a Venezuela, em plena floresta amazônica, a queixa de que o seu maior problema era o mundo de hoje ter gente demais. Gente que ele via passando pelos rios na busca de ouro, na fiscalização dos que buscam ouro, nas expedições turísticas ou científicas, nos aviões que cruzam seu céu e que ele era capaz de reconhecer até no falso brilho estrelar dos satélites artificiais cruzando a noite equatorial.

Os humanos preocupam-se com o futuro da humanidade. No momento amplia-se a consciência de que o mundo, seus recursos e sua capacidade de restauração são finitos para os homens e que em muitos casos esses limites já foram atingidos ou ultrapassados. Nesse movimento de sociedade em defesa do meio ambiente ganharam espaço crenças, religiões, ideologias e doutrinas de fundo panteísta. Elas sacralizam a natureza e respondem melhor às indagações de jovens e pessoas preocupadas com a conservação de todas as formas de vida do planeta. É como se os jovens dissessem ao defender com misticismo o futuro das baleias, focas e florestas: religião sim, Deus não! Há uma forte polaridade entre quem defende o desenvolvimento para eliminar a pobreza e quem coloca acima de tudo a tarefa de proteger a natureza.

Para o neopaganismo panteísta, tudo seria Deus, tudo seria parte do divino. Para doutrina cristã Deus é o começo, o meio e o fim da criação. Como ensinou Francisco de Assis, todos os seres vivos tem uma mesma origem, participam da mesma corrente de vida e isso gera uma fraternidade entre as criaturas, muito além da ordem moral. Para a tradição católica, a natureza é um território do sagrado, uma das manifestações mais extraordinárias do amor de Deus. Ele serve-se da natureza, que pode existir sem o humano, enquanto o contrário não é verdade.

A superação do antropocentrismo não implica na adoção de um biocentrismo, hoje contagiante em muitas esferas da sociedade. Viver em harmonia com a natureza não significa viver como os animais, mas com os animais. Devemos ultrapassar a antinomia do cartesianismo que negava qualquer valor intrínseco aos seres da natureza e a de certos ecologistas que tomam a biosfera como o único e autêntico sujeito de direito. A biosfera no seu conjunto é também o vírus da AIDS, da paralisia infantil, o cólera e as aves do céu. As mudanças globais pedem mudanças nas mentes e nas vidas de todos. É chegada a hora de impor limites ao intervencionismo da tecnociência no ambiente natural. Existe uma unidade original de todas formas de vida. Ela também deveria gerar uma unidade de destinos, entre imortalidade e eternidade. Principalmente para os cristãos para quem tudo o que marca de forma indelével a humanidade estará presente no mundo da ressurreição, no reino dos céus e no paraíso.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Mudanças Globais. Revista Missões, São Paulo – SP, p. 22, 01 dez. 2005.

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