CHEGA DE COMER SOJA

chega.comer.soja

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

 

 

O Zé é um brasileiro informado e não acredita na importância da soja para o Brasil. Para ele, como para muita gente, a soja é uma monocultura de exportação e sua expansão é até uma ameaça ambiental no Brasil. Para ele, no fundo, até seria bom para a saúde do povo, comer um pouco mais de soja na forma de queijo, leite ou proteína texturizada. Mas isso é quase uma curiosidade de minorias vegetarianas e descendentes de asiáticos. Em matéria de soja, o Zé anda mal informado. Basta examinar o seu dia a dia.

O Zé acorda e logo escova os dentes. Toda pasta de dente tem soja nos seus componentes. Basta ler a fórmula com atenção. A seguir, ele toma seu café matinal. No copo de leite ou no café com leite, tem soja. O Zé não sabe: a ração ou o concentrado para complementar a alimentação das vacas tem uma grande porcentagem de soja. Pior: o Zé não toma café com leite. Ele bebe um bom achocolatado. No chocolate, em pó ou um barra, tem soja. Pode ler a composição no rótulo. Sem a soja, não haveria a mesma produção de leite, de manteiga, de coalhadas, iogurtes e outros derivados, como o queijo. E o Zé adora um sanduíche de queijo com presunto. Nesse caso, como nos cheeseburguers e outros sanduíches, a soja entra indiretamente em dose dupla, via queijo e via presunto, salame, mortadela, salchichas, fiambres e outros embutidos. A razão é simples: a soja contribui de forma decisiva na fração protéica da alimentação dos suínos. Não fosse a soja, os frigoríficos processariam muito menos carne de porco e tantos derivados. Ao deixar a mesa matinal, o Zé não imagina quanta soja já comeu.

Ao meio dia, o Zé busca um almoço light: uma saladinha com um filé de peito de frango. É mais soja. A salada foi temperada com óleo de soja, também usado na fritura do filé. A soja contribui pesado na ração alimentar das aves. Ela permite ao Brasil produzir muitas galinhas e muitos ovos, a um preço baixo, extremamente competitivo. Graças a isso, o brasileiro come cada vez mais carne de frango, comprado pronto e assado na padaria da esquina. E o salário do trabalhador compra mais e melhores alimentos (carnes, derivados de leite etc.), mesmo quando sua renda não aumentou. E via ovos, a soja entra em bolachas, macarrão, bolos, em muitos tipos de broas e pães. E também no quindim, que o Zé comeu de sobremesa, já que ninguém é de ferro.

Na volta para casa, o Zé pára numa loja de produtos alternativos e naturais. Ele compra para sua esposa um complemento alimentar rico em isoflavonóides, cujas virtudes terapêuticas, principalmente para as mulheres, parecem esbarrar no milagre. Para a filha vegetariana, ele leva hambúrgueres, bolinhos e nuguets industrializados, feitos de proteína de soja texturizada, além de tofú, leite e grãos torrados de soja, com sabores variados, salgadinhos para uma festinha do próximo fim de semana. Além de molho de soja para ajudar a temperar um salmão e um tambaqui, que serão servidos na festa. São peixes criados em cativeiro e em cuja ração alimentar também entra a soja.

Diante da sacola, cheia de produtos naturais, ele reaviva sua crítica a essa planta exótica, voltada para a exportação. Mesmo se ajuda a economia, a alimentação e a saúde dos brasileiros, não é uma planta brasileira. Zé, isso não é privilégio da soja. Na pauta das exportações brasileiras, responsáveis pelos grandes excedentes comerciais do país, destacam-se vegetais e animais de uma biodiversidade exótica. A base de nossa agricultura e de nossa alimentação é feita de espécies exóticas. Todas foram introduzidos por portugueses ou pelo comércio que estabeleceram ou lhes sucedeu, verdadeiras rotas de aproximação entre povos e culturas: açúcar, álcool, suco de laranja, café, carne bovina, carne de frango, carne suína e …. a soja. Boa noite, Zé.

 

 

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