UMA PALAVRA TERRÍVEL


(8/7/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

No evangelho de Mateus, Jesus afirma: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a Espada. De fato, eu vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra” (Mt 10, 34-36). Essa mesma espada era agitada na saída do paraíso terrestre, guardada pelos querubins (Gn 3,24). Essa mesma espada foi convocada por Salomão para dividir em dois um bebe, reivindicado como filho por duas prostitutas (I Re 3,16-28).

Jesus não levanta os familiares uns contra os outros, como em certas versões da Bíblia. As traduções recentes resgataram o sentido de dividir como “fazer dois”, “separar em dois” o que poderia se tornar um, se a espada redentora não chegasse a tempo. No sacrifício de Isaac, ao levantar sua espada-punhal, Abraão se separa de um filho que não lhe pertencia. Abraão sacrifica o vínculo possessivo e estéril com seu filho único (Gn 22). A separação torna os filhos sujeitos de seu lugar e de sua história. Os filhos sujeitos e não sujeitados, reconhecem seu lugar e o ocupam na linhagem familiar, como jovem Jesus no templo (Lc 2, 48-52). Reconhecem o lugar do pai e da mãe de forma diferenciada.

O filho não separado do pai se torna a mesma coisa que seu pai. O mesmo ocorre entre a filha e sua mãe. Se a nora for igual a sogra, isso significa que o homem, como Édipo, quis casar com a própria mãe. Essa ausência de separação e de diferenciação está na origem da desgraça de pessoas que mantém com um dos pais um estado fusional, parecido à situação intra-uterina onde dois formavam um.

Quem é a mãe, segundo Salomão? É aquela que ama seu filho mais do que sua ligação a ele. Ela toma a espada e corta, sacrifica, sua ligação com o filho para que ele viva. Eu amo mais meu filho do que o vínculo que me une a ele. A outra mãe, possessiva, é apresentada como tendo sufocado involuntariamente seu filho, por dormir com ele na mesma cama. Ao falar, a mãe verdadeira não aceita a arbitragem proposta por Salomão e, pelo amor, escreve a história, sob a sombra redentora da espada. A diferença entre “eu te amo porque você é meu” e “eu te amo porque você é seu” tem a dimensão da lâmina de uma espada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *