A FLORESTA URBANIZADA

t06

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Durante anos os satélites espaciais tiveram seus olhos voltados para o desmatamento, a colonização agrícola, os garimpos e as áreas indígenas na Amazônia. Nos últimos anos, um novo ator, decisivo, começa a determinar o futuro da região amazônica: as cidades e áreas urbanizadas. A população da região aproxima-se dos 20 milhões de habitantes marcando a consolidação de uma nova economia local, mais complexa e voltada para o consumo da região. Em abril de 1998, publicamos um artigo, na Revista Brasileira de Ecologia – EcoRio, sobre o crescimento e a consolidação das cidades de médio e grande porte na Amazônia.

O monitoramento agrícola e ambiental, de um conjunto de áreas situadas nos estados do Acre, Amazonas, Mato Grosso, Roraima, Rondônia e Tocantins pela equipe de pesquisadores da Embrapa Monitoramento por Satélite, mostra que as cidades são hoje as principais motoras e beneficiárias das atividades econômicas regionais. Nada indica que isso possa reverter-se no futuro. Nessa dinâmica, os serviços urbanos desempenham um papel crescente e determinam uma nova dinâmica de desmatamento e de mudança de padrões no uso das terras. Paralelamente, declina na região a importância de atores tradicionais como o governo federal, os empreendimentos estatais, os garimpeiros e as populações que vivem do extrativismo.

Para caracterizar essa nova dinâmica da presença humana e da urbanização na Amazônia, a Embrapa Monitoramento por Satélite vem trabalhando com vários sistemas orbitais ou satélites de monitoramento terrestre. Para uma primeira identificação das vilas e cidades, trabalhou-se com dados do satélite DMSP. O DMSP (Defense Meteorological Satellite Program), iniciado em 1960, é um programa de satélites inicialmente destinado a atividades de defesa dos EUA, cujos dados também têm sido utilizados para estudos meteorológicos. Uma das suas características especiais está na sua capacidade de gerar imagens com pouca quantidade de luz, como a refletida pela Lua, por exemplo. Permite uma detecção excelente de cidades e pontos de luz noturnos, como as queimadas. O DMSP está sob responsabilidade do Air Force Space and Missile Systems Center (SMC). Este órgão implementa, lança e mantém os vários satélites da defesa dos EUA. O acesso as informações ainda é bastante restrito. Um acompanhamento das luzes fixas, que não variam de uma noite para a outra como as queimadas, por exemplo. permitiu estabelecer – através de uma centena de imagens -, uma mapa das cidades e aglomerações urbanas existentes na Amazônia.

Esse trabalho levou a identificação de mais de 1300 cidades de pequeno, médio e grande porte na região. Mas, muitas vilas e pequenas cidades desligam seus geradores antes de dez horas da noite e não são captadas quando da passagem do satélite que é por volta da meia noite. Assim, esse trabalho foi complementado por outros dados oriundos do IBGE, FUNAI, DNPM e ongs. Eles permitiram a identificação de algumas grandes fazendas, lugarejos e vilas, áreas de mineração, povoamentos extrativistas e algumas aldeamentos indígenas com características de pequenas vilas urbanizadas. Com esse novo mapeamento, o total das áreas com vilas e cidades ultrapassa 1.500!

Esse monitoramento revela mudanças significativas e inéditas na economia regional. Com a consolidação econômica de um grande número de novas cidades de médio e grande, suas populações desenvolvem novos circuitos de produção e consumo. O setor agroindustrial esta tendo um crescimento acelerado. A estratificação e a mobilidade social consolidam-se, a exemplo do resto o país. A base igualitarista dos antigos projetos de colonização e assentamento, onde milhares de pessoas recebiam a mesma quantidade de terra, começa a hierarquizar-se. Aparecem pequenos, médios e grandes produtores, assim como novos serviços e atividades na área rural. Os imensos latifúndios revelam-se uma impossibilidade administrativa e vêm sendo divididos.

O nível e as exigências de consumo dos núcleos urbanos aumenta constantemente. Os circuitos de comercialização do setor agroalimentar, sofisticam-se, através de empresas como a Parmalat, Danone, Nestlé etc e ganham uma enorme capilaridade nos últimos anos. A agricultura local atende cada vez mais parte dessa demanda e exporta. Isso é patente com a carne, grãos, frutas e madeira, e também com o leite e seus derivados em algumas regiões. A nova fronteira da soja, por exemplo, no extremo ocidental da Amazônia, está sendo ampliada em bases inteiramente privadas. Sua extensão acontece a partir de cidadãos com experiência agrícola e não a partir de pequenos agricultores ou produtores sem terra. Dinâmicas análogas impulsionam a produção do café, do arroz e a pecuária.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de . A Floresta urbanizada. EcoRio, Rio de Janeiro – RJ, v. 41, p. 9-10, 1999.

 

 
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