HISTÓRIA E GLÓRIA DE UMA MATA ATLÂNTICA

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(17/01/2009)

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Que a Mata Atlântica é o bioma brasileiro mais ameaçado, todos sabemos. Mas porque existe a Mata Atlântica? Por quê ela se distribui por toda a costa, mesmo onde as escarpas são íngremes? Como resiste essa floresta tão diversa e como sobrevive a imensa gama de animais que nela habita? De onde vem a teimosia em rebrotar, apesar das agressões e da fragmentação imposta pelo homem? Conhecer a história da Mata Atlântica pode ajudar a esclarecer algumas dessas questões e o conhecimento, certamente, anda a par e passo com a conservação.

 

Um berçário de nuvens

A descoberta da Mata Atlântica tanto entusiasmou os portugueses, no Século XVI, quanto os intrigou. Do outro lado do Atlântico, na mesma latitude, o litoral africano era marcado por desertos, cujas dunas chegavam até as praias na Costa dos Esqueletos. Aqui as águas eram quentes. Na África, geladas. Por quê esse contraste? Por quê uma Mata Atlântica, só de um lado do oceano?

Aos poucos, os navegadores portugueses descobriram que, no Hemisfério Sul, as correntes marinhas giram sempre no sentido anti-horário. As águas frias saem da Antártica e rumam no sentido Nordeste. Ao longo do litoral africano, não evaporam. Ao contrário, estabilizam a atmosfera e determinam um clima árido, sem chuvas, na África do Sul e na Namíbia.

Essa corrente fria acompanha o litoral atlântico africano e se aquece enquanto segue em direção ao Equador. Então, muda para o sentido Leste-Oeste e, após atravessar da África para o Brasil (aquecendo ainda mais), desce ao longo da costa brasileira, em direção ao Sul. Em 1984, impulsionado por essa corrente, Amyr Klink remou da Namíbia até a Bahia.

As águas aquecidas são um berçário de nuvens. Os ventos alísios, vindos do Atlântico, empurram as nuvens recém-nascidas para o interior das terras e provocam chuvas constantes na fachada litorânea. Elas alimentam a seiva e a transpiração das plantas. Chove mais na Mata Atlântica do que na Amazônia. O lugar mais chuvoso do Brasil fica no Paraná, na região do Pico do Marumbi: mais de 5 metros de chuva por ano (5.000 mm)! O dobro das médias amazônicas. Ubatuba, em São Paulo, recebe mais chuva do que a maioria das localidades amazônicas.

O mesmo ocorre nas demais fachadas Leste do Hemisfério Sul, todas ocupadas por florestas úmidas, enquanto as fachadas Oeste apresentam desertos costeiros. No Século XVI, não se sabia que a origem dessa circulação das águas era a rotação terrestre e a chamada força de Coriolis. Como um relógio, a mecânica celeste, ao deslocar as grandes massas oceânicas, ‘cria’ a Mata Atlântica. Chuvas, umidade e outros condicionantes são o produto dessas causas cósmicas, responsáveis pela existência de florestas úmidas e desertos costeiros nos litorais opostos da América da Sul, África, Madagascar e Austrália. Para muitos pode parecer difícil acreditar, mas no Século XVI, as pessoas interessaram-se muito mais pela Mata Atlântica do que nós, nos dias de hoje.

Um astronauta no Século XVI

 

Assentado sobre um daqueles penedos, donde via o mais alto cume, lançando os olhos para baixo me parecia que olhava do céu, da lua, e que via todo o globo da Terra posto debaixo dos meus pés…

Com essa visão de astronauta no Século XVI, imaginando-se no céu ou na lua, o padre José de Anchieta contemplava as escarpas da Serra do Mar enquanto descansava em meio às suas andanças na trilha por ele mesmo construída entre São Vicente e São Paulo. As dificuldades e perigos dessa via, batizada com seu nome, não impediam Anchieta de observar a exuberância da Mata Atlântica e declarar seu encantamento: “via todo o globo da Terra posto debaixo dos meus pés e com notável formosura, pela variedade de vistas, do mar, da terra, dos campos, dos bosques, e serranias, tudo vario, e sobremaneira aprazível”.

