COMO VAI A NOSSA EMBRAPA

como vai nossa embrapa (1)

(01/07/2013)

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Ao visitar uma cooperativa, um sindicato ou ao chegar a um encontro com a mídia e em tantos outros eventos, ouço com frequência a mesma indagação: “- Como vai a nossa Embrapa?” Essa pergunta sempre me traz grande satisfação. A Embrapa pertence à sociedade brasileira, que dela tem muito orgulho. Pois essa empresa brasileira de pesquisa agropecuária completa 40 anos, neste mês de abril do ano da graça de 2013.

A Embrapa é reconhecida no Brasil e no exterior por sua contribuição, através da ciência e da tecnologia, ao desenvolvimento da agricultura brasileira. Os benefícios para os cidadãos urbanos foram enormes. Nesses 40 anos, a safra de grãos no Brasil quadriplicou e o preço da cesta básica foi reduzido pela metade. A agricultura brasileira produz por ano o suficiente para alimentar mais de um bilhão de pessoas. E gera excedentes que, exportados, ajudam a manter positiva a balança comercial do país.

Acompanho a Embrapa desde sua criação e sou pesquisador há 33 anos. Participei da chefia e da implantação de três centros nacionais de pesquisa, coordenei vários de seus programas científicos nacionais e testemunhei o quanto a Empresa cresceu e mudou, desde o final dos anos 1970. Hoje, ela atua por meio de 47 Unidades de Pesquisa e de Serviços e de 14 Unidades Centrais Administrativas. Seu grande investimento inicial foi o treinamento de seus pesquisadores, no Brasil e no exterior. Hoje, a Embrapa conta com cerca de 9.800 empregados, sendo 2.427 pesquisadores – 375 com mestrado, 1.789 com doutorado e 242 com pós-doutorado.

O último balanço social da Embrapa, em 2011, mostrou um lucro social de R$ 17,8 bilhões. Ele foi apurado com base nos impactos de uma amostra de 114 tecnologias e 163 cultivares desenvolvidas pela Embrapa e seus parceiros – em especial as organizações estaduais de pesquisa – e transferidas para a sociedade. Cada real aplicado na Embrapa pela sociedade retorna multiplicado por 8,6!

como vai nossa embrapa (2)

Mas nem tudo é céu de brigadeiro na Empresa. Algumas turbulências ocorreram no percurso, entre as quais se destacam a perda de participação no mercado de cultivares e sementes ou iniciativas gerenciais desastradas. No ano passado, apenas um mês após sua recondução ao cargo pela Presidente Dilma, o antecessor do atual presidente da Embrapa foi defenestrado. Aparentemente, ele fez da internacionalização da empresa um projeto particular.

A nova diretoria da Embrapa está dando o encaminhamento correto para a Embrapa Internacional. A Empresa desenvolve 49 projetos de cooperação com a América Latina e Caribe, contemplando 18 países, e 51 projetos de cooperação com 9 países da África, além de cooperação científica por meio de laboratórios no exterior, os Labex, presentes na América do Norte, na Europa e na Ásia. O presidente da Embrapa, Maurício Lopes, e o diretor geral da FAO-ONU, José Graziano, assinaram, em Roma, um acordo que expandirá as iniciativas de Cooperação Sul-Sul e agilizará o intercâmbio entre as duas instituições, em especial as relacionadas à segurança alimentar.

A Empresa foi criada para resolver problemas da agricultura brasileira que o academicismo universitário dos anos 1970 não resolvia. O fulcro e a razão de ser da Embrapa é a pesquisa agropecuária. Continuará sendo. Como em outras instituições, existem pesquisadores vivendo numa zona de conforto. Sem maiores ambições, publicam artigos em revistas de baixa relevância, desvinculados dos problemas reais da agricultura e veem com muita antipatia a aproximação da Embrapa com o setor privado.

Esse comportamento ofertista – em que o pesquisador estuda o que bem lhe apraz e depois pergunta se alguém se interessa – penetrou na Empresa e ganhou algum espaço em unidades de pesquisa. O pesquisador investe em temas de seu exclusivo interesse pessoal, pereniza trabalhos com seu orientador de doutorado no exterior, desvinculados da realidade rural, como se estivesse num instituto universitário. Esse gasto de dinheiro público em uma empresa de pesquisa aplicada não resistiria a um bom sistema de avaliação. Nem na Academia esse comportamento é mais aceitável, como bem destacou em entrevista à VEJA o Dr. Glaucius Oliva, presidente do CNPq.

Felizmente, a perspectiva é de revisão desses desvios: durante o Ano 40, a Embrapa promove fóruns tendo como pauta a definição de uma visão de futuro para a agricultura e para os rumos da Empresa, sobretudo em sua programação de pesquisa e desenvolvimento. É tempo. Na Sede, em Brasília, na solenidade oficial do 40º Aniversário foi lançado o SistemaAgropensa (sistema de inteligência estratégica da Embrapa) e a Campanha de Reposicionamento das Cultivares da Embrapa (campanha nacional de informação sobre as cultivares da Embrapa).

A agricultura lida com sistemas ecológicos complexos e dinâmicos. A intensificação das viagens internacionais e dos intercâmbios comerciais, associados a vetores climáticos, trazem surpresas. Os produtores rurais do cerrado foram surpreendidos com novas lagartas do gênero Helicoverpa. A infestação causou prejuízos econômicos em milho, algodão, soja, feijão, feijão-caupi, milheto e sorgo. Há também relatos de ataques em tomate, pimentão, café e citros, dentre outras plantas. As cifras das perdas e gastos ultrapassam os bilhões de reais e atingem pequenos e grandes produtores. Convocados a participar na solução desse desafio, com instituições parceiras, os pesquisadores da Embrapa definiram ações emergenciais para restabelecer o equilíbrio dos sistemas agrícolas das regiões afetadas. As medidas preconizam a adoção do Manejo Integrado de Pragas (MIP) e do Manejo de Resistência de Plantas Transgênicas que expressam toxinas Bt. entre outras. No âmbito do grupo multidisciplinar do “Consórcio Manejo Helicoverpa”, atuam profissionais de empresas de pesquisa, universidades, indústrias de produtos químicos e biológicos, máquinas e implementos agrícolas, cooperativas agrícolas e fundações de pesquisa. O consórcio terá como objetivo disponibilizar informações sobre esse complexo de pragas, mais especificamente sobre a espécie Helicoverpa armigera, além de capacitar profissionais sobre o MIP e o manejo de plantas geneticamente modificadas.

As festividades dos 40 anos da Embrapa suscitaram artigos, discursos, homenagens e elogios. Contudo, para mim, o melhor deles será sempre escutado no cotidiano, quando um empresário, um pecuarista, uma líder de movimento social, uma jornalista ou agricultores me perguntarem: “- Como vai a nossa Embrapa?”

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . Como vai a nossa Embrapa. Eco21, v. 200, p. 48-49, 2013.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *