A INVENÇÃO DA CASCA

casca

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Capazes de conquistas territoriais e rápidos deslocamentos, os animais identificam-se na natureza por suas mais diversas formas de movimento: nadadores, rastejantes, voadores, saltadores e caminhantes. Os animais, e os humanos em particular, são mestres na dominação do espaço. Por milhões de anos, eles aplicaram-se a desenvolver meios e inovações evolutivas para conquistar e dominar o espaço. E esqueceram-se do tempo.

Os animais deslocam-se na busca de ambientes favoráveis à sua reprodução. As plantas aguardam imóveis, até que as coisas melhorem. O animal, senhor do espaço, muda de meio ambiente. A árvore, senhora do tempo, espera que o meio mude. Esperar parado pode cansar e é arriscado. Além de mudanças nas estruturas reprodutivas, os vegetais desenvolveram importantes modificações morfológicas. As plantas criaram diversos meios para resistirem às intempéries, ao fogo, às secas, às geadas, aos ataques de insetos e herbívoros e à toda sorte de agressões ambientais sem sair do seu lugar. Um deles, e dos mais eficazes, resultou da troca da epiderme pela casca.

A casca é uma marca registrada das árvores. Nela, os namorados escrevem seus nomes e desenham corações. E, sem saber, entalham e recortam uma das partes mais antigas da planta. Existem cascas lisas, outras desprendem lâminas como folhas de papel, outras ainda são recobertas de espinhos, apresentam nódulos, rachaduras etc. Algumas cascas são rígidas como cerâmica e outras macias, feitas de cortiça. A casca ou periderme das árvores é o resultado de uma lenta evolução dos vegetais. Seus tecidos são originados de uma estrutura chamada felogênio e substituíram a epiderme, em caules e raízes, com ampla função protetora. A casca da árvores tropicais, constituída essencialmente por células mortas, é são um mundo cheio de vida.

A casca é impregnada de substâncias que lhe conferem enrijecimento, impermeabilidade, propriedades medicinais e até toxidez. Muitas árvores no Brasil são chamadas de casca de alguma coisa: casca-de-ferro, casca-doce, casca-do-panamá, casca-grossa, casca-cheirosa, casca-branca etc. A casca-de-anta (Drimys winteri), da família das winteráceas, tem uma casca aromática e medicinal, muito procurada pelas antas quando estão doentes. As cascas das árvores, cortadas, perfuradas e recortadas, fornecem fibras como na envira, aromas como na canela, incensos como na umburana, óleos medicinais como na copaíba e o precioso látex da seringueira, da balata e da guta-percha.

Como as árvores não param de crescer radialmente, a casca estica um pouco e depois racha. Quem amarra um galho ou uma árvore com arames ou barbantes fica surpreendido com a rapidez desse crescimento radial. Os famosos mata-paus ou figueiras-bravas matam as árvores sobre as quais se desenvolvem, não por sugar sua seiva ou por estrangulamento ativo, mas por impedirem o crescimento radial das mesmas, provocando um esmagamento dos feixes de vasos por eles mesmos.

Com o crescimento lateral do tronco, rachaduras ocorrem na casca, em geral, no sentido longitudinal e revelam tecidos mais jovens, ainda vivos, de outra coloração. As rachaduras podem seguir a forma de placas ou alvéolos. É como se a casca da árvore apresentasse uma espécie de descamação ou erosão. Existem árvores em que esse tecido externo da casca, formado por células mortas, é impregnado na maturidade de uma substância chamada suberina. O súber, essa “casca grossa”, pode ser espesso, rígido e pesado, mas também poroso e leve, como na cortiça do sobreiro, a mãe de todas as rolhas.

Nos troncos e galhos das árvores, a casca serve de suporte a musgos, ninhos de passarinhos, epífitas, como orquídeas e bromélias, e sobretudo liquens, que por sua vez abrigam ainda outras formas de vida, como os fungos.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . A Invenção da Casca. Terra da Gente, v. 5, p. 51-51, 2008.

 

 
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