DOSSEL, ÚLTIMA FRONTEIRA DO OCEANO VERDE


(18/09/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Durante o crepúsculo, várias orquestras de pererecas, insetos, aves e seres inimagináveis entoaram suas sinfonias, vindas de diversas direções. A chegada de uma noite equatorial sem lua instaurou o silêncio. A quarenta metros de altura na floresta tropical úmida, era surpreendente ver estrelas cintilando sobre nossas cabeças e abaixo de nossos pés. As estrelas celestes têm muitos nomes. As que vagavam sob a copa das árvores eram pirilampos, uauás e vagalumes.

Suspensos entre dois céus, nós contemplávamos as suaves linhas onduladas do dossel da floresta como um oceano verde, vivo e imóvel, naufragando no vazio. Durante a noite, a queda de temperatura foi grande. Sentíamos frio. Uma bruma espessa começou a subir entre as árvores durante a madrugada. Tudo que estivera tão seco durante o dia, ficou úmido e molhado. Uma névoa branca recobriu as copas como um lençol. Um arquipélago formado por árvores isoladas ou grupos vegetais mais elevados era tudo o que restava da floresta submersa. Um forte odor de fungos emanava como um incenso desde os solos ricos em serrapilheira da floresta. O sol, dividido em flechas de luz e arcos-íris esféricos, emergiu e apagou lentamente o rastro da neblina. Misturado ao perfume das orquídeas, um turbilhão de odores saudava o novo dia e envolvia o altar do dossel.

O altar da floresta

A palavra dossel reveste-se de sacralidade. Etimologicamente, ela refere-se ao dorso, a uma armação de madeira ornamentada, forrada de tecidos, usada sobre altares, tronos e até mesmo leitos, com fins de proteção ou ostentação. Também é chamado de baldaquino, sobrecéu e pálio. Sua aplicação é muito adequada à parte superior das florestas, principalmente às tropicais.

Situado a dezenas de metros de altura, o dossel constitui um estrato vegetal de apenas alguns metros de espessura, onde se encontra 80% da folhagem das árvores. Nos últimos anos, frequentar e circular entre a copa de árvores situadas entre 30 e 40 metros de altura deixou de ser um privilégio de aves, insetos e macacos. Os pesquisadores exploram a fronteira biológica mais desconhecida das florestas tropicais, graças a uma série de novos instrumentos, às técnicas de arvorismo e à utilização de meios complementares como torres, pontes suspensas, gruas, estruturas móveis e flutuantes. Essa etapa é essencial para a compreensão do funcionamento da floresta como um todo.

Para a Ecologia, o dossel é um ambiente de transição entre a floresta e a atmosfera ensolarada. Por essa razão, cumpre um papel enorme no ciclo do carbono. As pesquisas científicas revelam: as copas capturam quase toda a energia solar incidente sobre a floresta (95%) e sua folhagem absorve diretamente cerca 30% das chuvas. Ele funciona como a boca de um poço de carbono.

Bilhões de toneladas de gás carbônico são capturadas da atmosfera pelas florestas em todo o mundo. Na Amazônia, as pesquisas apontam para uma captura da ordem de 30 toneladas de carbono por hectare/ano em áreas preservadas. Esse desempenho está ligado à manutenção do teor de umidade do solo, protegido da radiação solar e mantido a temperatura relativamente constante.

Um cerrado nas alturas

O microclima do dossel, ao contrário das partes inferiores da floresta tropical, tende para o árido. A temperatura é fortemente influenciada pela cor dominante, pelo grau de evapotranspiração da floresta ligado à estação, pela hora, pela incidência efetiva de energia solar (sombra das nuvens) e pela atividade da biomassa foliar. O dossel é um ambiente muito diferente da imagem comum das florestas tropicais, observadas a partir do solo. É pobre em nutrientes e água e rico em energia. Para a árvore é difícil levar toneladas de água e nutrientes desde as raízes, situadas sob a terra, até a altura das copas. Assim, o estresse hídrico e nutricional aumenta com a altura, enquanto as folhas diminuem de tamanho.

Lá no alto, dada a abundância de energia e das trocas gasosas, as folhas fixam mais carbono do que são capazes de transformar em proteínas. A produção de proteínas exige a presença de nitrogênio e fosfato, escassos no topo das árvores. Essa é uma das causas da semelhança entre o dossel e a vegetação do cerrado: folhas menores, rígidas, de cores muito variadas, por vezes avermelhadas, recobertas de pelos ou penugens, repletas de galhas. Sem ter o que fazer com o excesso de carbono, as folhas acumulam essas estruturas ou o transformam em defesa química, na forma de lignina, flavonóides e taninos. No dossel, as plantas sintetizam moléculas muito mais complexas do que nos solos ou à sombra. Parte dessas moléculas talvez contribua na proteção dos brotos contra a violência dos raios ultravioleta do sol. Aí está um campo novo, de amplo interesse para a farmacopéia e outras aplicações da bioquímica vegetal.

