GESTÃO TERRITORIAL DO AGRONEGÓCIO: UMA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os municípios situados na região nordeste do Estado de São Paulo concentram parcela significativa do agronegócio brasileiro. Seu PIB, superior a 25 bilhões de dólares, é maior que o do Uruguai e sua renda per capita é o dobro da Argentina. O agronegócio regional busca cada vez mais participar da formulação das políticas públicas territoriais e necessita de informações atualizadas sobre a dinâmica espacial do uso e ocupação das terras e de sua adequabilidade ambiental. Para atender essas necessidades, a Embrapa Monitoramento por Satélite, em parceria com o projeto temático ECOAGRI, financiado pela FAPESP e com o apoio da Associação Brasileira do Agronegócio de Ribeirão Preto – ABAG-RP, estruturou um sistema de gestão territorial do agronegócio pioneiro para essa região, abrangendo 125 municípios. Eles ocupam 51.725 km2 e representam cerca de 21% da área do Estado. O trabalho de pesquisa, ainda em curso, concluiu o mapeamento do uso e cobertura das terras em 1988 e 2003, com base em imagens de vários satélites e trabalhos de campo, uma caracterização climática, hidrológica, pedológica e vegetacional da região, além de uma base de dados com indicadores agro-sócio-econômicos e de biodiversidade para as principais classes de uso agrícola das terras. Grande parte dessa informação está disponível no site da Embrapa Monitoramento por Satélite (http://www.nordestesp.cnpm.embrapa.br/ ). Os principais resultados e métodos mais significativos desta pesquisa são apresentados nos diversos capítulos deste livro que revelam dados surpreendentes sobre a dinâmica e a adequabilidade do uso das terras nessa região.

GESTÃO TERRITORIAL DO AGRONEGÓCIO: UMA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA

1 – DO QUE SE TRATA?

Este livro trata de uma recente inovação tecnológica, propiciada pelo desenvolvimento dos instrumentos científicos modernos: a gestão territorial do agronegócio. Ele apresenta os diversos aspectos de um sistema de gestão territorial estruturado para 125 municípios situados na região nordeste do Estado de São Paulo. Juntos, eles ocupam 51.725 km2 e representam cerca de 21% do Estado de São Paulo. A região é um exemplo de desenvolvimento territorial competitivo e sustentável do agronegócio brasileiro (Figura 1).

a15

Figura 1 – Localização da Área de Estudo no Estado de S. Paulo

A competitividade agrícola depende cada vez mais de fatores logísticos, de infra-estrutura, de mudanças e ajustes no uso das terras, na localização dos cultivos, na integração da produção agrícola às redes de transformação e de agregação de valor. O espaço rural paulista busca tornar-se um território sustentável há muito tempo, cuidando da conservação dos solos, da água e dos recursos naturais. A localização dos cultivos também visa uma melhor adequabilidade à aptidão e ao potencial de uso e ocupação das terras. Face à competitividade do agronegócio brasileiro, a forma e o local da produção agrícola, principalmente no caso de comodities, estão sendo questionados internacionalmente e até sendo usados e evocados como possíveis barreiras burocráticas e não tarifárias a esses produtos no exterior. Isso representa, a um tempo, uma série de ameaças e oportunidades para a inserção internacional competitiva do agronegócio brasileiro.

Oportunidades não faltam no mercado agrícola internacional e nacional para a expansão do comércio de produtos da agricultura brasileira. Todas as previsões de curto e médio prazo, apontam para um crescimento adicional da demanda internacional por cereais (230 milhões de toneladas), oleaginosas (60 milhões de toneladas) e carnes (50 milhões de toneladas) até 2015. O aumento de curto prazo da demanda de álcool (11 bilhões de litros) e açúcar (9 milhões de toneladas) leva à previsão de um crescimento de 2,3 milhões de hectares adicionais, cultivados em cana de açúcar, principalmente na região Sudeste do Brasil. Esses processos estão determinando importantes mudanças no espaço rural, como esta pesquisa na região nordeste do estado de São Paulo pode evidenciar pela regressão e expansão territorial de diversas culturas.

Face a essas oportunidades, o agronegócio brasileiro busca estratégias básicas para que o setor cresça e se desenvolva de forma sustentável, em médio e longo prazo. Contudo, os territórios onde desenvolve-se a agricultura são cada vez mais objeto de políticas públicas não agrícolas. Elas impõe condições e condicionamentos crescentes ao desenvolvimento da agricultura, principalmente nas temáticas sócio-ambientais. Uma legislação cada vez mais ampla e complexa vem definindo e regulamentando o uso e a ocupação do espaço rural, estabelecendo regras e limites (áreas de preservação permanente, reserva legal, exigências de conservação de solo e água, manutenção da biodiversidade, regulamentação do uso de insumos, da prática de queimadas etc.). Nem sempre essas iniciativas consideram suficientemente seus impactos sociais, econômicos e ambientais nos diversos territórios agrícolas do Brasil.

