VER PELAS COSTAS


(22/2/1995)

Evaristo Eduardo de Miranda

Onde estão as nossas falhas, fraquezas, erros e enganos? Estampados em nosso rosto? Marcados em nossas mãos? Expressos em nosso olhar? Talvez, mas a experiência humana parece indicar que os nossos defeitos vão sendo escritos em nossas costas, numa clara e límpida linguagem.

A primeira evidência dessa geografia corpórea dos defeitos está na nossa capacidade de ver os defeitos dos outros, pelas costas. Lá onde eles nada enxergam ou admitem. A incrível como a gente vê bem os defeitos e fraquezas dos outros. É como se eles andassem com uma tabuleta de defeitos pendurada nas costas. Frente a frente apenas sorrisos ou passividade. Mas, logo após a passagem do outro, já estamos prontos para ler com atenção e comentar com certo prazer, a lista dos seus defeitos. É usual fazê-lo para nós mesmos ou, melhor ainda, para os outros.

A segunda evidência dessa mesma geografia do corpo está no fato de que não conseguimos enxergar os nossos defeitos. Não há retrovisor, nem espelho, por mais bem colocado ou claro que seja, capaz de dar jeito nessa dificuldade. Na linha da autocrítica, existe aquele ditado popular que recomenda olhar-se no espelho. O problema é que a lista dos defeitos está dependurada atrás, nas costas. Olhar-se de frente no espelho, para muitos, é uma simples confirmação de sua genialidade, bondade e, porque não, pureza. Alguns chegaram a imaginar uma possibilidade simiesca, onde cada macaco olharia o seu próprio rabo. Mas os nossos são curtos demais para permitir tal feito. Por mais contorcionismo que se tente.

Às vezes a lista carregada nas costas começa ficar muito grande. O seu peso abaixa os ombros da pessoa, provoca dores nas costas, arqueia o corpo para frente, induz a uma escoliose, problemas na coluna etc. É um problema de postura, dizem os especialistas. Nisso eles têm toda a razão. Mas como postar-se diante da vida e dos outros? Quando os defeitos são ou podem ser desfeitos?

Quase sempre da mesma maneira: numa conversa amiga e franca – pode ser curta – onde somos capazes de dar a nós mesmos (confissão) ou aos outros, a possibilidade de nos criticarem. Ser capaz não somente de ouvir, mas de escutar os outros e ser escutado por eles. É quando saímos do eu para o tu e do tu para o nós. É quando verdadeiramente nós dialogamos e nos reconciliamos. Não estamos conversando para relatar nossos feitos. Estamos dialogando para conhecer nossos de-feitos. Nesses diálogos abrimos nossos olhos. Além de olhar, começamos ver. Vemos que havíamos feito isso e aquilo. Feito isso = feitiço. Vamos desfazendo, com a ajuda alheia, todos os feitiços paralisantes. Resgata-se o passado. Vê-se pelas costas.

Feito isso, ao ver-se pelas costas, começa-se a andar, a agir e a ver melhor pela frente. Não depende somente de nós, mas começa pela nossa capacidade e vontade de ouvir e ver o Outro no Outrem.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Ver pelas costas. Mensageiro, São Paulo – SP, p. 05, 1997.

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