A INVENÇÃO DO BRASIL

a invencao do brasil (4)

(02/05/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda
Não, a banana não é daqui. Nem o coco. Nem a laranja. Para o bem ou para o mal, nosso país tropical foi um tanto transformado pelas mãos dos povoadores e dos povos primitivos
A história oficial nos fez acreditar que os portugueses, ao desembarcar no Brasil, encontraram um Éden terrestre, pleno de florestas intocadas, fauna abundante, praias paradisíacas. Um lugar onde bons selvagens reinariam em plena sintonia com a natureza. Será mesmo? Hoje, mais de 500 anos depois, a releitura científica das paisagens brasileiras derruba essa visão mítica. A exuberância da mata Atlântica certamente deslumbrou os portugueses e, depois deles, muitos outros europeus, viajantes acostumados às florestas temperadas abertas e à vegetação de baixo porte do Mediterrâneo. Porém existem indícios de que os ecossistemas já se encontravam muito alterados em 1500. A fauna buscava um novo equilíbrio depois de uma extinção maciça e sofria os impactos da caça, de queimadas e das alterações recentes em seu hábitat. E os primitivos povoadores de bons selvagens talvez tivessem só o aspecto, se tanto, pois há mais de 10 mil anos exerciam pressões sobre a natureza e disputavam entre si seus recursos, em guerras tão sangrentas quanto as do Velho Mundo, com vencedores e subjugados, domínios e dominados. 

Cerca de 2,5 mil anos antes da chegada dos portugueses, a maioria das terras do Brasil ainda não estava nas mãos dos indígenas aqui encontrados no Descobrimento. Seus ocupantes eram outros grupos humanos. E os antecessores deles eram outros ainda, numa cadeia de sucessivas ocupações que nos faz supor muitos conflitos. Em Taima-Taima, na Venezuela, há indícios da presença humana há cerca de 15 mil anos. No Brasil, o sítio de Pedra Pintada, no Pará, indica uma ocupação de 11,3 mil anos atrás. A Amazônia e a mata Atlântica só poderiam ser consideradas intactas até antes da chegada dessas populações humanas. Com elas, o espaço natural do Brasil passou a ser uma natureza humanizada, um território social de pelo menos 10 mil anos.

É um paradoxo: a região aparentemente mais preservada do Brasil é aquela onde o homem vive há mais tempo e de forma permanente. Há mais de 400 gerações, e para alguns autores há mais de 2 mil, diversos grupos humanos ocupam, disputam, exploram e transformam os territórios amazônicos. Os caçadores-coletores nômades se espalharam na Amazônia desde o fim do Pleistoceno, estabelecendo sua soberania sem contestação ou conflitos. Não havia nenhum povo para subjugar. Apesar da aparente diluição dos humanos em meio às florestas, no auge dessa fase, estima-se que existiam mais de 300 mil caçadores-coletores na Amazônia.

Ao longo dos milênios, esses povos transformaram as florestas e, de certa forma, co-evoluíram. Seu conhecimento sobre os usos das plantas os levou a favorecer algumas. Frutos coletados eram enterrados, escondidos e disseminados. A distribuição e a densidade dos castanhais no Pará parece ter origem no cuidadoso e permanente trabalho de seleção e disseminação dessa árvore. Não foi um capricho da natureza que decidiu criar castanhais nesse estado.
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Na chegada dos europeus, os territórios amazônicos já haviam sido conquistados pelos movimentos de expansão dos povos tupis-guaranis, aruaques e caribes, principalmente. No ano 1000, a Amazônia atingira uma das maiores densidades demográficas da época, com uma população que superava o milhão de habitantes, com ampla diversidade étnica e cultural. A antropofagia marcava as endêmicas guerras inter-étnicas. A maioria dos povos antecessores dos atuais indígenas desapareceu diante dessa expansão, deixando muitos vestígios. Os sobreviventes foram absorvidos, adotaram a língua e a cultura das populações dominantes – que nunca constituíram um estado-nação, como ocorreu nos Andes. Hoje, os índios se situam em territórios distantes dessas áreas de grande população e são muito diferentes de seus antepassados de apenas 500 anos atrás.

