VIDA SINGULAR


(1/6/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando Jesus entrou no Templo, os sumos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-se dele, enquanto ensinava, e lhe disseram: Em virtude de que autoridade fazes isso? E quem te deu tal autoridade?

(Mt 21,23)

A vida de Jesus tomou uma dimensão muito singular, bem antes de sua ressurreição. Foi quando ele afirmou que sua autoridade vinha de seu Pai. Esse modo de falar de Deus expressava uma familiaridade, vizinha da ousadia, impensável naquele contexto religioso. Sua autoridade provinha do Pai e não da autoridade estabelecida no Templo em Jerusalém.

Jesus conhecia e reconhecia a instituição religiosa do judaísmo daquele tempo. Ela reinava em Jerusalém, com os sumos sacerdotes, os anciãos, as leis, os ritos… Ele também se identificava com esse mesmo Deus de Israel que o povo judeu concebia, e concebe até hoje, através de sua experiência secular da Aliança.

O Filho por si mesmo não pode fazer coisa alguma, se o não vir fazer o Pai; porque tudo quanto ele faz, o Filho o faz igualmente. Porque o Pai ama o Filho, e mostra-lhe tudo o que faz (Jo 5, 19)

Em seu confronto final com Caifás, o sumo-sacerdote, Jesus afirmou com força e veemência na linguagem em que aquele tempo e contexto permitiam – que ele era Deus, graças à sua fé e à sua fidelidade. E que ele permaneceria para sempre (Mt 26,57-68; Mc 14,53-64; Jo 18,19-24).

Para Jesus, o Deus em mim prevalecia sobre o Deus conosco de Israel. Jesus mostrou assim o caminho, que naquele momento parecia a todos uma blasfêmia, e que hoje se revela a única via possível ao homem para crer em Deus de uma forma real e não mais de um modo instintivo ou animista.

Como ouço, assim julgo; e o meu juízo é justo, porque não busco a minha vontade, mas a vontade do Pai que me enviou. (Jo 5,30)

Como afirma Marcel Légaut, no seguimento de Jesus, transformado por essa fé, a vida do homem – como através de um novo nascimento – mesmo continuando sua, é também aquela de Deus nele, dele e para ele.

Publicado em :

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Vida Singular. A Tribuna, Campinas(SP), p. 13 – 13, 2011.

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