A GUERRA DA ÁGUA

agua

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

 

O mineral mais valioso do Terceiro Milênio da Era Cristã não será o ouro ou o petróleo, nem provavelmente qualquer metal raro, mas a água. Água potável. O crescimento demográfico, aliado a um aumento sem precedentes da capacidade tecnológica do homem de alterar o meio ambiente estão comprometendo seriamente a disponibilidade de recursos hídricos para necessidades básicas como o suprimento das cidades, o consumo humano, animal e a irrigação. Nesse contexto o Brasil ocupa um lugar único e estratégico na escala planetária.

Uma cidade de 10.000 habitantes na Idade Média tinha sua economia limitada a um universo local e regional, em geral em harmonia com os ciclos naturais. Hoje uma cidade brasileira de 10.000 habitantes, como Jaguariúna em S. Paulo por exemplo, mobiliza recursos planetários. A capacidade de deslocamento dos indivíduos, os circuitos comerciais e todo o aparato tecnológico fazem com que um habitante desse município seja capaz de mobilizar e comprometer recursos naturais, não só na sua região, mas em várias regiões do país e do exterior.

Os poluentes lançados nos rios, nas redes de água pluvial, nos esgotos e nos lençóis freáticos tem características novas. Além da tradicional poluição orgânica do esgoto doméstico (cerca de 6 milhões de toneladas de urina e fezes por dia em todo planeta), hoje as águas servidas carregam poluentes de origem industrial contra os quais os sistemas de tratamento de águas são impotentes. Os próprios derivados de petróleo como a gasolina, o diesel, os agrotóxicos, bem como os produtos de sua decomposição parcial no meio ambiente, atravessam praticamente intactos o sistema de tratamento de água das melhores cidades brasileiras. A contaminação dos recursos hídricos vai tomando um caráter irreversível. Preocupa toda a humanidade e foi abordado com atenção durante a ECO-92. A atual globalização da economia só faz acentuar essa tendência e não existe nenhum sinal de reversibilidade nesse quadro. O Banco Mundial estima que 800 bilhões deverão ser investidos nos países em desenvolvimento ate 2005 para evitar um colapso no abastecimento de água potável!

Qual a disponibilidade de água doce no planeta? A Europa dispõe de 4% da água dos rios. A Ásia e a América do Norte reúnem 27% e 12% respectivamente. A América do Sul concentra 47% da água doce existente nos rios do planeta. Em termos de distribuição per capita, a média mundial é de 425 m3/habitante. A América do Sul situa-se 713% sobre a média mundial. A bacia Amazônica e a do Prata representam o essencial da disponibilidade hídrica do continente sul-americano e são as duas maiores bacias do mundo. Nesse sentido o Brasil detém cerca de 40% da disponibilidade de água doce do planeta! Segundo a revista Newsweek, no decorrer do século XXI, o Brasil será uma espécie de fiel da balança da Água Doce, assim como a Arábia Saudita é hoje para o petróleo.

Se o território nacional coincide com o essencial da bacia Amazônica e com grande parte da bacia do Prata/Paraná não é por obra do acaso. Foi o resultado do espírito de conquista e de busca de novos horizontes e possibilidades dos desbravadores portugueses e brasileiros. O Império brasileiro soube, principalmente sob a figura de D. Pedro II, consolidar essas conquistas da nacionalidade. O último sopro territorial na Amazônia foi fruto da saga dos seringueiros: o Acre. Não se tratava para a monarquia de somente consolidar nossas fronteiras mas também de zelar pelo futuro desses recursos. Em Caldas da Imperatriz, Santa Catarina, D. Pedro II colocou a guarda imperial para proteger fontes de água mineral de qualquer degradação! Soldados morreram nessa defesa! Mas o principal exemplo dessa política de longo prazo está no Rio de Janeiro: a floresta da Tijuca.

Em 1862, a água principal de abastecimento da cidade vinha do rio Carioca que descia nas faldas do Corcovado, pelo Cosme Velho e Santa Thereza, atravessando a Lapa pelo aqueduto. A expansão do plantio do café e da pecuária havia promovido a erosão e o desmatamento na serra da Carioca e no maciço da Tijuca. D. Pedro temia, com toda a razão, que os mananciais secassem. Pensando na água, o Imperador pede ao major Gomes Archer que inicie o plantio da atual floresta da Tijuca. Ajudado por apenas seis escravos, o major vai plantar mais de sessenta mil árvores. Hoje ela é, apesar de todas as ameaças e agressões que sofre, o maior parque nacional em área urbana do planeta.

Faltará água doce no século XXI. Houve tempo em que a nação afirmou “O petróleo é nosso!”. Chegou o momento dos estrategistas e de todos brasileiros – ao pensarem no futuro e na magnificiência do Brasil – de redescobrir o exemplo dado pela monarquia no passado como trilha de futuro. Ao redescobrirmos o Brasil constatamos que “A água é nossa!”, como legado do passado e bandeira de desafio para o futuro!

 

Publicado em:

 

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . A guerra da água. Herdeiros do Provir, São Paulo – SP, p. 03, 01 set. 1996.

 

 

 
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