A ÁFRICA SEM CLICHÊS DE UM BRASILEIRO

160115_A ÁFRICA SEM CLICHÊS DE UM BRASILEIRO

(15/1/2016)

Evaristo Eduardo de Miranda

O agrônomo Evaristo de Miranda, recém ­empossado chefe ­geral da Embrapa Monitoramento por Satélite, já publicou mais de 30 livros sobre sociedades rurais, fauna e ecossistemas. Nos anos 70, fugindo da ditadura militar brasileira, instalou­-se em Paris. Uma instituição científica de lá o enviou para o continente africano a fim de estudar a vegetação, a agricultura e a cultura do Níger, na fronteira sul do Saara, entre as etnias hauçá, tuaregue e peul.

O escritor viveu no lugar entre 1976 e 1979 e teve acesso a segredos, rituais e mistérios de diferentes tradições étnicas. Tudo o que presenciou no local pode ser lido agora em “Geografia da Pele”, relato memorialístico escrito com domínio estilístico e força narrativa.

A África de Miranda não é a dos safáris fotográficos, entre elefantes e girafas, nem aquela da aridez da geografia. As experiências subjetivas dão o tom ao relato, a modo de prosadores que souberam captar o continente, como por exemplo, a britânica Doris Lessing (1919/­2013), que passou a infância na Rodésia do Sul (hoje, Zimbábue), local que lhe serviu de matéria ­prima para diversos livros, entre eles “O Sonho Mais Doce”, em que estabelece um paralelo entre intelectuais ingleses de esquerda tomando chá e discutindo política e a África dos anos 80, quando a aids começa a vitimar a população, sem que curandeiros conseguissem criar uma poção mágica para o mal.

Pois bem, a África de Evaristo de Miranda é anterior ao aparecimento da epidemia e o foco é a história oral que lhe foi contada por crianças, velhos sábios e feiticeiros, num momento em que o islã, ali, estava em forte expansão.

O primeiro capítulo dá pistas sobre o título da obra e sobre o fio narrativo. Fala do jovem aventureiro de 20 e poucos anos que chega ao local desconhecido e do homem maduro que hoje percebe que viver na região deixou uma estranha geografia em sua pele, por causa de estranhas vesículas que surgiram nos seus braços e pernas, logo nos primeiros dias.

Sem conhecer ainda o idioma hauçá, demorou a saber que as feridas eram causadas por cantáridas, pequenos besouros verde-­metálicos de hábitos noturnos, que não faziam parte da sua lista de pragas que atacam lavouras na África, na França ou no Brasil.

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As marcas são tratadas por um guia local contratado por Miranda, com cataplasma de folhas de feijão­ de ­corda; o ardor passava imediatamente, mas as marcas ficariam para sempre na pele. Um “marabu”, designação em comum, em francês como em português, do devoto muçulmano, que na África ao sul do Saara, no entanto, toma ares de curandeiro, adivinho, diz ao geógrafo que, na pele africana, as marcas falam de épocas difíceis, anos de seca, ataques de lagartas, falta de vento, advertências celestes, traições amorosas e quedas de meteoros.

Sai à procura de mais respostas para tais marcas, e o livro então relata uma sucessão de encontros… com um cozinheiro, que Miranda contrata e, em seu banquete teatral africano, faz morcegos fritos; uma menina sem braços que deseja ser parteira, uma das personagens mais marcantes do livro; um ferreiro que guarda o fogo de um vilarejo dentro de uma forja e distribui chamas aos moradores, diariamente.

A relação homem versus natureza está em cada capítulo do livro. Num deles, o autor destaca as “árvores conselheiras”. Todos os vilarejos do Sael têm suas “árvores da palavra”. Sob elas, as pessoas se sentam para discutir, tomar decisões, contar histórias, praguejar, tramar, vadiar.

É debaixo de uma dessas árvores que Miranda, agora já inserido na cultura local, descreve uma viagem imaginária e bem­ humorada através do Saara, seguido de centenas de moradores locais que desejam chegar a Paris, talvez o presságio da crise migratória da Europa de hoje. Sempre com um cajado nas mãos, não como se fosse um mestre ou guia, mas sim como uma espécie de condutor da história, faz que o leitor olhe uma África diversa daquela que conhecemos, do candomblé, do samba e da capoeira.

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