Com a presença dos humanos, a paisagem brasileira foi apresentada a um novo parceiro: o fogo. Seu uso sistemático para caçar favoreceu a extensão ou a manutenção dos cerrados em detrimento de áreas florestais. O mecanismo é simples. O fogo ateado pelos caçadores para acuar e dirigir a caça até determinados locais de captura se propaga e queima a borda da floresta. Árvores morrem, os capins progridem e proliferam no espaço aberto. Nos anos seguintes, o processo segue. Mais árvores morrem. Blocos de florestas acabam isolados no meio do cerrado e vão sumindo.

Um pequeno grupo humano, graças ao fogo, é capaz de influenciar uma área enorme. O nomadismo dos caçadores-coletores espalhou esse fenômeno pelo Brasil. A ampliação dos cerrados em detrimento das florestas ainda segue seu curso em vários locais da Amazônia, promovido por culturas ameríndias bem posteriores, como os índios tiryiós ou parecis – a palavra caiapó, por exemplo, significa “que traz o fogo na mão” e designa uma tribo de índios incendiários.

Essas áreas abertas foram escolhidas pelos povoadores europeus como locais privilegiados para a implantação de vilas e povoados. Seu aspecto permanece gravado no nome de regiões e municípios, como Campos do Jordão, São Bernardo do Campo, Campos de Piratininga (onde Nóbrega fundou São Paulo), São José dos Campos, Campinas, Campina Grande e outras. E ainda os chamados campos limpos, como Campo Limpo Paulista, Campo Limpo de Itararé, Capão Bonito e Capão Redondo. Mais tarde, o uso do fogo foi adotado por pecuaristas do Brasil como uma técnica eficiente para controlar carrapatos, limpar pastos, provocar uma rebrota dos capins antes da chegada das chuvas. Persiste até hoje.
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O fogo foi levado ao coração das florestas amazônica e atlântica pelos índios e se tornou um eficiente instrumento da agricultura. No fim da estação seca, eles derrubam a vegetação de uma faixa de floresta. Após a secagem natural, ateiam fogo. As cinzas fertilizam os solos. A técnica tupi da coivara permitia ciclos de culturas anuais, que se diversificaram ao longo dos séculos: milho, amendoim, abóboras, carás, cabaças, mandioca, batata-doce. Nenhum instrumento agrícola era requerido. O trabalho era totalmente manual.

Em áreas abandonadas, a regeneração seguia o curso natural: de cultura abandonada para capoeira para floresta secundária para mata. É assim até hoje. Mas o processo final de regeneração florestal é muito lento. Com o aumento das populações indígenas e a evolução das técnicas agrícolas, as áreas cultivadas se tornaram menos errantes. Na toponímia tupi, retomada de relatos do século 16, principalmente dos jesuítas, há raras menções de matas virgens ou primárias em palavras como caaguassu (grandes florestas), caaobi (matos verdadeiros, primitivos) e caxangá (mata extensa). Todavia, há uma enorme diversidade de palavras retratando padrões de vegetação originados pelos desmatamentos, pelo retalhamento das florestas e pelo uso do fogo. Muitos desses termos são nomes de bairros e cidades no Brasil: caapuera (“roça que já foi”, como no paradoxal parque do Ibirá-puera), caucaia (“mato queimado” ou “incêndio da mata”), catumbi (“beira da mata”), caatanduva (“mato ralo e áspero”), capitiba (“capinzal”), capixaba (“roçado preparado para plantio”), cairussu (“queimada”, incêndio), caité (“mato não crescido”, em formação), cajuru (“entrada da mata”).

Diferentemente do tardio povoamento da América do Norte, que evitou os indígenas e as regiões costeiras, os portugueses se integraram aos aldeamentos tribais. No litoral, os índios concentravam seus cultivos em manchas férteis nos estuários de rios, terras de restinga e várzeas, podendo combinar coleta de crustáceos em mangues com a agricultura, coleta de frutas com a caça. É nesses locais que os portugueses, náufragos e povoadores, se instalaram. Aldeias não faltavam.

Em 1508, Diogo Alvares Correia, o Caramuru, vivia como um verdadeiro chefe indígena na baía de Todos os Santos – e de sua índia, Bartira. João Ramalho, naufragado em 1510, vivia em São Paulo nas alturas dos Campos de Piratininga, procriando com as índias. Desde 1526, os homens da expedição de Caboto haviam se instalado na vizinhança de aldeias, uma feitoria em Pernambuco. Em 1527, o navegador Diego Garcia já encontrou, vivendo no litoral paulista, náufragos portugueses e espanhóis: uma dezena de casas, uma torre de defesa e uma ilhota onde criavam porcos – por prudência, “para que não servissem de alimento às onças nem escapassem pelos matos”, conforme descreveu. Ao chegar em São Vicente, em 22 de janeiro de 1532, é numa paisagem transformada que Martim Afonso de Souza dá início ao povoamento europeu do Brasil.

