A EXPLORAÇÃO FLORESTAL DO BRASIL

floresta

(17/06/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

Dois estudos importantes sobre a exploração florestal no Brasil acabam de ser publicados. O primeiro mostra que em quatro séculos de Coroa portuguesa e de Império do Brasil foram extraídas cerca de 500.000 árvores de pau-brasil da Mata Atlântica. A exploração mais intensa ocorreu no século XVIII, quando foram cortadas 322.260 árvores. Isso enquanto a floresta amazônica e as matas de araucária dormiam em berço esplêndido. Yuri Tavares Rocha, pesquisador da USP, chegou a esses números após consultar quase mil livros e documentos no Brasil e em Portugal.

O segundo estudo foi realizado por pesquisadores do IMAZON junto a 680 madeireiras (27% do total), em 82 pólos da Amazônia. Só em 2004 foram cortados 6,2 milhões de árvores na região. O estudo considerou as toras de uso comercial e não contabilizou o total de árvores cortadas em desmatamentos agrícolas e pecuários, não comercializadas. Somente entre 2003 e 2004 foram mais de 24.000 km2 desmatados na Amazônia.

A exploração do pau-brasil não foi sinônimo de desmatamento, ao contrário do que muitos imaginam. Integrando critérios econômicos, políticos e silviculturais, o Regimento do Pau brasil, implantado em 1600, forneceu às autoridades metropolitanas instrumentos essenciais para o planejamento e a gestão dos contratos de concessão, tais como a definição anual de cotas de exploração, corte somente com licença e o estímulo à regeneração natural mediante métodos silviculturais, rotação de exploração e delimitação de áreas reservadas. A implantação do Regimento, o planejamento da oferta de pau-brasil, o controle da pressão sobre as populações da árvore no tempo e no espaço, e os cuidados com sua regeneração tomados pela Coroa portuguesa, diminuíram consideravelmente os riscos de esgotamento desse recurso.

O comércio do pau-brasil sempre foi exclusividade da Coroa. D. João VI quando da abertura dos portos às nações amigas autorizou a comercializar todo e quaisquer gêneros e produções, à exceção do pau-brasil. Em 1808, o recém criado Banco do Brasil passou a ter comissão na venda da madeira de tinturaria. Após a Independência, o pau-brasil transformou-se em monopólio nacional e sua venda destinada a saldar a dívida externa com a Inglaterra. A partir de 1850, a fabricação industrial da anilina retirou o pau-brasil do mercado e não a devastação de suas matas. Em 1875, foi registrada a última exportação de pau de tinta para a Europa. Por quatro séculos, a legislação e as medidas de controle e manejo das matas da Coroa portuguesa e brasileira, permitiram sua exploração sustentada e a manutenção das matas.

Numa pesquisa de doutorado sobre a história da gestão florestal no Brasil, Carlos Castro demonstrou que o desmatamento da floresta atlântica foi um fenômeno do século XX. Entre 1945 a 1960, a cada 5 anos, desmatou-se mais do que o que tudo foi desmatado entre 1500 e 1930! Entre 1985 e 1995, a mata atlântica perdeu mais de um milhão de hectares, mais de 11% de seus remanescentes. Dos mais de 1,3 milhão de quilômetros quadrados originais, subsistem apenas cerca de 8%.

Estudos científicos, cada vez mais circunstanciados, indicam que a área média cultivada anualmente foi da ordem de 9.000 hectares durante o período da Coroa portuguesa, chegando a um máximo de 16.000 hectares no início do Império. O total de áreas desmatadas para a produção de açúcar, durante mais de 220 anos, no momento da Independência, atingia cerca de 14.000 km2. Comparada à extensão da mata atlântica, os desmatamentos causados pela cana de açúcar, durante mais de duzentos anos de povoamento, podem ser considerados irrisórios. Atualmente, em apenas um ano, produz-se muito mais cana de açúcar no Brasil que durante todo o período da Coroa.

No Brasil, a ocupação luso-brasileira desenvolveu vários exemplos de sistemas sustentáveis de exploração agroflorestal e agropastoril inéditos, sem desmatamentos expressivos, respeitando, com sabedoria, os condicionamentos ambientais. Foi o caso da ocupação da caatinga, do cerrado, do Pantanal, da pampa, dos campos sulinos e, até, de boa parte da mata atlântica com o cacao.

A história do desmatamento é fruto do século XX e da república. A política florestal da Coroa portuguesa e do Império conseguiram, por diversos, invejáveis e complexos mecanismos, manter grande parte da cobertura florestal do Brasil praticamente intacta até final do século XIX. Como assinala Carlos Castro, “em vez de imputar a Portugal a culpa por ter nos deixado uma ‘herança predatória’, talvez devamos aprender com as práticas conservacionistas que os portugueses preconizaram e tomarmos consciência de que a destruição das florestas brasileiras não é obra de 500 anos, mas principalmente desta geração”.

 

 
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