ECOLOGIA OPERACIONAL: O PROJETO DO RIO DEMENE

(02/01/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os sistemas ecológicos e sócio-econômicos do Rio Demene, cuja bacia localiza-se na fronteira entre os Estados do Amazonas e Roraima, vêm sendo estudados pela ONG ECO-FORÇA – Pesquisa e Desenvolvimento (www.ecof.org.br), em colaboração com o Núcleo de Monitoramento Ambiental (www.nma.embrapa.br) da Embrapa e com a Agência Estado (www.agestado.com.br).
Situada no alto Rio Negro, a bacia do Rio Demene reveste-se de características ecológicas muito especiais. Primeiro porque trata-se de um rio trans-hemisférico. O Demene nasce no hemisfério Boreal – cerca de dois graus de latitude Norte, na fronteira da Venezuela – e deságua na margem esquerda do Rio Negro, nas proximidades de Barcelos, após receber vários afluentes importantes como o Cueiras e o Aracá. No seu trajeto rumo ao Sul, atravessa e drena sistemas ecológicos equatoriais extremamente variados e pouco conhecidos: campos de várzeas, lavrados, igapós e vários tipos de florestas tropicais úmidas.
A presença humana permanente é discreta e limitada: raros aldeamentos indígenas e menos de cinqüenta famílias ribeirinhas em todo seu curso. Mas suas águas são freqüentadas por barcos de pesca, sobretudo os que procuram peixes ornamentais, em sua maioria vindos da cidade de Barcelos. Alguns de seus igarapés têm sido prospectados por garimpeiros de forma esporádica, sem nenhum resultado. A FUNAI mantém um controle razoável do acesso ao seu alto curso, a partir da aldeia ianomami Ajurikaba. Os recursos faunísticos ainda são relativamente abundantes e preservados, mas a caça às tartarugas tem reduzido sensivelmente as populações destas espécies.
A sua bacia ilustra bem o potencial e os problemas das áreas ainda preservadas da Amazônia brasileira. Um maior conhecimento científico da região e a divulgação das informações geradas podem servir para garantir, não somente sua futura preservação, mas a de outras regiões, a partir dos exemplos positivos passíveis de generalização.
Ali, a natureza e o homem criaram um grande laboratório, que os pesquisadores e jornalistas das quatro expedições científicas, realizadas na área, buscaram descrever e compreender. A primeira expedição foi realizada entre Dezembro de 1990 a Janeiro de 1991; a segunda em Agosto de 1991; a terceira expedição em Janeiro de 1993. A última expedição aconteceu em 1995. As expedições utilizaram barcos, aviões e helicópteros e tiveram lugar em áreas diferentes da bacia. Elas foram uma contribuição para um melhor conhecimento dos problemas e das soluções possíveis para os desafios amazônicos.
Os três principais objetivos desse trabalho conjunto foram:
Caracterizar os sistemas ecológicos da bacia do Rio Demene e o impacto ambiental atual e potencial das atividades humanas na área.
Gerar material informativo para a opinião pública, em nível nacional e internacional, sobre os problemas das áreas preservadas da Amazônia brasileira, a partir do exemplo do Rio Demene.
Gerar material pedagógico e educativo sobre a região amazônica, a partir desse caso concreto de caracterização e monitoramento ambiental.

Difusão dos resultados

Através de imagens de satélite e de radar, obtidas pelo Núcleo de Monitoramento Ambiental da Embrapa, foi realizado um primeiro zoneamento agro-ecológico da área. Todas as informações foram armazenadas num sistema de cartografia digital. Os ecossistemas variam muito na região em função das chuvas.
O mapeamento dos ecossistemas, com base no uso de imagens do satélite Landsat, foi realizado tanto para os períodos de cheia como de vazante. Os dados obtidos durante as expedições e pelas imagens orbitais foram organizados em sistema de informações geográficas na Ecoforça.
Uma primeira reunião das imagens, fotos, textos científicos e reportagens sobre as expedições já foi colocada na Internet (www.nma.embrapa.br/projetos/demene). Grande parte dos dados sócio-econômicos também foram sistematizados e introduzidos nesse site eletrônico, em construção. Eles abrangem uma descrição exaustiva de todas as localidades da bacia do Demene, dos sistemas de produção agrícola e de suas principais características técnicas e sócio-econômicas.
Os resultados obtidos foram também objeto de várias publicações científicas e reportagens. Desde o início desta iniciativa delineou-se a idéia de que um livro eletrônico, com alta qualidade gráfica e de conteúdo, seria um instrumento fundamental para a divulgação dos resultados e para a sensibilização da opinião pública e das autoridades sobre a questão do zoneamento e da ordenação territorial na Amazônia.
O grupo trabalha atualmente na realização desse livro eletrônico sobre o Projeto do Rio Demene, mas depende ainda de patrocínios. Esse trabalho reunirá mais de 2.000 páginas de informação, estruturadas em hiper-texto e centenas de fotos, mapas e imagens, digitalizadas e trans-feridas para um CD multimídia, com a finalidade de facilitar a difusão desde inestimável acervo documental da maneira mais ampla possível.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Ecologia operacional: o projeto do Rio Demene. ECO21, Rio de Janeiro (RJ), v. 35, p. 30 – 31, 01 julho. 1998.

 

 

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