DENSIDADE DE QUEIMADAS NOS BIOMAS DO BRASIL, DE 2000 A 2006

(11/02/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

Fernando Luís Garagorry

Célia Regina Grego

 

Introdução

A presença de queimadas, com diferentes graus de intensidade ao longo do ano, e distribuídas por quase todo o País, tem sido objeto frequente de discussão nos mais diversos meios de comunicação. Em particular, a literatura científica sobre o assunto é muito vasta. No entanto, há dois aspectos que chamam a atenção. Na parte temática, tem havido uma grande preocupação com a incidência de queimadas na Amazônia, frequentemente associada com desmatamento e expansão da fronteira agrícola, enquanto que outros biomas têm recebido muito menos atenção na matéria. Na parte técnica, tem havido uma notável presença das mais variadas ferramentas de sensoreamento remoto e geoprocessamento, o qual está absolutamente justificado pela natureza do assunto (imagens obtidas mediante satélites, registros georreferenciados, mapas elaborados para comunicar rapidamente os principais resultados, etc). Mas, dada a quantidade de registros acumulados, certamente existe um amplo espaço para complementar esses trabalhos mediante a utilização de técnicas estatísticas, particularmente com os seguintes objetivos: a) identificar e avaliar mudanças espaciaisao longo de vários anos (isto é, num sentido estrito, estudar a dinâmica das queimadas); e b) estudar o relacionamento entre queimadas e atividade agrícola. Em termos gerais, este enfoque vem sendo desenvolvido na Embrapa Monitoramento por Satélite, como parte de uma visão mais ampla de monitoramento do uso da terra, onde certamente entram outros componentes, tais como desmatamento e áreas degradadas. Neste trabalho, serão apresentados alguns resultados que decorrem da avaliação estatística das queimadas nos biomas.

Material e Métodos

Os dados originais de queimadas, que correspondem ao período de 2000 a 2006, foram obtidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE. As queimadas, ou focos de calor, foram registradas, principalmente, pelo satélite NOAA-12, que funcionou até Agosto de 2007. Trata-se de dados georreferenciados e com data, que foram alocados nas microrregiões da Divisão Territorial do Brasil, mantida pelo IBGE. No arquivo usado como base para a análise estatística das queimadas, os dados aparecem agrupados por quinzena. No entanto, neste artigo, só serão utilizados os totais anuais. Estes têm pequenas diferenças com os totais mencionados pelo INPE, possivelmente devido a diferenças no georreferenciamento, entre os registros dos satélites e o mapa das microrregiões. Não entanto, não se considera que essas diferenças alterem os resultados estatísticos.

Os biomas que aparecem no mapa produzido pelo IBGE foram aproximados com microrregiões. Isto já vem sendo utilizado há algum tempo, para facilitar o tratamento dos dados de produção agrícola com relação aos biomas (SIMON; GARAGORRY, 2005; CHAIB FILHO et al., 2007). Em termos simplificados, uma microrregião foi alocada inteira no bioma que tem maior área nela. Por exemplo, se os biomas A, B e C ocupam, respectivamente, 35%, 40% e 25% da área de uma microrregião, então ela foi alocada no bioma B. Não foi incluída a microrregião de Fernando de Noronha, onde não há registro de queimadas.Nas áreas dos biomas, obtidas mediante a soma das áreas das respectivas microrregiões, não aparecem as correspondentes à Lagoa dos Patos e à Lagoa Mirim.

Os dados de queimadas estão sendo analisados em termos de volume (número de queimadas) e de densidade (número de queimadas por km2), em diferentes níveis da Divisão Territorial do Brasil, além dos biomas. Neste trabalho serão apresentados alguns resultados relacionados com a densidade das queimadas nos biomas; em cada ano, ela é obtida pela divisão do total de queimadas no bioma pela respectiva área. A maior parte das técnicas usadas neste trabalho já foram utilizadas para avaliar a evolução de numerosos produtos agrícolas, ao longo dos anos (GARAGORRY; CHAIB FILHO, 2008).