Ultimamente, essas políticas públicas buscam solucionar problemas regionais e até nacionais através de exigências aplicadas a cada imóvel ou propriedade rural, desconsiderando a heterogeneidade agroecológica e sócio-econômica do espaço rural, e suas dinâmicas temporais. De grande simplismo, elas postulam, de fato, que uma soma de soluções individuais homogêneas para o uso e ocupação das terras agrícolas, em cada propriedade rural, seria capaz de gerar uma sinergia regional ou ainda uma solução global positiva. Na prática, isso não ocorre.

A agricultura é condicionada e condiciona seu contexto territorial de forma muito mais ampla, através de complexos processos econômicos, sociais, energéticos e ambientais. Um território agrícola, seja ele uma bacia hidrográfica, um município ou a área de atuação de uma cooperativa, é sempre uma realidade dinâmica e heterogênea. Parte dessa dinâmica está fora do controle dos agricultores pois está ligada a flutuações climáticas, políticas de preços e cambiais, surgimento de novas pragas e doenças etc. Uma outra parte, depende dos produtores rurais. Em diálogo com as condições objetivas de mercado, eles definem o que plantar, quanto plantar, onde plantar e como plantar.

Os produtores rurais vêm tomando uma série de iniciativas com vistas a obter uma maior sustentabilidade territorial do seu negócio, tanto individualmente, como coletivamente, através de suas associações locais, por cadeia produtiva e por região. Várias tecnologias e sistemas de gestão dos recursos naturais em micro-bacias, incluindo solos, águas, biodiversidade e recomposição da vegetação natural estão sendo implantados na região nordeste do Estado de S. Paulo, sem que isso seja suficientemente conhecido pelos formuladores de políticas territoriais e ambientais. Como estabelecer um elo maior entre as iniciativas dos produtores e suas necessidades face às políticas públicas e privadas? Como informar, apoiar, simular e avaliar os impactos de políticas públicas territoriais, muitas vezes formuladas sem a participação dos agentes do agronegócio?

As lideranças do agronegócio regional buscam cada vez mais participar da formulação das políticas públicas territoriais e necessitam de informações atualizadas sobre a dinâmica espacial do uso e ocupação das terras. Para atender essas necessidades, a Embrapa Monitoramento por Satélite, negociou uma parceria com o projeto temático “Diagnóstico Ambiental da Agricultura no Estado de São Paulo: bases para um desenvolvimento rural sustentável – ECOAGRI”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (que atuava na porção paulista da bacia do rio Pardo) e com a Associação Brasileira do Agronegócio de Ribeirão Preto – ABAG/RP que atua em 86 municípios da região (Figura 2). Essa união de esforços permitiu a estruturação de um primeiro sistema de gestão territorial do agronegócio para toda a região nordeste do estado de S. Paulo (Figura 2).

a16

Figura 2. Áreas de atuação do Projeto ECOAGRI e da ABAG/RP

Ao propor a estruturação desse sistema gestão territorial do agronegócio, esta iniciativa visualizou a possibilidade de integração de novos sistemas e tecnologias fornecidas pelo monitoramento por satélites (sensoriamento remoto), pela cartografia digital (geotecnologias) e pelos bancos de dados baseados em tecnologias da informação. Era também um interesse relevante dos parceiros deste projeto de pesquisa uma comparação evolutiva do uso e ocupação das terras nesse território do agronegócio abrangido pelos 125 municípios. Para atender essa demanda, foi definido um período evolutivo de 15 anos, entre 1988 e 2003, a ser estudado.

De fato, nos últimos 15 anos, o território rural da região nordeste do estado de São Paulo transformou-se devido à incorporação de novas tecnologias agrícolas e às muitas substituições de áreas entre as várias categorias e classes de uso e cobertura das terras. Esse fenômeno pode ser analisado em cada caso e com bastante detalhe pelo sistema de gestão territorial estruturado, graças às interseções entre os dados geocodificados obtidos nos dois períodos (1988 e 2003), através de um sistema de informações geográficas. Os principais resultados obtidos serão apresentados e discutidos neste livro.

Finalmente, o sistema de gestão territorial do agronegócio também pode avaliar a adequabilidade do uso e ocupação das terras e detectar sua dinâmica na região como um todo, analisando esse fenômeno para cada um dos 125 municípios, de forma cartográfica e numérica. A ABAG/RP tem utilizado o sistema para simular cenários evolutivos do uso e cobertura das terras e dos impactos decorrentes, em função de possíveis políticas públicas agrícolas e ambientais.

2 – PARA QUE PODE SERVIR?