O Caminho de Anchieta foi, durante séculos, a principal trilha para subir do litoral ao planalto paulista e vice-versa. Após a travessia dos manguesais, começava uma jornada a pé de vários dias, através da Mata Atlântica. O viajante enfrentava mosquitos, chuvas e garoas, frio, ataques de animais, passagens escorregadias e o esforço de elevar o próprio corpo e seu carregamento, em meio à floresta, a mais de 700 metros de altura. No Século XVII, o padre Simão Vasconcelos, assim descrevia a difícil ascensão da Serra do Mar pelo Caminho de Anchieta:

“O Caminho é tal, que põe assombro aos que hão de subir, ou descer. O mais do espaço não é caminhar, é trepar de pés e de mãos, aferrados às raízes das árvores, e por entre quebrados tais e de tais despenhadeiros, que confesso de mim, que a primeira vez que passei por aqui, me tremeram as carnes, olhando para baixo. A profundeza dos vales é espantosa: a diversidade dos montes uns sobre os outros, parece que tira a esperança de chegar ao fim: quando cuidais que chegais ao cume de um, achai-vos ao pé de outro não menor”.

Antes de vir ao Brasil, Anchieta recebera um excelente preparo em Coimbra e tinha um conhecimento elevado do saber e da cultura da Europa de seu tempo. Muitas de suas obras descreveram a flora e a fauna da Mata Atlântica, como no longo texto dirigido ao padre-geral Diogo Laines: “Carta contendo a descrição de numerosas coisas naturais que povoam a província de S. Vicente”. Apesar do caráter onipresente e quase opressivo da floresta e da adversidade de sua biodiversidade, Anchieta defendeu a proteção e o respeito aos animais e alertou sobre cuidados necessários com a natureza.

Vivendo num pequeno território, pobre em recursos naturais, o povo português, como poucos, sempre soube o valor das florestas. Rapidamente, as explorações da nova terra mostraram aos lusitanos o quanto essa faixa de mata úmida era estreita e limitada. Pilhada por piratas e objeto de povoamentos desordenados, sua existência estava em perigo. Em paralelo com a defesa armada oposta aos contrabandistas de pau-brasil, a legislação da Coroa Portuguesa, entre os séculos XVI e XVIII, preocupou-se, e muito, com a preservação e o uso racional da Mata Atlântica.

As leis da Mata Atlântica

 

No tempo dos descobrimentos, as Ordenações do Reino eram a principal fonte de todo o direito. Essas compilações de leis vigentes começaram com as Ordenações Afonsinas, em 1446. As Ordenações Manuelinas, organizadas por D. Manuel I, foram concluídas em 1514 e dedicaram vários títulos e capítulos à preservação dos recursos naturais. Elas fizeram de Portugal o primeiro país da Europa a sistematizar um corpus legal dessa magnitude.

O livro V, no título “C”, por exemplo, tipificava o corte de árvores frutíferas como crime. Em Portugal, isso representava uma dúzia de espécies (macieiras, nogueiras, pessegueiros, cerejeiras, pereiras…). Estendida às terras descobertas, essa legislação ganhou um alcance enorme.

Na Mata Atlântica, araçás, jabuticabas, taperebás, cambucás, pitangas, grumixamas, muricis, jatobás, pinhões, abiús, mangabas, araticuns, cajás, tarumãs, pindaíbas, uvaias, cambucis, oitis, guabirobas, jenipapos, bacuris, goiabas, cambuís, pitombas, joáse tantas outras frutas nativas tiveram suas árvores-mães legalmente protegidas do corte e derrubada.

