UM RABI DA GALILÉIA


(15/4/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nos tempos evangélicos havia samaritanos, galileus, judeus, levitas etc. A palavra judeu designava os nascidos na Judéia, assim como os galileus eram os nascidos na Galiléia. Quando tratava-se de referir-se a todo o povo hebreu, os evangelhos usam a expressão israelitas ou filhos de Israel, como faz Jesus no episódio de Natanael, no evangelho de João. Naquele tempo, judeus eram os da Judéia. Hoje, o termo judeu designa todos israelitas. Ninguém pode estender aos israelitas, as críticas feitas à classe política da Judéia, tratada como judeus nos evangelhos, principalmente no caso de João.

Para muitos Jesus era judeu, pelo alcance moderno dado a esse termo. Na verdade, Jesus era galileu (Jo 7,41-42), provavelmente de Nazaré e não da Judéia (Belém) onde escribas cristãos (de origem judeana?), situaram seu nascimento. Hoje nos evangelhos, os tradutores mais rigorosos usam a palavra judeano, ao invés de judeus. Isso evita transmitir ou estender ao conjunto do povo hebreu, críticas e episódios limitados a alguns dirigentes da Judéia, “os donos” de Jerusalém. Entre a morte de Salomão e o nascimento de Jesus, mesmo submetida a uma administração de origem judeana, a Galiléia viveu sua própria maneira de compreender as tradições israelitas.

O Primeiro Testamento foi escrito, em sua grande maioria, a partir do sul de Israel, da Judéia, com tendência a desvalorizar o que vinha do norte: monarcas julgados infiéis, templos dissidentes, cultos idólatras. Boa parte dos conflitos de Jesus com escribas judeanos podem ser entendidos – em parte – como reflexo dos esforços constantes das classes dirigentes do sul em impor sua visão religiosa à Galiléia, uma terra israelita, grega e pagã. Jesus se opõe sistematicamente ao ideal centralizador do sul. Ele exerceu o essencial de seu ministério numa Galiléia devastada pela ocupação romana e, após sua morte na Judéia, é lá que tudo recomeça (Mc 16,7).

O rabi Jesus não escreveu um evangelho. Quais foram as primeiras ou primitivas palavras de Jesus? Nunca teremos acesso às palavras autênticas de Jesus. Todas as palavras (logia) disponíveis nos dias de hoje foram “escutadas”, ouvidas e transmitidas oralmente e, posteriormente, apoiadas em anotações escritas. Os primeiros escritos cristãos não tinham a preocupação de legar às gerações futuras uma documentação de caráter histórico sobre a vida de Jesus. Buscavam testemunhar sua fé. Sempre foi mais fácil contar a história da fé cristã do que a história do cristianismo e principalmente do seu nascimento. Marcos, Mateus, Lucas, Tomé, João e tantos outros representam as várias maneiras cristãs e pós-pascais de escutar a Única Palavra.

Qual era a vida e o mundo das comunidades que deram origem aos quatro evangelhos? Como essas comunidades relacionavam-se com as diversas tendências do judaísmo? Como organizaram-se para preservar-se e crescer? O comportamento das primeiras comunidades cristãs tem sido objeto de diversos estudos científicos. Com a ampliação dos métodos e a crescente disponibilidade de fontes e materiais arqueológicos, a natureza e a forma das comunidades primitivas está sendo melhor entendida.

As comunidades cristãs primitivas não se constituíram a partir dos textos evangélicos. Pelo contrário, foram elas quem deram origem e sistematizaram os textos evangélicos, a partir do anúncio recebido. Isso é fundamental para entender-se a questão do farisianismo e do judaísmo nos evangelhos. A vida, a visão e as realidades das primeiras comunidades cristãs terminaram transpostas nos evangelhos, muitas vezes anacronicamente.

Apesar da experiência original da fé, os textos evangélicos foram socialmente construídos em contextos determinados. Nenhum texto bíblico é autônomo ou alheio aos fatos e eventos de seu tempo e à sua volta. Os evangelhos são o resultado do encontro de pelo menos duas realidades: o mundo social e o mundo do texto, da fé. Até o século IV, os cristãos falavam unicamente do Evangelho ou, em hebraico, Bessorá, o único Anúncio de Iehoshua ben Iossef (Jesus filho de José), distinguindo suas quatro partes por referência a seus autores Matyah, Marcos, Lucas e Iohanan.

Com grande fidelidade aos relatos evangélicos, Mel Gibson oferece esse mariano filme sobre a Paixão de Cristo. Durante a Quaresma, ele fez, e ainda faz, mais gente meditar do que muitas pregações. O século XX e uma cristologia muito preocupada em divinizar Jesus acabaram limpando o corpo do martirizado, representado apenas com algumas esfoladuras e gotas de sangue no rosto. O Jesus desse filme está em todos os Cristos barrocos. Imagens do Jesus enterrado por seus amigos e seguidores fariseus, Nicodemos e José de Arimatéia, e não pelos discípulos. Nas igrejas barrocas do Brasil, nas imagens do Senhor morto – num tempo em que o chicote ainda falava nos pelourinhos – pode-se contemplar um espelhar de fidelidade entre a única paixão do Jesus de Nazaré e suas imagens barrocas e holiwoodianas. O filme e as igrejas barrocas seguem altamente recomendados.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Um Rabi da Galiléia. A Tribuna, Campinas – SP, 2004.

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