No litoral, a densidade das populações indígenas era elevada. É estimada entre 4 e 5 habitantes por quilômetro quadrado e até de 9 por quilômetro quadrado. Cada aldeia tupi continha de 400 a 600 habitantes e controlava áreas de 50 a 100 quilômetros quadrados. Considerando a produtividade natural das terras, a simplicidade dos sistemas de cultivo, as perdas naturais com saúvas e outros predadores, a área cultivada por habitante devia exigir o desmate de 0,2 hectare de floresta primária por pessoa por ano. Nessa hipótese, todo o domínio tupi estaria sujeito à queimada e à técnica da coivara a cada 50 ou 60 anos. Segundo o pesquisador Warren Dean, “no curso de um milênio de ocupação, (os tupis) teriam queimado cada faixa pelo menos 19 vezes. Meio século representava um intervalo adequado para propiciar as condições necessárias ao equilíbrio da lavoura itinerante, mas não teria sido suficiente para restabelecer a floresta costeira em sua complexidade e diversidade originais”.

Existem indícios de que a fortificação e as disputas territoriais tenham criado áreas de um uso mais intensificado e outras mais preservadas, no limite dos territórios. A rede de “peabirus”, os caminhos indígenas utilizados pelos exploradores e catequizadores portugueses, circulava entre as áreas mais ocupadas, marcadas por formações florestais secundárias.

Os peabirus percorriam e conectavam as áreas de distribuição natural de psitacídeos, como papagaios, araras, jandaias e maracanãs, facilitando o acesso e a caça dessas aves. Elas eram transportadas vivas, por distâncias enormes, até o Pacífico, para servirem na confecção de cocares, tiaras, colares e outros adornos. Os mantos andinos feitos de papos de beija-flores, guarás ou tucanos atestam a intensidade da predação. Ainda hoje, a cultura indígena e suas tradições em arte plumária exigem a caça de aves e é objeto de sérias discussões entre indigenistas e ambientalistas.

Se, antes dos portugueses, a história das florestas foi marcada pela caça, pelo uso do fogo e por desmatamentos, o povoamento europeu concentrou suas marcas em territórios menores. Mais impactados, com erradicações definitivas da vegetação natural, mas muito menores. A dramática redução das populações indígenas diminuiu a pressão sobre a mata Atlântica e contribuiu para a sua regeneração nos séculos 17 e 18, como há milênios não acontecia. A grande densidade de pau-brasil em determinados locais do litoral seria o resultado – e mais uma demonstração – da existência de matas secundárias, sintomáticas da degradação anterior da mata Atlântica. A riqueza e a diversidade florística das florestas preservadas não expõem a dominância de algumas espécies, como sucede nas formações secundárias, onde ocorria o pau-brasil.

Na carta ao rei dom Manuel escrita por Pero Vaz de Caminha em 1500, ele afirma que ninguém era capaz de compreender a língua dos dois primeiros indígenas subidos a bordo da nau capitânia. Os portugueses mostraram-lhes então algumas coisas para ver suas reações. Diante do papagaio do capitão, não manifestaram surpresa. Segurando a ave com a mão, pareceram indicar que existiam muitas em suas terras. Um carneiro não lhes despertou a atenção, mas uma galinha – possivelmente cacarejando e se debatendo – assustou-os a ponto de fugirem do animal.

Na Terra de Santa Cruz, parecia não haver agricultura nem pecuária. Os índios “não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem nenhum outro animal acostumado a viver com os homens”. Na carta está também o registro do desapontamento pela inexistência de bens considerados essenciais. No início do século 16, não havia nada a esperar do Brasil no que se referia a ouro e prata nem a produtos elaborados, como seda, porcelanas, especiarias ou mesmo pérolas e corais.