Ao contrário do que se faz na avaliação por volume, onde o ponto de partida tem sido a determinação das distribuições percentuais, em cada ano, das queimadas nos biomas, como a densidade não é uma variável aditiva, foi utilizado um método de postos. De modo que, em cada ano, foi atribuído o posto um ao bioma com a mais alta densidade, e assim sucessivamente; dessa forma, foram obtidos sete ordenamentos. O coeficiente de concordância (KENDALL, 1975; SIEGEL, 1975) foi usado para obter uma avaliação conjunta dos ordenamentos, no sentido de ver se eles poderiam ser considerados como significativamente diferentes. Quando essa hipótese é rejeitada, Kendall admite que faz sentido determinar o ordenamento médio.

Além de se ter uma avaliação global sobre a proximidade dos ordenamentos, também foi utilizada uma distância para medir a mudança entre dois anos. Como se trata de seis biomas, o máximo afastamento entre dois ordenamentos, em termos da soma das diferenças absolutas, ocorre, por exemplo, no caso em que um deles é (1, 2, 3, 4, 5, 6) e o outro é (6, 5, 4, 3, 2, 1); nesse caso, a soma das diferenças absolutas é 18. Portanto, usou-se a distância entre um ordenamento para o ano s e outro para o ano t, que é dada pela seguinte fórmula:

a34

onde rsn e rtn representam, respectivamente, os postos recebidos pelo bioma n nos anos s e t. A multiplicação por 100 foi introduzida para: a) obter valores que variam entre zero, para dois ordenamentos idênticos, e 100, no caso de dois ordenamentos opostos; e b) facilitar que a distância seja interpretável diretamente, de modo aproximado, como uma porcentagem com respeito à máxima distância teoricamente possível a partir do ordenamento no ano inicial (isto é, no ano s, admitindo que s < t).

Resultados e Discussão

A Tabela 1 apresenta os números de microrregiões que vêm sendo utilizados para aproximar-se aos biomas, bem como as áreas correspondentes, obtidas mediante a soma das áreas das respectivas microrregiões.

Tabela 1. Número de microrregiões e área dos biomas

Bioma Microrregiões Área (km2)
Amazônia 73 4.187.258,495
Caatinga 120 844.724,103
Mata Atlântica 236 1.078.212,148
Pampa 15 171.546,305
Pantanal 3 164.359,706
Cerrado 110 2.055.897,704
Total 557 8.501.998,461

Na Tabela 2 aparecem as distribuições dos números de queimadas nos biomas, para os anos considerados. Na avaliação por volume da concentração e da dinâmica das queimadas, a técnica usual parte das distribuições percentuais em cada ano. Nesse caso, encontra-se, por exemplo, o seguinte: a) em todos os anos, a Amazônia, o Cerrado e a Caatinga, nessa ordem, ocuparam os três primeiros lugares (isto é, com as maiores contribuições percentuais), enquanto que o Pampa sempre ficou no último lugar; e b) em geral, a Mata Atlântica ficou no quarto lugar e o Pantanal no quinto, mas em 2002 trocaram-se essas posições.

Tabela 2. Número de queimadas nos biomas, de 2002 a 2006

Bioma 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006
Amazônia 46.323 66.825 113.303 90.164 116.381 121.865 66.417
Caatinga 8.943 19.157 25.438 32.603 27.618 23.435 12.289
Mata Atlântica 7.731 5.770 9.837 17.043 8.919 8.164 7.644
Pampa 222 149 320 138 247 263 145
Pantanal 2.363 6.905 11.270 2.367 5.260 8.135 1.540
Cerrado 35.935 46.754 74.184 68.569 74.173 63.742 29.255
Total 101.517 145.560 234.352 210.884 232.598 225.604 117.290

A avaliação por densidade permite obter outros resultados. Nesse sentido, a Tabela 3 apresenta as distribuições dos postos (ordenamentos) das densidades de queimadas nos biomas.