Em poucos anos, o Reino do Brasil e a Mata Atlântica tinham uma lista de dezenas de árvores, de grande valor pela qualidade de sua madeira, cujo corte era proibido pela lei. Eram árvores-reais ou paus-de-lei, e deram origem à expressão “madeira de lei”, protegida pela lei, que perdura até hoje.

A partir de 1548, para evitar a destruição da floresta e orientar seu uso racional, a legislação da Coroa Portuguesa tomou um rosto local. O Governo Geral do Brasil editou e aplicou regimentos, ordenações, alvarás e outros instrumentos legais para preservar e conservar os recursos naturais brasileiros. Eles proibiam a pesca com rede em certas épocas, o lançamento nos rios de material prejudicial aos peixes, exigiam estudos para aprovar a instalação de engenhos de açúcar etc.

O primeiro pesquisador

Para cuidar da Mata Atlântica era preciso conhecê-la. No Século XVI, ninguém igualou o trabalho científico de Gabriel Soares de Souza. Científico porque ele exerceu a ciência de seu tempo e o fez de forma equilibrada, não se fixou nas curiosidades e exuberâncias, nem tratou com desprezo ou desinteresse as realidades exóticas da Mata Atlântica. Foi objetivo e sistemático. Culto, amigo de Luís de Camões, apaixonado por descobertas, Gabriel de Souza viveu 17 anos no Brasil. Além de ter explorado o rio São Francisco, entre outros feitos, ele editou um imponente “Tratado Descritivo do Brasil”, publicado em 1587. Foi o trabalho mais enciclopédico da literatura portuguesa desse período. Nele, cerca de 250 capítulos foram dedicados à Mata Atlântica.

Mais de setenta capítulos descrevem a costa, os rios e a vida na Mata Atlântica. O estudo parte da embocadura do Amazonas, progride pelo Pará e Maranhão, de lá ao Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, passa pelo rio S. Francisco, baía de Todos os Santos, Ilhéus, Porto Seguro, Caravelas, rio Doce, Cabo de S. Tomé, Cabo Frio, Rio de Janeiro, S. Vicente, Cananéia, até a lagoa dos Patos, o cabo de Santa Maria e o rio da Prata.

Sua abordagem da flora da Mata Atlântica descreve as “árvores e plantas indígenas que dão fruto que se come”, as árvores medicinais, as ervas medicinais, as com potencial madeireiro, as “árvores-reais e paus-de-lei”. Ele completa essa descrição botânica com as “árvores meãs com diferentes propriedades, dos cipós e folhas úteis”, num total de quase oitenta capítulos. A descrição da fauna começa pelas aves, segue pelos mamíferos terrestres, répteis e anfíbios, e prossegue sobre escorpionídeos, aracnídeos, vespas, formigas e abelhas, num total de quase cinqüenta capítulos. Mais de vinte outros capítulos são dedicados a mamíferos marinhos, peixes, camarões, crustáceos, moluscos, zoófitos, equinodermos etc.

Para Gabriel Soares de Souza, a melhor maneira de preservar uma floresta era valorizá-la. E ele tinha toda razão. O pouco que resta da Mata Atlântica deve-se, em grande parte, à exploração do pau-brasil.

Explorar para preservar

Para preservar a Mata Atlântica era essencial explorá-la, de forma racional. Graves desordens e ações predatórias marcaram as primeiras décadas do corte do pau-brasil. Após uma série de estudos, a Coroa editou em 1605, o Regimento do Pau-Brasil, um marco de política florestal e a primeira lei de uso e preservação da Mata Atlântica.

Em seu preâmbulo, El-Rei dizia estar ciente das desordens e abusos na exploração do pau-brasil, de como a árvore se tornava rara, de como a Mata Atlântica se degradava e empobrecia, obrigando a penetração por léguas em direção ao interior, na busca dessa espécie. Diante do comprometimento do futuro dessas matas, após tomar “informações de pessoas de experiência das partes do Brasil, e comunicando-as com as do Meu Conselho”, El-Rei fez esse Regimento e ordenou que “se guarde daqui em diante inviolavelmente”.