Quanto às necessidades básicas de alimentação, saúde e vestimenta, a terra não podia aguardar tanto pelas novidades. Durante séculos, os portugueses introduziram em terras brasileiras tudo aquilo de que sentiam falta ou pensavam ser de possível interesse. E também se casaram com índias e adotaram parte dos hábitos alimentares e do estilo de vida das populações locais, diferentemente do que ocorria na América do Norte. A introdução do cão doméstico foi talvez a mais ampla e difundida “tecnologia européia” junto aos indígenas. De guardiões de aldeias, sinalizando a aproximação de feras e inimigos, os cães se revelaram grandes auxiliares na caça. Apreciados, passaram a integrar as famílias, sendo aleitados nas mamas das índias como seus filhos.

Com as espécies trazidas pelos portugueses, Europa, África e Ásia passaram a contribuir com a construção de uma nova paisagem brasileira. Um século e meio mais tarde, nos campos e jardins das aldeias e povoados, encontravam-se lado a lado plantas indígenas e uma infinidade de hortaliças, flores, árvores frutíferas, cereais e legumes vindos de todo o planeta.

O processo de introdução de plantas exóticas começou na orla atlântica, com o plantio de coqueirais provenientes do oceano Índico. Não existe, no Brasil, a ocorrência de povoamentos naturais de coqueiros. A imagem dos coqueirais no litoral nordestino está tão incorporada à visão cultural das praias brasileiras que muitos tentam fazer do coqueiro uma árvore brasileira. Não é.

Uma boa fonte de informação sobre as mudanças dos hábitos culturais dos colonizadores e das paisagens são os tratados de Pero de Magalhães Gândavo. Esse cronista foi o autor de uma das primeiras histórias do Brasil. Originário de Braga, Gândavo, após trabalhar na transcrição de documentos na Torre do Tombo, em Lisboa, foi nomeado provedor da Fazenda na Bahia, onde ficou de 1565 a 1570, além de visitar outras regiões do país. Nessa época, escreveu o Tratado da Província do Brasil e o Tratado da Terra do Brasil.

Gândavo aponta mudanças culturais significativas dos portugueses, sobretudo no dormir e no comer: “Nestas partes do Brasil não semeiam trigo nem se dá outro mantimento algum deste Reino, o que lá se come em lugar de pão é farinha de pão. Esta se faz da raiz duma planta que se chama mandioca, a qual é como inhame. (…) Desta mesma mandioca fazem outra maneira de mantimentos, que se chamam beijus, são mui alvos e mais grossos que obreias, destes usam muito os moradores da terra porque são mais saborosos e de melhor digestão que a farinha.”

As frutas nativas já eram plantadas nos pomares e cultivadas em roças: “Uma fruta se dá nesta terra do Brasil muito saborosa, e mais prezada de quantas há. Cria-se numa planta humilde junto do chão, a qual tem umas pencas como cardo, a fruta dela nasce como alcachofras e parecem naturalmente pinhas, e são do mesmo tamanho, chamam-lhes ananases (…) Outra fruta se cria numas árvores grandes (…) depois de madura é muito amarela: são como peros repinaldos compridos, chamam-lhes cajus, têm muito sumo, e cria-se na ponta desta fruta de fora um caroço como castanha, e nasce diante da mesma fruta”.

E havia também, as frutas e hortaliças, nativas e exóticas, já bem conhecidas dos portugueses e nativos: “Algumas frutas deste Reino se dão nestas partes, muitos melões, pepinos e figos de muitas castas, romãs, muitas parreiras que dão uvas duas, três vezes no ano, e tanto que umas se acabam, começam logo outras novamente. E desta maneira nunca está o Brasil sem frutas. De limões e laranjas há muita infinidade”.

A razão do sucesso dessas introduções transcontinentais de espécies foi de natureza ecológica. Eram novas terras, semeadas por novas espécies. Transportadas sem suas principais pragas e doenças, em geral na forma de frutas e sementes, essas novas culturas – em que pese sua baixa diversidade genética devido ao pequeno número de indivíduos na origem – vão crescer melhor no Brasil do que em suas terras africanas, asiáticas e européias. Da mesma forma que o cacau, a borracha e o abacaxi, originários das Américas, terão excelente desenvolvimento ao serem introduzidos na África, na Ásia e na Oceania, livres de parte das pragas e doenças que aqui os assolam.

Os portugueses promoveram o aumento da biodiversidade das terras brasileiras com a introdução de muitas espécies vegetais: cana-de-açúcar, algodão, manga, bananas, carambola, melão, melancia, arroz, feijão, trigo, aveia, uva, coco, figo, fruta-pão, jaca, laranjas, limão, limas, tangerinas, tamarindo, café, cravo, canela, pimenta-do-reino, caqui, biribá, gengibre, romã, inhame, amoras, nozes, maçãs, peras, pêssegos, sapotis, pinhas, graviolas e uma infinidade de hortaliças, ervas medicinais e tubérculos. Essas árvores e plantas exóticas integram hoje a paisagem, os jardins, as cadeias produtivas e a culinária nacionais.