Tabela 3. Postos das densidades de queimadas nos biomas e postos médios

Bioma Posto Soma de Posto
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 postos médio
Amazônia 3 4 4 3 4 3 1 22 4
Caatinga 4 3 3 1 2 4 2 19 3
Mata Atlântica 5 5 5 4 5 5 5 34 5
Pampa 6 6 6 6 6 6 6 42 6
Pantanal 2 1 1 5 3 1 4 17 2
Cerrado 1 2 2 2 1 2 3 13 1

Segundo os postos que aparecem na Tabela 3, a Amazônia só ocupou o primeiro lugar em um ano (2006); nos outros esteve entre o terceiro e o quarto lugar. Por outro lado, o Pantanal ocupou o primeiro lugar em três anos, e o Cerrado oscilou nos dois primeiros lugares de 2000 a 2005. Ao longo do período estudado houve diferentes variações; no entanto, o coeficiente de concordância de Kendall, com o valor de W = 0,72, é significativo ao nível de 0,01. Ou seja, existe uma concordância significativa entre os ordenamentos, e eles não devem ser atribuídos a atividades aleatórias e independentes de um ano para outro. Nesse caso, segundo Kendall, faz sentido determinar um ordenamento médio, atribuindo postos às somas dos postos em cada bioma, mas dando o posto um à menor soma, dois à segunda, e assim sucessivamente. Desse modo, em termos do ordenamento médio para o conjunto do período, o Cerrado resultou em primeiro lugar, seguido pelo Pantanal e a Caatinga. Isto é, a consideração das densidades levou a resultados bem diferentes dos que são apresentados correntemente, com base na avaliação por volume.

Mesmo admitindo que o resultado anterior indica uma concordância significativa no conjunto dos ordenamentos, a medida da distância entre os ordenamentos correspondentes a dois anos diferentes permite uma avaliação mais detalhada da dinâmica das queimadas nos biomas.Desde logo, como os ordenamentos nos anos de 2001 e 2002 são iguais, a distância entre eles é zero. Há apenas uma inversão de posições nos ordenamentos de 2000 e 2005 (entre o Pantanal e o Cerrado), e a distância entre eles é de 11,11. Mas há vários casos com distância de 44,44 (e.g., entre 2000 e 2006), o qual indica alterações substanciais entre os correspondentes ordenamentos. Em termos gerais, as variações medidas pelas distâncias indicam mudanças importantes nos ordenamentos em anos sucessivos, o que, por sua vez, mostra a dificuldade para se estabelecer uma tendência definida na dinâmica da densidade das queimadas nos biomas.

 

Conclusões

A utilização do conceito de densidade vem sendo cada vez mais frequente para avaliar a atividade agrícola. Normalmente, ele produz resultados bem diferentes dos que são obtidos mediante a consideração do volume, e isso também aconteceu na avaliação das queimadas nos biomas. O método utilizado, baseado na aproximação dos biomas mediante microrregiões, pode ser objeto de diversas formas de refinamento, tais como: a) aproximação mediante municípios (pelo menos para períodos curtos, onde não interfiram as alterações municipais); e b) estimativa direta com técnicas de geoprocessamento. No entanto, não se pensa que esses refinamentos levem a uma mudança substancial nos resultados apresentados, no que se refere aos postos das densidades de queimadas nos biomas. No que se refere a trabalhos futuros, existem duas linhas, muito relacionadas, que merecem maior atenção: a) correlação entre queimadas e atividade agrícola; e b) explicação detalhada das razões, particularmente econômicas,que têm levado à intensificação das queimadas em determinadas regiões, e em certos anos.

Publicado em:

CPAP – 5º Simpósio sobre Recursos Naturais e Socieconômicos do Pantanal.Densidade de Queimadas nos Biomas do Brasil, de 2000 a 2006. 2010.

 

 

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