VIVEU POUCO


(25/5/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

A especificidade cristã é difícil de ser compreendida por judeus, muçulmanos, budistas, adeptos de outras religiões e pagãos. Tornou-se politicamente correto afirmar: todas as religiões levam a Deus e seus mestres equivalem-se. Essa afirmação é um preconceito indefensável. Quem conhece profundamente todas essas perspectivas religiosas para fazer tal afirmação? As diferenças são enormes. Basta um mínimo de olhar histórico para constatá-las.

Uma delas é a vida dos fundadores. Moisés, Buda, Maomé e Confúcio faleceram com idade respeitável, após uma vida de conquistas e realizações, cercados por seus discípulos e sucessores. Eles encerraram suas vidas repletos de dias, como os patriarcas de Israel, após anos de venturas e aventuras. Eles tiveram até o fim uma existência cercada de esposa, filhos, parentes, amigos e até de um harém, como o profeta Mohamed, falecendo nos braços de sua esposa bem amada. Não foi assim com Jesus, o filho do carpinteiro de Nazaré.

Jesus morreu jovem e celibatário, após uma atividade extremamente curta, de no máximo de três anos e possivelmente apenas de alguns meses. Ele morreu abandonado e negado por seus discípulos, ofendido e amaldiçoado por seus adversários e aparentemente abandonado por Deus. Ele foi condenado ao mais horroroso e odioso dos suplícios: a cruz.

Assim apresenta-nos Jesus o evangelho de Marcos. No começo um simples homem, mais adiante “um homem eleito por Deus acima de toda criatura,” nos dizeres de Paulo apóstolo, depois filho do homem e afinal, filho de Deus. Bem mais tarde, no evangelho de João, Jesus se torna o Verbo encarnado. Essa afirmação marcará profundamente o desenvolvimento do cristianismo e particularmente a fé na ressurreição. Eis um dos caracteres decisivos da especificidade cristã, nos dizeres do teólogo Hans Kung. E toca um dos mistérios da fé cristã. “Salvador do mundo, salvai-nos. Vós que nos libertastes pela cruz e ressurreição.”

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Viveu Pouco. A Tribuna, Campinas – SP, p. 13, 2006.

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