BIN LADEN E O CANIVETE

 

Evaristo Eduardo de Miranda(1/3/2017)

Orestes Quércia, ex-prefeito, ex-deputado, ex-governador e ex-senador, falecido em 2010, numa reflexão transcendental, me disse um dia em Fernando de Noronha (sic!), que os homens podiam ser divididos em dois tipos: os que usam e os que não usam canivete.

Na categoria dos que usam canivete está a maioria dos agricultores, agrônomos, vaqueiros, fazendeiros e técnicos agrícolas. Por que o canivete é tão fundamental para esses profissionais e para outros? A resposta me foi dada pelo agrônomo José Galvão, grande especialista da cultura do café, lá em Mococa (SP), nos longínquos idos de 1970: o canivete é fundamental para chupar uma laranjinha no pé. E para picar o fumo no preparo de um cigarrinho de palha. Voilà! Evidentemente, os canivetes também servem para muitas outras aplicações neste mundo de Deus. Quem não conhece a história da jovem senhora que acumulava canivetes suíços com vistas ao seu futuro.

Tudo ia bem entre os usuários de canivetes até o fatídico 11 de setembro de 2001. Orquestrado pelo terrorista Bin Laden, o ataque ao Pentágono e às Torres Gêmeas teve um impacto enorme sobre os usuários de canivetes e sobre as indústrias que os produzem, até na Suíça. Os EUA implantaram medidas de segurança extremamente rígidas. Foram seguidos pela Europa e depois por todo o mundo, incluindo o Brasil. Resultado: impossível pegar um avião com um canivete na cinta, na mochila ou no bolso.

As urnas transparentes, colocadas logo após os sistemas de detecção de metais dos aeroportos, encheram- -se de canivetes, de tamanhos e marcas diferentes: Corneta, Laguiole, Victorinox, Leatherman. Canivetes de alto valor afetivo, que durante anos andaram lado a lado de seus usuários, terminaram lançados nessas urnas. O ex–proprietário abalado mal podia se despedir, enquanto os alto-falantes anunciavam a chamada para embarque no seu voo. O destino dessas urnas e de seu precioso e diversificado conteúdo, que inclui perigosas tesourinhas e assustadores cortadores de unha, é um dos grandes mistérios da humanidade. Deveria ser objeto do jornalismo investigativo.

Há tempos, vivi um drama canivético. Quase uma tragédia. Viajava para Brasília. Ao passar a mochila pelo detector de metais no Aeroporto de Viracopos: problema. O funcionário avisou que havia um canivete dentro da minha mochila. Não era possível. Era. Ao abrir a mochila, para minha surpresa, descobri que, por alguma razão, havia esquecido essa relevante ‘‘arma’’ num dos bolsos. Os funcionários da segurança me convidaram a lançar o canivete na urna. Com ele, eu não embarcaria. Decidi retornar. Depois de refletir, tomei a decisão de esconder meu canivete em algum lugar do aeroporto, para tentar recuperá-lo em meu retorno. Onde? Câmeras por toda a parte. Alguém poderia monitorar minha deambulação. Havia gente se deslocando em toda a área. Finalmente, encontrei um esconderijo junto a um extintor de incêndio, um local aparentemente fora do alcance da videovigilância local, moderna, tecnológica e implacável. Coloquei o canivete atrás do extintor. Dei uma benção. Rezei para que nenhum incêndio ocorresse no local. Que ninguém tivesse de recorrer ao extintor. Torci também para que ninguém viesse fazer uma faxina nos nichos dos extintores. Fiz promessa para São Longuinho, santo protetor dos usuários de lanças, facas, peixeiras, facões, terçados e canivetes. E embarquei.

Minhas reuniões em Brasília foram um tormento. O tempo todo imaginando algum felizardo encontrando meu canivete de estimação. Voei de volta. Desembarquei angustiado, tarde da noite, em Viracopos. O aeroporto estava vazio. Rapidamente caminhei para o locus do extintor. Passei a mão por trás do cilindro vermelho. Apalpei e logo encontrei meu canivete. Aleluia! Para minha surpresa, ele estava um pouco molhado. Não me indaguei muito sobre a origem daquela umidade. Tenho certeza. Foram lágrimas.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Bin Laden e o canivete. Revista Agro DBO, São Paulo – SP, p. 26 – 26, 01 mar. 2017.