O parágrafo primeiro, em estilo jornalístico, dá o tom da determinação real: “Primeiramente Hei por bem, e Mando, que nenhuma pessoa possa cortar, nem mandar cortar o dito pau-brasil, por si, ou seus escravos ou Feitores seus, sem expressa licença, ou escrito do Provedor mór de Minha Fazenda, de cada uma das Capitanias, em cujo distrito estiver a mata; e o que o contrário fizer encorrerá em pena de morte e confiscação de toda sua fazenda.

Segundo o Regimento, antes de dar uma licença de corte do pau-brasil, o Provedor deveria obter informações sobre a qualidade do requerente, se pairava sobre ele alguma suspeita, seu caráter, antecedentes etc. O Provedor mantinha o Livro de Registros das licenças outorgadas. Assinado e numerado, esse livro registrava todas licenças, declarava os nomes dos licenciados, as confrontações de áreas, as quantidades de pau-brasil licenciadas etc.

Existiam penas proporcionais a quem excedesse sua licença de corte do pau-brasil. O excedente era sempre confiscado. Se passasse de 600 kg, multa de cem cruzados. Acima de 3 toneladas, açoite e degredo por 10 anos em Angola. Ultrapassando 6 toneladas, perda da fazenda e execução! Desrespeitar a Mata Atlântica no corte do pau-brasil era um crime gravíssimo.

Para evitar a corrupção dos Provedores, as concessões eram anuais. Antes de renová-las, o Provedor deveria fazer uma avaliação: “para que se não corte mais quantidade de pau da que eu tiver dada por contrato, nem se carregue à dada Capitania, mais da que boamente se pôde tirar dela. O Provedor avaliava se a mata suportava a quantidade outorgada, se não estava havendo sub ou super exploração dos recursos: “se terá respeito do estado das matas de cada uma das ditas Capitanias, para lhe não carregarem mais, nem menos pau do que convém para benefício das ditas matas...”

Para garantir transparência e honestidade administrativa, a repartição das outorgas era feita em público, às claras. “A dita Repartição do pau que se há de cortar em cada Capitania se fará em presença do Meu Governador daquele Estado pelo Provedor Mór da Minha Fazenda, e Oficiais da Câmara da Bahia”. O Regimento previa uma auditoria independente, vinda de Lisboa, sem prévio aviso. Uma devassa anual sobre a administração e os administradores do corte do pau-brasil. Mas era no parágrafo 8 do Regimento, que El-Rei apresentava constatações decisivas para a preservação da Mata Atlântica.

Do bom uso e ocupação das terras

O maior dano à conservação da mata estava na forma de cortar o pau-brasil. Os contratantes queriam receber troncos roliços e maciços, deixando no campo galhos e ramos mesmo se convenientes “para o uso das tintas”. Face ao desperdício, El-Rei ordenava: “Mando a que daqui em diante se aproveite todo o que for de receber, e não se deixe pelos matos nenhum pau cortado, assim dos ditos ramos, como das ilhargas, e que os contratadores o recebam todo…”.

Outra causa de extinção era a ausência de rebrotas, devido à forma do corte, não deixando ramos, nem varas e, sobretudo, o fato de queimarem-se as áreas para plantar. El-Rei transformou essas áreas em coutos reais. As pessoas tinham direito de uso sobre as árvores mas não sobre as terras. Elas seriam reservas florestais da Coroa e não mais áreas destinadas à agricultura: “Hei por bem, e Mando, que daqui em diante se não fação roças em terras de matas de pau do brasil, e serão para isso coutadas com todas as penas, e defesas, que estas coutadas Reais…

E o Regimento buscava garantir a regeneração natural:e que nos ditos cortes se tenha muito tento à conservação das árvores para que tornem a brotar, deixando-lhes varas, e troncos com que os possam fazer, e os que o contrário fizerem serão castigados com as penas que parecer ao Julgador.