Concentração da biodiversidade

As florestas tropicais recobrem 6% dos continentes e reúnem mais de 50% da biodiversidade terrestre. Estima-se que 70 a 90% dessa biodiversidade estão no dossel, cuja estrutura complexa abriga diversos nichos ecológicos. Em galhos distantes do solo, as bromélias são capazes de armazenar até oito litros de água, graças à forma e à disposição de suas folhas. Essas “lagoas” suspensas abrigam anfíbios, larvas de insetos e fornecem água para os milhões de habitantes do dossel.

Os insetos representam de 95% das espécies do Planeta, excluídos os micro-organismos. Até hoje foram catalogadas cerca de 750.000 espécies de insetos. Os estudos entomológicos do dossel das florestas tropicais descobriram tantas espécies novas que empurraram as estimativas do total de espécies de insetos para nove milhões. Pelo menos. Avaliações análogas chegam apenas a um total de 16 mil espécies de aves e de 44 mil vertebrados em todo o Planeta. A presença de insetos é essencial para manutenção das florestas tropicais por sua participação em processos de polinização, transporte e predação de sementes, “poda” vegetal (herbivoria), simbiose com as árvores e decomposição da matéria orgânica, além de servirem de alimento a anfíbios, aves, mamíferos, répteis e mesmo peixes (como larvas aquáticas ou lá no pé das árvores).

Pesquisadores brasileiros demonstraram como a abundância e a riqueza de borboletas e besouros aumentam com a altura das árvores. As copas chegam a abrigar 90% dos insetos especializados em frutos e sementes (carpófilos) existentes em toda a floresta, sendo que 30% dessas espécies só ocorrem ali. Formigas fogem um pouco dessa regra, pois sua riqueza de espécies no dossel é menor. Mas em número de indivíduos elas ganham longe, com até 90% dos artrópodes presentes nas copas. As formigas dominantes chegam, inclusive, a estabelecer vínculos funcionais entre a copa das árvores e os solos.

Jardins suspensos

Uma das experiências estéticas mais impressionantes no dossel da Floresta Amazônica e, sobretudo, da Mata Atlântica, é visitar verdadeiros jardins suspensos sobre os galhos das maiores árvores, constituídos de bromélias, orquídeas, samambaias, begônias e até cactos e figueiras. Muita gente ao ver uma bromélia ou uma orquídea crescendo sobre uma árvore as chama de parasitas. Nada mais equivocado. As epífitas são plantas capazes de germinar a dezenas de metros do solo, de aderir a um tronco, de se alimentar, atingir grandes dimensões, florir, frutificar, germinar e se propagar longe do solo. Tudo isso sem parasitar quem lhes serve de apoio. E ainda beneficiam muitas espécies da flora e da fauna, cuja vida se passa inteiramente nas alturas. Em todo o mundo são cerca de 28.000 espécies de epífitas, algo como 10% de toda a flora superior. As florestas tropicais americanas reúnem em seus dosséis cerca de 15.000 espécies!

Por crescer em habitats periodicamente secos, as bromélias formam verdadeiros aquários de água limpa. Apesar do acúmulo de folhas mortas e outros detritos, a água nunca deteriora, graças à sua produção de enzimas, que atuam como leveduras sobre amidos e proteínas. Muitos insetos são vitimados por essa armadilha, tendo suas substâncias absorvidas pela planta sem que haja putrefação.

Em muitas epífitas, as folhas funcionam como órgão de absorção e não as raízes. Outras, como os cactos ou algumas orquídeas, armazenam água em seus caules suculentos. Outras ainda mantêm seu próprio armazém: acumulam grandes quantidades de matéria orgânica, resultado da queda de folhas ou do transporte efetuado pelas formigas, além de poeiras. Elas “criam” um verdadeiro solo vegetal sobre os maiores galhos das árvores e dele se alimentam, enquanto na face inferior desses ramos proliferam as samambaias.

Elevadores vegetais

Existem dois elevadores vegetais entre o dossel e o solo das florestas. O primeiro é o das lianas. Elas germinam na terra e sobem em busca da luz, usando as árvores para se desenvolver. As lianas ou cipós estão presentes em mais de 130 famílias de plantas a flores e sua maior diversidade tropical ocorre na parte norte da Amazônia. São vegetais muito competitivos e chegam a representar 14% da massa vegetal total. Lianas não se distribuem regularmente pela floresta, mas ocorrem de forma gregária. Elas tornam-se invasoras nas bordas, em clareiras, em áreas de relevo e em florestas alteradas, a ponto de impedir o crescimento das árvores. Contudo, dosséis invadidos por lianas são excelentes refúgios para aves, primatas e outros mamíferos, pela camuflagem visual que proporcionam. E, como bons refúgios, garantem também a comida: boa parte das lianas floresce e frutifica na estação seca, quando as árvores mal sustentam as próprias folhas e não oferecem alimento à fauna. Nesses banquetes, araçaris, anambés, marianinhas, araras, saíras, tiribas e muitas outras aves disputam criatividade evolutiva na combinação das cores de suas plumagens.

