KOSOVO E GAFANHOTOS


(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Desgraças nunca chegam sozinhas.

No seio do drama vivido pelo Kosovo, geram-se outras tragédias, inclusive ecológicas. Como nas pragas do Egito, os gafanhotos também preparam suas tropas para intervir no conflito. Trata-se do terrível gafanhoto italiano. Seu nome científico é Calliptamus italicus, fácil de reconhecer por suas enormes patas traseiras. Da Albânia ao Cazaquistão, passando por países como a Geórgia, ele tem cobrado preços elevados por seus ataques: destrói lavouras, arruina camponeses, desequilibra o balanço alimentar e as economias locais, além de causar muito impacto ambiental, devido aos tratamentos com pesticidas.

Nos Balcãs começa a primavera. Os ovos desses gafanhotos, colocados aos milhões nos campos cultivados durante o verão passado, deveriam estar sendo destruídos pelo trabalho de aração da terra. Trata-se de um equilíbrio secular entre o homem, a agricultura e o meio ambiente. Normalmente, apenas uma pequena parte desses ovos chega a dar origem a grupos de gafanhotos. Algo parecido ocorre na região da Chapada dos Parecis, no Mato Grosso, com um outro gafanhoto-praga, o Rhammatocerus schistocercoides.

As pragas de gafanhotos são intermitentes. Parecem surgir do nada. E do mesmo modo surgem, desaparecem, deixando um rastro de miséria e desolação. Pessoas mal informadas acreditavam que no Mato Grosso os ataques do gafanhoto eram fruto da expansão da fronteira agrícola ou ainda que eles “surgiam” numa reserva indígena e de lá se espandiam sobre milhares de quilômetro. Um programa de pesquisa científica, conduzido na região pela Embrapa Monitoramento por Satélite em colaboração com especialistas franceses, verificou uma realidade bem mais complexa: os gafanhotos sempre estiveram presentes de forma crônica em toda a região; as queimadas favorecem a praga e um dos seus maiores inimigos ainda é a agricultura, sobretudo a mecanizada. Ela destrói seus ovos e cria amplos espaços de solo nu durante meses, onde não há nada que o gafanhoto possa comer. Já as queimadas, ao provocarem uma brotação precoce da pastagem, oferecem comida ao gado e aos gafanhotos, em plena estação seca.

Nos Balcãs, este ano, a primavera será diferente. O silêncio reina na, até então, densamente povoada zona rural de Kosovo. Nem os animais, nem os tratores estão arando. Eles transportam pessoas aos milhares e são deixados estacionados na fronteira. O solo, que deveria cobrir-se de plantações de cereais e leguminosas, repousa, sacudido por explosões esporádicas. Nesse ambiente favorável ao inseto, a eclosão dos ovos do gafanhoto italiano será muito grande. Poucos ovos serão destruídos. Ao nascerem, eles encontrarão fartura em ervas daninhas para comer. Os inseticidas, que também reduziam sua população, não estarão sendo aplicados em culturas hoje inexistentes. Se o clima ajudar, será um verão de alta fertilidade para as fêmeas e o número de ovos e posturas vai crescer exponencialmente, prenunciando tragédias ainda maiores.

Em conflito ou em paz, a primavera do ano 2000 chegará com muitos problemas para as populações do Kosovo de qualquer etnia, inclusive para os sérvios que por lá permanecem. Para quem estuda a biologia e a ecologia de gafanhotos, não é difícil prever uma explosão de bandos e nuvens desses insetos-praga, com todo seu arsenal de destruição. Os inimigos naturais não estarão em medida para enfrentar um crescimento de gafanhotos dessa magnitude.

Não será a primeira vez. Tudo isso já ocorreu na Albânia, há alguns anos atrás, quando o fim da ditadura de Ever Hoxa e a guerra civil levaram ao abandono temporário das áreas agrícolas e à redução das superfícies plantadas. A proliferação do gafanhoto italiano foi tão grande que recursos internacionais e a própria FAO (Food and Agriculture Organization) teve de intervir. Populações de gafanhotos desconhecem fronteiras e tendem a estender-se pelos países vizinhos, ilustrando mais uma conseqüência da internacionalização desse conflito. Diante de um contexto que impede qualquer medida preventiva, tudo indica que a história vai se repetir, como um castigo dos deuses à irracionalidade dos humanos.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Kosovo e os gafanhotos. Revista Globo Rural, São Paulo – SP, p. 6, 16 jul. 1999.

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