Essas e outras medidas permitiram um manejo sustentado das florestas de pau-brasil e a preservação da Mata Atlântica, cuja exploração não foi sinônimo de desmatamento, como pensam muitos, mas de conservação. O último carregamento de pau-brasil foi exportado em 1875. A exploração não cessou devido ao desaparecimento das matas e sim por razões meramente comerciais, de perda de competitividade, com a entrada das anilinas no mercado da tinturaria. O grande desmatamento ocorreu, de fato, no Século XX. A política florestal da Coroa Portuguesa e do Império do Brasil logrou, por diversos e invejáveis mecanismos, manter a Mata Atlântica até final do Século XIX, com poucos locais alterados.

Muitas matas atlânticas

 

Por milhões de anos, muitas matas sucederam-se na costa atlântica, colecionando espécies. Hoje, na Mata Atlântica, coabitam desde vegetais primitivos, incapazes de produzir flores (pinheirinhos e araucárias) ou sementes (licopodiuns, selaginelas, samambaias minúsculas e arborescentes), até plantas muito evoluídas como orquídeas e palmeiras.

Entre o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, o sub-bosque da Mata Atlântica é marcado pelo mutismo dos xaxins, essa samambaia arborescente do tempo dos dinossauros. Assim como o xaxim, muitas plantas e animais limitam-se à região Sul e Sudeste. Outras estão restritas ao Nordeste e não ocorrem mais ao Sul. A variação climática latitudinal criou um mosaico de comunidades vegetais e animais ao longo da Mata Atlântica.

Dezenas de espécies de palmeiras, emblemáticas da Mata Atlântica, sucedem-se pelo litoral brasileiro. As populações indígenas dos Andes e da Pampa davam ao Brasil o nome de Pindorama, terra das palmeiras. Esguias e altivas, elas fornecem saborosos palmitos, caules retilíneos e variadas folhas para artesanato e construção de casas e telhados. Além dos infinitos coquinhos para honra e glória de macacos, cotias, maritacas e papagaios.

As terras da Mata Atlântica são movimentadas. Uma cordilheira costeira acompanha o litoral brasileiro. Os primeiros povoadores o constataram. Do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo, uma sucessão de cadeias montanhosas elevam-se acima de 1.000 metros e chegam a quase 3.000 metros. A partir de Sergipe, serras mais isoladas acompanham o litoral. Até 50 anos atrás, acreditava-se que os pontos culminantes do Brasil estavam na Mata Atlântica: Pico da Bandeira, Agulhas Negras, Cristal, Serra Fina dos Ivos

Essa variação de altitude, ao longo da latitude, atua na repartição das espécies, gera uma diversidade de situações ecológicas e de matas atlânticas. A araucária distribui-se por mais de 1.200 km, de 30 a 19 graus de Latitude Sul, graças às elevações na Mata Atlântica. No Sul, a araucária ocorre em terras baixas. Ela progride em direção ao Norte, ganhando altitude. Encontrada a 300 metros no Paraná, ela vive bem a 500 metros em S. Paulo e a 800 metros em Minas Gerais. O podocarpo, ou pinheirinho bravo, outra conífera abundante no sul do Brasil, é encontrado em altitude em Sergipe (Serra da Itabaiana) e chega até Pernambuco (Serra dos Cavalos).

 

Marés terrestres e ilhas em terra firme

 

São muitas formas de relevo na fachada atlântica: morros em ‘meia laranja’ do Nordeste, pães de açúcar do Espírito Santo ao Rio de Janeiro, encostas rochosas, falésias, costões e escarpas entre São Paulo e o Rio Grande do Sul. Elas contrastam com planícies costeiras estreitas e parecem prolongar-se mar adentro em ilhas e arquipélagos próximos da costa, de Santa Catarina ao Espírito Santo. As ilhas oceânicas, formadas recentemente pela elevação do nível do mar, abrigam diversos endemismos, com suas jararacas e aranhas especialíssimas.