Os órgãos das lianas para se fixarem às árvores são muito variados (acúleos, gavinhas etc.). Recentemente descobriu-se que as células de suas extremidades são dotadas de sensibilidade ao movimento e à orientação! Isso lhes permite detectar eventuais suportes à distância e estimular o próprio crescimento nessa direção. Das escadas-de-jabuti às escadas-de-macaco, passando pelo timbó, cipós, lianas e trepadeiras optaram por economizar a construção de um tronco autoportante. Próximo do chão, seus caules lembram cordas e tecidos retorcidos. Até na germinação, as sementes de lianas não buscam a luz. Elas preferem a sombra. A ausência de luz indica a presença próxima de um futuro suporte para alcançar o dossel.

O segundo elevador vegetal só desce. É o inverso do das lianas. São as plantas hemiepífitas. Elas germinam e nascem nas copas, mas logo emitem uma raiz não ramificada em direção ao solo, com um crescimento muito rápido. Essas raízes claras descem verticalmente em profusão, feito chuva congelada. Ao atingir a terra, começam uma nova vida de plantas terrestres, dependuradas em galhos. Após viver num ambiente restrito em água e nutrientes nas copas, elas crescem e atingem dimensões comparáveis às maiores árvores, graças à água e aos nutrientes do solo. É comum ultrapassarem em altura a árvore que lhes serviu de suporte. Cerca de 30 famílias de plantas superiores possuem espécies hemiepífitas. As mais conhecidas são as figueiras-bravas, da família das moráceas, com cerca de 500 espécies nas florestas tropicais.

As raízes das hemiepífitas podem se fundir, se dividir e formar um envelope reticulado sobre o tronco que as suporta. Com o tempo, elas constituem um verdadeiro tronco radicular oco. E podem dar origem a múltiplos pilares radiculares que suportam um crescimento quase indefinido dos galhos, transformando a árvore original numa enorme colônia vegetal.

Planeta dos macacos

Em função dos solos e da topografia é grande a variabilidade dos dosséis na Mata Atlântica e na Amazônia. Os mais desenvolvidos, complexos e biodiversos estão em florestas estabelecidas sobre solos ricos, bem drenados, situados em locais protegidos de ventos fortes e inundações. As perturbações ligadas ao desmatamento e à fragmentação florestal, como os efeitos de borda, parecem afetar menos o dossel do que a biodiversidade próxima do solo.

Os jardins suspensos e a parte superior da copa das árvores florescem e produzem frutos e sementes voltados para o céu, praticamente invisíveis para quem caminha na penumbra do sub-bosque. Eles são a base de uma teia alimentar envolvendo insetos, répteis, anfíbios, pássaros, preguiças, roedores, felinos e aves de rapina – como gaviões e harpias – e primatas. O dossel nas florestas amazônica e atlântica é o verdadeiro planeta dos macacos. Das 180 espécies de primatas existentes no mundo, cerca de 80 ocorrem no Brasil, mais do que o dobro da diversidade da República Democrática do Congo, o segundo país do mundo em variedade de primatas. Famílias de macacos-barrigudos amontoam-se em galhos livres de epífitas e devoram revoadas de siriris com a mesma seriedade com que os uacaris examinam os troncos em busca de alimentos.

Há cerca de quatro milhões de anos, na África, uma linhagem de primatas desceu do dossel florestal, abandonou o habitat arbóreo, assumiu a postura ereta, liberou as mãos e conquistou novos ambientes, como as savanas. Ninguém contesta essa escolha de nossos ancestrais e o sucesso do Homo sapiens que ocupou quase todos os habitats do planeta. Os ganhos foram infinitos.

Hoje, poucos humanos têm o privilégio de retornar ao dossel da floresta tropical e compartilhar o habitat de saguis, monos-carvoeiros, micos, bugios e macacos-aranha. Passar uma noite entre os vertiginosos galhos e as perfumadas folhagens do dossel, ouvir a sinfonia de aves, pererecas e insetos ao entardecer e ser envolvido pelo manto das brumas da transpiração florestal é também uma ocasião para se dimensionar o que perdemos, há alguns milhões de anos, ao abandonar essas alturas para colocar os pés no chão.

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