UNA, SANTA, CATÓLICA, APOSTÓLICA…


(14/3/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

A verdade não pede favor, porque a perseguição não a intimida.

Nossa religião sabe que seu destino é ser estrangeira sobre esta terra

e que sempre terá adversários.

É no céu que ela tem sua sede, suas esperanças e sua glória.

A única coisa que aspira é não ser condenada sem ter sido ouvida.

Tertuliano, II d.C, Apologeticum

No início deste ano, em mais um ato público de resistência à falta de liberdade religiosa imposta pelo regime comunista da China, cerca de 5.000 católicos participaram do enterro do bispo coadjutor de Xiwanzi, Mons. Leo Yao Liang. Nessa região montanhosa, sob muita neve e um frio de 30 graus abaixo de zero, os fiéis organizaram-se para dar sepultura digna e cristã ao seu pastor. Ele passara 30 anos em prisão por recusar a Associação Patriótica, igreja cismática, submissa ao Governo de Pequim.

Nascido em 1923, ordenado padre em 1948, Mons. Yao nos anos 1950, recusou-se a ceder às manobras do governo chinês para criar uma igreja nacional, separada da Igreja Universal. Já em 1951, todo seu trabalho pastoral foi proibido. Ele teve que ganhar sua vida cultivando legumes e vendendo lenha. Persistindo em sua recusa de aderir à Associação patriótica, criada em 1957, ele foi condenado no ano seguinte à prisão perpétua e à reeducação pelo trabalho. Só foi libertado em 1984, e retomou rapidamente seu trabalho pastoral. Desde 2006, a polícia mantinha-o seqüestrado pelo mesmo crime, proibido de exercer sua autoridade episcopal e de celebrar. As autoridades também proibiram que ele fosse enterrado como bispo. No sepultamento, os fiéis conseguiram colocar no caixão, clandestinamente, suas insígnias episcopais, símbolos de sua fidelidade e união à Igreja católica, apostólica e romana.

No mês de março, na Nigéria, centenas de crianças, mulheres e homens católicos foram massacrados a noite em seus vilarejos. Armados com revólveres, metralhadoras e machados, muçulmanos invadiram casas das cidades de Dogo Na Hauwa, Ratsat e Jeji, no centro da Nigéria. Eles mataram todos que encontraram pela frente. O radicalismo islâmico já foi responsável pela morte de muitos mártires, especialmente na região norte do país. Desde os anos 80, e particularmente após a adoção da lei islâmica, a Sharia, em 12 estados do norte na Nigéria, os conflitos deixaram mais de 12.000 mortos e cerca de 200 igrejas incendiadas.

Pouco se falou na mídia sobre essas perseguições aos católicos, noticiadas como incidentes. Talvez porque, salvo honrosas exceções, em versões simplistas e dogmáticas, a mídia critica tudo e todos na Igreja católica: doutrina, organização, moral, espiritualidade, ética religiosa, ações pastorais, movimentos leigos, celibato do clero, iniciativas de evangelização, hierarquia e, sobretudo, o Papa e o Vaticano. Se uma parcela dessa crítica fosse aplicada a outras minorias religiosas ou sociais, causaria grande revolta. Seria algo impensável, politicamente incorreto. No caso da Igreja católica não é. Pelo contrário, parece até politicamente correto, criticá-la de forma sistemática e desmedida. Falar mal da Igreja “pega bem”, como me disse um editorialista.

Nossa religião sabe que seu destino é ser estrangeira sobre esta terra e que sempre terá adversários, já dizia Tertuliano, cujos paradoxos encantaram Carl Jung. A primeira das bem-aventuranças anunciadas por Jesus também é um paradoxo: felizes os infelizes (Mt 5,3-11). É uma beatitude de compaixão. Na China, na Nigéria, no Brasil ou em Roma, o cristão não age para reconciliar-se com o mundo, mas para introduzir o reino dos céus neste mundo. O discípulo em marcha não é consolado por esse mundo, mas pela inteligência do reino de Deus. Aí reside uma das dimensões da santidade. A Igreja não existe para nos ajustar ao mundo, nem para nos distrair, mas para nos subtrair. O verdadeiro cristão faz o luto do mundo e se abre a inteligência do reino dos céus.

Caminhar para o reino de Deus é inventá-lo, acolhendo as críticas justas e injustas. É no céu que a Igreja tem sua sede, suas esperanças e sua glória. Somos todos irmãos. O ecumenismo é um chamado para viver-se sob o mesmo teto, na mesma casa (oikos), neste mundo, prefigurando a morada celeste. É nossa liberdade e nossa responsabilidade. Na China, na Nigéria ou no Brasil, aí está o cerne do mistério pascal do cristianismo: quando o coração chora o que perdeu, o espírito já sorri do que encontrou.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Una, Santa, Católica, Apostólica…. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3871, p. 15 – 15, 2010.

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