Mas as ilhas da Mata Atlântica não estão apenas no mar. Elas também ocorrem em terra firme. As encostas e cumes das serras Geral, da Bocaina e da Mantiqueira são ambientes diferenciados do entorno e estão repletos de endemismos faunísticos e florísticos, típicos de matas de neblina e campos de altitude. Ocorrências de formas únicas de vida, localizadas em pequenas áreas, são freqüentes na Mata Atlântica. Existem bromélias encontradas apenas numa das faces do Pão de Açúcar do Rio de Janeiro, por exemplo. Alguns anfíbios, por sua vez, vivem exclusivamente em certas espécies de bromélias. Cerca de dois terços dos primatas da Mata Atlântica são endêmicos.

Durante as glaciações e mudanças climáticas, as espécies adaptaram-se, deslocaram-se e participaram de verdadeiras migrações para o Norte ou para o Sul, quando o clima esfriava ou esquentava. Viveram as chamadas marés terrestres ou ecológicas, subindo e descendo encostas, explorando compensações entre latitude e altitude. E também se extinguindo, localmente. Sob outro clima, a araucária existiu em todo Nordeste, como atestam numerosos fósseis.

A disposição longitudinal da Mata Atlântica, suas variações em altitude e as mudanças climáticas contribuíram para o surgimento e a manutenção de novas espécies, de forma mais vigorosa do que na Amazônia. A biodiversidade e os endemismos da Mata Atlântica são os maiores do Brasil, apesar de sua extensão ser bem inferior à do bioma Amazônia ou do Cerrado.

A Mata Atlântica abriga aproximadamente 261 espécies de mamíferos (73 endêmicos), 340 anfíbios (253 endêmicos), 192 répteis (60 endêmicos), 1.020 de aves (188 endêmicas), além de cerca de 20.000 espécies de plantas, das quais metade seria restrita ao bioma. Essa diversidade de espécies e sua repartição são também o resultado da fragmentações espaciais, em altitude e latitude, que marcaram a história de Mata Atlântica. O desmatamento no Século XX provocou uma nova e rápida fragmentação. Um processo análogo na Amazônia teria conseqüências mais negativas. Isso não justifica tal nível de desmatamento, mas a Mata Atlântica é mais apta a enfrentar fragmentação do que outros biomas do Brasil.

 

Brincando nos jardins do Senhor

 

Para orquídeas, musgos, liquens, samambaias e bromélias, os jardins do Senhor são as árvores. Elas descem, sobem e envolvem galhos e troncos. No sub-bosque da Mata Atlântica, as vezes, é impossível ver a casca das árvores, sempre revestidas de um verde felpudo. Além dos vegetais, as epífitas galgam e revestem pedras e rochas. Até os agitados cipós vivem recobertos de liquens, musgos, microorquídeas e pequenas bromélias. As árvores não se queixam e cumprem sua obrigação cotidiana de luta pela luz, disputando espaços horizontais e verticais nas terras da Mata Atlântica.

Contudo, a água pesa. E muito. A presença de névoas, neblinas, chuvas e orvalhos mantém os troncos e galhos úmidos. O peso dessa esponja verde nos galhos é enorme. Basta um apodrecimento ou umas gramas a mais e eles se rompem, e caem. Surge uma nova clareira para a luz acariciar o chão, enquanto insetos, fungos e bactérias atacam os restos apodrecidos.

Toneladas de água caem por metro quadrado em toda a Mata Atlântica. Qual as conseqüências desse peso hídrico, desses milhões de toneladas de água precipitada sobre as serras, escoando pelas encostas e descendo pelos rios? O trajeto da maioria dos rios das bacias atlânticas é muito curto. A erosão deveria ser alta. Contudo, as águas chegam no sopé das serras quase sem sedimentos, cristalinas.