Um sistema de gestão territorial do agronegócio tem por objetivo ampliar a competitividade do setor agrícola e a sustentabilidade do uso e ocupação das terras. No caso desses 125 municípios, situados na região nordeste do estado de São Paulo, esse objetivo implicava, em primeiro lugar, num conhecimento efetivo e quantificado do uso e ocupação atual e passado do espaço rural, do contexto ambiental dominante e dos impactos decorrentes das atividades agrícolas. Para os parceiros do projeto, o sistema de gestão territorial deveria ser capaz de responder as seguintes perguntas, entre outras:

Qual era o uso e ocupação das terras na região de estudo em 1988 e em 2003?

Qual o contexto climático, hidrológico e pedológico do uso e ocupação das terras na região?

Qual a adequabilidade ambiental das diversas classes e categorias de uso das terras na região em 1998 e em 2003?

Melhorou ou piorou, e onde, a adequabilidade agrícola na região nordeste do Estado de São Paulo nos últimos 15 anos?

Como evoluíram as áreas de vegetação natural? Aumentou ou diminuiu as áreas remanescentes ou o desmatamento na região?

Qual a tecnologia ou as tecnologias utilizadas em cada categoria e classe de uso agrícola?

O que mudou com relação ao ano passado no uso das terras e nas tecnologias agrícolas? As mudanças ou a estabilidade no uso e ocupação das terras ocorreu de forma parecida em toda a região ou com situações muito diversificadas?

Quais os impactos ambientais decorrentes dessas dinâmicas no uso e cobertura das terras (expansão e regressão de cultivos e vegetações naturais, mudanças na biodiversidade etc.)?

Como as políticas públicas reduzem ou ampliam a sustentabilidade e a competitividade do agronegócio?

Os vários capítulos deste livro respondem boa parte dessas perguntas e contribuem para formular outras questões. Um sistema de gestão territorial do agronegócio insere-se num processo dinâmico e está em permanente evolução. As respostas e informações obtidas foram apresentadas em diversos trabalhos científicos já publicados no âmbito desta pesquisa e em diversos seminários realizados com agentes do agronegócio e autoridades responsáveis pela formulação de políticas públicas e privadas, nos municípios, na região, no estado de São Paulo e no país.

A disponibilização dos resultados obtidos no site da Embrapa Monitoramento por Satélite (http://www.nordestesp.cnpm.embrapa.br/ ) oferece uma série de ferramentas de consulta cartográfica e numérica, bastante completas e inovadoras, capazes de detalharem diversos aspectos científicos e tecnológicos apresentados nos vários capítulos deste livro. Nesse ambiente de informação encontra-se resultados e métodos como:

A cartografia do uso e ocupação das terras (sensoriamento remoto) e a caracterização da sua dinâmica espaço-temporal (sistema de informação geográfica) entre 1988 e 2003;

A caracterização e o mapeamento dos principais aspectos físicos da região numa base geográfica mais homogênea possível (geotecnologias);

A descrição do perfil técnico, agronômico, social, econômico e ambiental para cada um dos principais usos agrícolas das terras (levantamentos de campo, de literatura e com profissionais de notória competência no tema);

A estruturação e as informações de bancos numéricos e cartográficos integrados no sistema de gestão territorial do agronegócio e num GEOWEB;

O estabelecimento e as aplicações de rotinas operacionais para realização de análises e simulações.

Nunca a pesquisa agropecuária alcançou tantas dimensões técnicas e de gestão territorial como nos dias de hoje. Da porteira para dentro, suas soluções e serviços tecnológicos estão nas sementes, nas cultivares, nas máquinas de cultivar as terras, nos sistemas de produção, no controle integrado de pragas, nos diversos insumos agrícolas, no melhor uso da água e das terras etc. Da porteira para fora, a pesquisa agropecuária propõe novos sistemas de uso e ocupação das terras, preservando solos, água e biodiversidade, através de mapeamentos dos recursos naturais, ordenamentos e zoneamentos agroecológicos, monitoramento de indicadores ambientais, gestão de bacias hidrográficas etc.

O campo da atuação da pesquisa da “porteira para fora” foi ampliado na interação com as cadeias produtivas e o agronegócio, em toda a sua complexidade. Na origem desse tema existe uma hipótese, assumida na missão da Embrapa Monitoramento por Satélite em sua área de atuação há quase 20 anos: a solução dos problemas da agricultura está cada vez mais situada da porteira para fora. Como verificar essa hipótese? Como identificar essas soluções? Como influenciar as políticas públicas e privadas para que elas se efetivem de forma positiva para o agronegócio? Um parte da resposta está no desenvolvimento de sistemas de gestão territorial do agronegócio, capazes de incorporar soluções tecnológicas inovadoras e competitivas.

Os resultados, métodos e procedimentos desenvolvidos pela equipe da Embrapa Monitoramento por Satélite e o sistema de gestão territorial do agronegócio apresentado a seguir não pretendem ser um modelo para outras regiões de São Paulo e do Brasil, mas apenas um exemplo. Um exemplo a ser examinado, criticado, aperfeiçoado e adotado, naquilo que demonstrar seu interesse e validade para o agronegócio.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *