GESTÃO E MONITORAMENTO TERRITORIAL DA AGROENERGIA NO BRASIL

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

 

 

 

1 – Para onde vai a agricultura energética no Brasil?

 

A dimensão territorial do pais, a diversidade de situações agroecológicas existentes, a complexidade dos sistemas sócio-econômicos e a dinâmica dos processos de uso e ocupação das terras produzem situações evolutivas que impedem qualquer generalização simplista. A evolução da infra-estrutura, principalmente da logística de transporte, a mobilidade dos agentes econômicos, bem como das políticas públicas e privadas na área econômica e ambiental, podem acelerar ou frear determinados processos de ocupação e uso territoriais.

Para detectar, qualificar, cartografar e monitorar essas realidades e processos dinâmicos da agricultura brasileira, sistemas baseados no monitoramento por satélites e em geotecnologias, vêm sendo desenvolvidos e aplicados, há duas décadas, em diversas escalas: nacional, regional e local, pela Embrapa Monitoramento por Satélite. Dentre esses sistemas operacionais estão o monitoramento orbital das queimadas agrícolas, o acompanhamento da dinâmica da pequena agricultura na Amazônia, os estudos sobre a expansão da soja no Nordeste e na Amazônia, bem como o sistema de gestão territorial da faixa de fronteira para a defesa agropecuária com ênfase na febre aftosa.

As demandas das políticas públicas e privadas suscitaram novos projetos e técnicas de monitoramento da agroenergia: identificação e localização atual e potencial das culturas agroenergéticas, simulação dos impactos locais e regionais de novos investimentos em agroenergia, adequabilidade do uso das terras, zoneamentos de aptidão de uso das terras para culturas energéticas anuais, plurianuais e perenes, otimização da localização espacial de usinas de etanol e de biodiesel, sistemas de gestão territorial municipal para apoiar prefeituras na negociação da implantação de projetos dessa natureza em seus territórios etc.

Grupos privados e governamentais têm solicitado avaliações dos impactos sócio-econômicos e ambientais da agroenergia dentro de cenários evolutivos em bases territoriais para fundamentar decisões. Os sistemas de gestão e monitoramento territorial do uso das terras agrícolas desenvolvidos, implantados e operados pela Embrapa Monitoramento por Satélite fornecem indicações de para onde vai a agricultura energética do Brasil: deslocamentos e expansões territoriais, adoção de novas tecnologias, novas formas de organização na áreas de produção, impactos ambientais negativos e positivos.

Este trabalho apresenta alguns desses sistemas, seus resultados e discute a relevância da gestão territorial para detectar precocemente problemas ambientais e sociais, minimizar aspectos negativos das dinâmicas de uso das terras, orientando sinergias e propondo alternativas para favorecer ganhos e valorizar impactos positivos em diversas escalas, nem sempre visualizadas pelos agentes econômicos em suas lógicas particulares.

2 – As dinâmicas territoriais da agricultura brasileira

2.1 – O monitoramento das queimadas agrícolas

Há cerca de 15 anos, a Embrapa Monitoramento por Satélite estruturou um sistema de detecção, identificação, quantificação, qualificação e mapeamento das queimadas agrícolas para todo o território nacional com base nos dados orbitais do sistema NOAA/AVHRR. O sistema disponibiliza na Internet dados semanais, mensais e anuais, numéricos e cartográficos, de todos estados da Federação.

Eles indicam claramente uma progressão global, no sentido noroeste, das queimadas agrícolas em todo território nacional, entre 2000 e 2006. Esse deslocamento é ainda mais evidente nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. Existe uma dinâmica espacial diferenciada no uso do fogo na agricultura brasileira: aumento das queimadas em direção às regiões mais centrais da Amazônia e do Meio Norte e uma redução das queimadas no oeste baiano, em Goiás, nas regiões sul e centrais do Mato Grosso e em diversas áreas do Sudeste. Essa redução no uso do fogo esta claramente associada à progressão e consolidação das lavouras de grãos, principalmente soja e algodão. Mas, existem evidentes exceções espaciais em São Paulo e no Triângulo Mineiro.

Nessas regiões havia ocorrido um decréscimo no uso do fogo, entre 1990 e 2000, devido à progressiva implantação da colheita da cana crua, à intensificação da agricultura e às novas tecnologias de manejo de pastagens. Agora, com a expansão das áreas de cana de açúcar na região, o fenômeno das queimadas volta a ganhar força. Indícios do mesmo fenômeno começam a ser detectados no sul de Goiás. Isso representa um risco potencial de eventual perda de controle do fogo e de impactos negativos na flora e fauna em áreas de preservação permanente ou em remanescentes de vegetação natural. Mas, o monitoramento da expansão da cana de açúcar, em outras regiões do estado de São Paulo, entre 1988 e 2003, evidenciou a retirada das atividades agrícolas das áreas de preservação permanente e uma retomada na reconstituição da vegetação natural.

No que pese limites de precisão espacial, os dados do monitoramento orbital de queimadas são valiosos para a detecção precoce de mudanças no uso das terras, apresentam baixo custo, ampla difusão e disponibilidade dos resultados obtidos. Exemplos cartográficos e numéricos dessa dinâmica espacial da agricultura, inferida pelo monitoramento orbital das queimadas, podem ser obtidos no site da Embrapa Monitoramento por Satélite.

2.2. – O monitoramento da produção agrícola

Para identificar e monitorar as dinâmicas territoriais da agricultura brasileira, a Embrapa Monitoramento por Satélite estruturou, nos últimos anos, um Sistema de Gestão Territorial Estratégica para a Assessoria de Gestão Estratégica do Ministério da Agricultura e da Pecuária – MAPA. O sistema mantém atualizadas bases de dados geocodificadas, dos últimos 15 anos, sobre a produção vegetal incluindo informações como áreas cultivadas, áreas colhidas, rendimento e outras variáveis. Todos os dados foram normalizados e vêm sendo estudados em sua dinâmica espacial e temporal em escala de municípios, microregiões, mesoregiões e estados. Uma ênfase particular tem sido dada às culturas energéticas.

O sistema instalado no MAPA oferece quatro ferramentas: um ambiente geoweb ou de webgis, que permite a manipulação dos dados cartográficos do sistema, de forma remota, através da Internet e a realização de diversos zoneamentos e análises espaciais quantitativas; uma interface com o Google Earth, que permite navegar e projetar os dados cartográficos gerados pelo sistema nas imagens disponibilizadas; um acesso ao banco de dados numéricos do sistema e um espaço de recuperação de textos e de versões finais de documentos cartográficos editados, bem como de apresentações formatadas em slides (ppt).

Um estudo de cenários foi concluído sobre possíveis conflitos territoriais na extensão dos diversos cultivos energéticos. Soja, dendê, mamona e cana de açúcar foram particularmente estudadas em sua dinâmica espaço-temporal, produtiva e tecnológica nos últimos 15 anos. Em diversas microregiões brasileiras, a expansão simultânea das superfícies plantadas de diversos cultivos energéticos é possível e existe disponibilidade de área para atender o fornecimento de matéria prima para as várias usinas e distilarias cuja instalação encontra-se em curso ou programada, principalmente nas regiões Sudeste e Centro-Oeste.

Os estudos realizados no âmbito desse projeto indicam, de fato, um único vetor dinâmico territorial no uso e ocupação das terras: a substituição de usos agrícolas, sem expansão significativa de superfícies agrícolas sobre áreas de vegetação natural. Esse vetor tem duas componentes. Na primeira ocorre expansão de área com cultivos energéticos sobre usos não energéticos, como áreas de pastagem, cereais ou algodão. Na segunda componente, observa-se o recuo de determinadas culturas energéticas frente a outras alternativas, como a produção de etanol versus óleo vegetal.

Nesse estudo cartográfico e numérico foram identificadas regiões específicas em que a expansão de um determinado cultivo energético implica, quase que obrigatoriamente na redução de outro. Isso vem ocorrendo e deve ocorrer ainda mais nas regiões nordeste e sudoeste de S. Paulo, no Triângulo Mineiro e no sul de Goiás, onde a expansão da cana de açúcar vem ocupando as áreas de pastos, grãos e soja em particular. Esse cenário foi particularmente estudado numa região de 52.000 km2 situada na região nordeste do Estado de S. Paulo.

2.3 – O monitoramento da dinâmica espaço-temporal do uso das terras

Diversos sistemas de gestão territorial do agronegócio e de monitoramento do uso das terras vêm sendo desenvolvidos pela Embrapa Monitoramento por Satélite sob demanda de instituições financeiras, de organizações de produtores e de cadeias e segmentos do agronegócio. Um exemplo desses aplicativos foi um trabalho multi-institucional, particularmente voltado para a dinâmica da cana de açúcar, na região nordeste do Estado de S. Paulo.

Essa região é um exemplo de desenvolvimento territorial do agronegócio brasileiro. Ela compreende 125 municípios que juntos ocupam 51.725 km2 e representam 20,83% do Estado de São Paulo. As lideranças do agronegócio regional buscam cada vez mais participar da formulação das políticas públicas territoriais e necessitam de informações atualizadas sobre a dinâmica espacial do uso e ocupação das terras. Para atender essas necessidades, a Embrapa Monitoramento por Satélite, em parceria com o projeto temático “Diagnóstico Ambiental da Agricultura no Estado de São Paulo: bases para um desenvolvimento rural sustentável – ECOAGRI”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP e com o apoio da Associação Brasileira do Agronegócio de Ribeirão Preto – ABAG-RP estruturou um sistema de gestão territorial do agronegócio para toda essa região.

O trabalho incluiu o mapeamento circunstanciado do uso e cobertura das terras agrícolas em 1988 e 2003, com base em imagens de vários satélites (Landsat, CBERS e SPOT). Esses dados foram incorporados num sistema de informações geográficas, junto com outros planos de informação: divisão municipal, hidrografia, relevo, bacias etc. Uma base dados agro-sócio-econômicos foi construída para cada tipo de cobertura vegetal mapeada na região, a partir de diversas fontes de informação e pesquisas de campo. Cada uma dessas variáveis agro-sócio-econômicas pode ser espacializada.

Nos últimos 15 anos, o território rural da região nordeste do Estado de São Paulo transformou-se devido à incorporação de novas tecnologias agrícolas e às muitas substituições de áreas entre as várias categorias e classes de uso e cobertura das terras. Esse fenômeno foi analisado em cada caso e com detalhe pelo sistema de gestão territorial estruturado, graças as interseções entre os dados geocodificados obtidos nos dois períodos, através de um sistema de informações geográficas. Foi possível detectar a dinâmica do uso e cobertura das terras na região como um todo e analisar esse fenômeno para cada um dos 125 municípios, de forma cartográfica e numérica. A simulação de cenários evolutivos no uso e cobertura das terras e os impactos decorrentes em função de possíveis políticas públicas agrícolas e ambientais começa a ser realizada pela ABAG – RP e existe a perspectiva de ampliação do sistema para o conjunto do Estado. Os mapas de uso e cobertura das terras, obtidos para os anos de 1988 e 2002/2003, encontram-se representados de forma sintética nas Figuras 1 e 2. Os mapas originais estão na escala 1:250 000 e dados completos podem ser obtidos em Criscuolo et al. 2006.

Figura 1: Mapa Sintético de Uso e Cobertura das Terras da Região Nordeste do Estado de São Paulo em 1988

 

 

 

Figura 2: Mapa sintético de Uso e Cobertura das Terras da Região Nordeste do Estado de São Paulo em 2002/2003

 

A Tabela 1 resume os dados quantitativos das áreas de cada categoria e classes mapeadas para os anos de 1988 e 2002/2003.

 

Tabela 1: Quantificação da cobertura das terras em 1988 e 2002/2003.

Na dinâmica temporal de uso e cobertura das terras destacou-se a expansão da cultura da cana-de-açúcar principalmente sobre pastagens e culturas anuais. A cana-de-açúcar contribuía com 1.085.668 ha (21%) das terras regionais em 1988 e passou a ocupar 2.293.301 (44%) em 2002/2003 estendendo-se no sentido norte-sul, limitada a leste pelos terrenos de maior declive e a oeste pela atividade consolidada de fruticultura (citricultura). Outro fato marcante foi a regressão das pastagens. Elas ocupavam 1.410.688 ha (27%) em 1988 e passaram para 798.956 ha (15%) em 2002/2003, concentrando-se em direção aos terrenos declivosos da Serra da Mantiqueira. As culturas anuais também regrediram, de 910.852 ha (18%) concentradas sobretudo na região norte, para 229.445 ha (4%), substituídas principalmente pela cana-de-açúcar e pela fruticultura.

As áreas de vegetação natural representam atualmente cerca de 17% do total da região nordeste do Estado de São Paulo. Nas áreas de vegetação natural registrou-se um acréscimo de 1.409 ha devido à expansão da classe de vegetação ripária, devidamente mapeadas. Os padrões espaciais dessa dinâmica apontam quais são as áreas mais prioritárias para recomposição na região. No outro extremo, as áreas antrópicas (cidades e infra-estrutura) aumentaram 32.302 ha, expandindo-se sobre áreas agrícolas, pastagens e de preservação permanente.

 

O aumento das áreas de vegetação natural, seringais e citricultura, a estabilidade dos reflorestamentos, o grande crescimento da cana de açúcar e os deslocamentos espaciais do uso e cobertura das terras para solos mais adequados apontam uma maior estabilidade das paisagens rurais, com uma drástica redução da mobilização dos solos através da aração, ao qual deve ser agregado ainda o aumento da prática do plantio direto. A redução da erosão e da compactação dos solos e a preservação dos aqüíferos estará sendo analisada no âmbito desta pesquisa e os dados incorporados ao sistema de gestão territorial.

Um documento circunstanciado foi publicado pela Embrapa Monitoramento por Satélite (Criscuolo et al, 2006) e está na Internet (www.cnpm.embrapa.br).

3 – Conclusões

Estudos de gestão territorial, baseados em geotecnologias e dados orbitais, vem permitindo avaliar e monitorar a expansão da agronergia no Brasil. Tratam-se de sistemas integrados de dados numéricos, cartográficos e iconográficos, desenvolvidos pela equipe da Embrapa Monitoramento por Satélite para atender demandas do setor público e privado. Valorizando ferramentas da tecnologia de informação, os sistemas estão sendo implantados em escalas que vão do nacional ao local. Os impactos ambientais detectados indicam aspectos positivos e negativos para a conservação dos ecossistemas. Dada a dinâmica e a complexidade da agricultura brasileira, a conjugação de diversos sistemas, baseados em vários indicadores, pode constituir-se num instrumento valioso para detecção precoce de mudanças no uso e ocupação das terras, além de oferecer uma efetiva operacionalidade baseada nas necessidades dos usuários, com baixo custo, ampla difusão, disponibilidade e transparência dos resultados obtidos.

 

 

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