Para dissipar a energia cinética da água, a Mata Atlântica recorre a muitas sutilezas. Parte das gotas de chuva são capturadas por teias de aranhas, nas pinças e curvas das folhas de samambaias, nas taças dos liquens e cogumelos e nos copos das bromélias. Os galhos, paralelos ao solo e perpendiculares às chuvas, retém muita água num labirinto de cascas, musgos, liquens, samambaias, bromélias, orquídeas e outras epífitas. As gotas de chuva estão proibidas de cair em queda livre até o solo da Mata Atlântica. A floresta fechada absorve até 35% das chuvas.

Folhas brilhantes, recobertas de ceras, interceptam, mas não retém, as gotas de chuva. As águas celestes descem lentamente pelas folhas, ramos e troncos até as realidades terrestres onde dissipam-se em espessa serapilheira de folhas e galhos mortos. Com tudo encharcado, o excesso hídrico desce as encostas atlânticas, em direção ao mar original. Impossibilitados de cavar as rochas expostas, os rios tendem a serpentear e aumentar o seu percurso, para dissipar sua energia cinética. Nas regiões serranas da Mata Atlântica, do Paraná até o Espírito Santo, eles abrem um largo caminho sobre as rochas onde ocupam apenas a parte central. Nas baixadas, o leito dos rios é ocupado por blocos de rochas e matacões, arredondados pelas carícias das águas que murmuram seus lamentos, sob o peso silencioso das pedras.

 

Frestas e flechas de luz

 

Entre névoas e neblinas, uma caminhada pela Mata Atlântica densa mais parece um mergulho em águas etéreas. É como um retorno ao passado, a um tempo sem tempo, situado entre o gênesis e o dilúvio. A serapilheira amortece os passos. Os sons são atenuados e absorvidos. As flechas de luz incidente são raras. O sub-bosque é marcado pela luz difusa. Não existe direção privilegiada dos raios luminosos. Eles difundem-se em todos sentidos e, por timidez, escondem-se nas trevas.

Plantas e arbustos próximos do chão, para aumentar as chances de captar esses pequenos raios luminosos, apresentam folhas aveludadas ou com superfícies arredondadas, como se fossem múltiplas bolhas. Elas funcionam como armadilhas de luz ou lupas: captam a luz difusa e a concentram num ponto interior das células onde ficam as estruturas que fazem a fotossíntese.

As plantas são verdes por refletirem essa fração da luz solar. Elas ‘não gostam’ do verde e o devolvem. No sub-bosque da Mata Atlântica, diante da escassez de luz, toda gama da radiação luminosa é utilizada, incluindo o verde. Há plantas roxas, vermelho-escuras ou quase negras. Elas absorvem e utilizam quase todo espectro luminoso. Algumas devoram toda a luz visível e brilham em tons metálicos, próximos do ultravioleta.

Em meio às formas coralinas dos arbustos e aos tons crepusculares, os morcegos começam a trabalhar cedo e recolhem-se tarde, observados por cogumelos vistosos e silenciosos. Trampolins de pererecas e abrigos de seres encantados, alguns cogumelos são até fosforescentes. Para o caminhante contemplativo, o sub-bosque da Mata Atlântica, com sua luminosidade azulada, marinha e difusa, lembra um aquário. Tudo evoca a proximidade da corrente oceânica atlântica em sua quieta caminhada rumo ao Sul, conectada ao movimento dos planetas e aos sussurros das estrelas.

Ao longo de serras e planícies do litoral brasileiro, essa mata chamada atlântica nos encanta, assim como extasiou os exploradores dos séculos passados. Quem conhece a floresta temperada e sua minguada biodiversidade concordará com o que o padre Fernão Cardim, em 1583, escreveu sobre a Mata Atlântica: “É coisa de grande alegria ver os muitos rios caudalosos e frescos bosques de altíssimos arvoredos, que todo o ano estão verdes e cheios de formosíssimos pássaros, que em sua música não dão muita vantagem aos canários, rouxinóis e pintassilgos de Portugal, antes lh´a levam na variedade e formosura de suas penas”.

 

 

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