A banana, um símbolo da nossa tropicalidade, é originária da Ásia – existem espécies selvagens na Nova Guiné, Indonésia e Filipinas. A expansão do Islã levou a fruta ao Mediterrâneo, de onde ela foi difundida na África. Nos séculos 15 e 16, os portugueses já mantinham bananais na ilha da Madeira e na costa ocidental africana – berço da palavra “banana”, hoje usada em muitas línguas. Das ilhas São Tomé e Príncipe foram trazidas as primeiras mudas para o Brasil, onde é hoje a segunda fruta mais produzida.

Os principais animais domésticos e de exploração pecuária dos brasileiros, até hoje, são todos importados: cães, gatos, galinhas, patos, gansos, bicho-da-seda, coelhos, bovinos, jumentos, burros, cavalos, ovinos e caprinos. A introdução do gado levará à proliferação de rebanhos de gado selvagem e também de onças e pumas. Existem descrições espantosas do caso feitas por jesuítas, principalmente os padres Sepp e Montoya: “Os tigres que se criam por aquelas terras são incontáveis, assim como o é a multidão de gado vacum silvestre, que se acha a seu dispor”.

Os achados biológicos do Brasil, de uso imediato, foram bem menores. Mas revolucionaram a dieta alimentar dos povoadores, dos escravos africanos e de outros povos. Portugueses e espanhóis levaram a outros continentes o milho, a batata, o tomate, a mandioca, o cacau, o caju, o amendoim, o abacaxi e o tabaco. A pimenta vermelha, domesticada pelos ameríndios há mais de 6 mil anos, se espalhou pelo mundo. Está de tal forma associada à cozinha asiática que um coreano, indiano ou tailandês não podem imaginá-la como sendo um condimento exótico.

A batata mudou a alimentação dos europeus. Seu sucesso foi tamanho, a ponto de mudar completamente os hábitos alimentares, principalmente nos países da Europa do Norte. A chegada na Europa, no fim da década de 1840, de uma praga americana da batata – um fungo – foi tão devastadora que causou a morte por inanição de milhares de pessoas. Levou os irlandeses a migrarem em massa para os Estados Unidos – ou seja, foi por causa da América Latina, da batata e de suas pragas que os Kennedys terminaram por governar, um dia, aquele país. Assim como trouxeram doenças, os ibéricos também levaram novas enfermidades da América e dos índios à Europa e ao mundo, principalmente a sífilis.

Hoje, a dieta do brasileiro se baseia em feijão, arroz, saladas, ovos, frango, macarrão, pão, biscoitos, carne bovina e suína. Todos produtos de origem exótica, introduzidos pelos portugueses. Entre as frutas mais consumidas estão laranjas e bananas, também introduzidas. Nas exportações brasileiras, destacam-se vegetais e animais importados pelos povoadores ou pelo comércio que estabeleceram e lhes sucedeu: açúcar, álcool, suco de laranja, algodão, café, soja, carne bovina, suína e de frango. Todos exóticos.

Turistas têm o sentimento de usufruírem da vegetação tropical brasileira, extasiados diante da “natureza”. Na realidade, desfrutam de uma paisagem criada pelo homem. Um exemplo é a narrativa do príncipe Maximiano de Wied Neuwied. Ele esteve no Brasil de 1815 a 1817 e fez a seguinte descrição: “O europeu, transplantado pela primeira vez para esse país equatorial, sente-se arrebatado pela beleza das produções naturais. As mais belas árvores crescem em todos os jardins; vêem-se aí mangueiras colossais, que dão uma sombra densa e um excelente fruto, os coqueiros de estipe alto e esguio, as bananeiras (…) e grande número de outras espalhadas por jardins. Esses soberbos vegetais tornam os passeios agradáveis; os bosques, que formam, oferecem à admiração dos estrangeiros…” Todos vegetais citados são exóticos. Estavam incorporados de tal forma à paisagem que pareciam compor, naturalmente, a identidade do Rio de Janeiro.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . A invenção do Brasil. National Geographic, v. 7, p. 60-71, 2007.

 
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