UM PEQUENO CORAÇÃO


(5/9/2011)

Evaristo Eduardo de Miranda

Uma mamãe contou a seguinte história sobre seu filho Marcos, falecido aos cinco anos de idade. Com três anos, ele começou a sofrer de uma terrível doença degenerativa. A enfermidade causou a paralisia de suas pernas. Imóvel, ele foi definhando. Pouco a pouco, a enfermidade tomou conta de todo o seu corpinho. Foram meses e meses de dores e sofrimentos. E de muitas perguntas sem resposta. Seus sentidos foram falecendo, um após outro, e Marcos ficou cego. Uma noite, ao lado de seu filho, um pouco antes de sua morte, essa mãe orava.

Ela protestava em meio à dor e à revolta, como faziam os profetas e o salmista: “Meu Deus, porque nos abandonaste? Ao meu filho não foi dada a sorte de ir à escola. Ele não teve amigos, nem colegas para brincar e brigar. Ele não terá uma namorada, nem sairá com seus companheiros. Não lhe será dado de aprender uma profissão. Ele não terá um trabalho. Nada lhe foi dado. Tudo lhe foi tomado. Até a fragilidade de sua vida. E mais: sua vida não foi arrebatada. Ele a vai perdendo aos poucos, na dor e no sofrimento. Perdeu a vitalidade do sorriso, a capacidade de caminhar, a possibilidade de abraçar. Perdeu a visão. Nada lhe resta. Ele perdeu tudo…”

Naquela madrugada fria e sombria, sua mãe pensava que o pequeno Marcos dormia inconsciente. Mas ele estava acordado, ouvindo e vigilante na luz. Ele percebeu o choro de sua mãe. Entendeu suas palavras e seu sofrimento. Moveu-se ligeiramente em direção à voz de sua mãe que lamentava tantas perdas. E falou baixinho, com dificuldade: “Mãe, não chora! Eu ainda tenho um coração para te amar”.

Deus é amor e naquele que ama, o Deus infinito cabe em seu pequeno coração. A palavra latina coração, cor, está presente em miseri-cor-dia, em con-cór-dia e muitas expressões da compaixão. Em hebraico, meditar diz-se textualmente: falar ao coração. Para prestar atenção, diz-se também textualmente em hebraico, colocar o coração. No coração dessa mãe e no nosso, vivem para sempre o pequeno Marcos e muitas outras crianças, candidatas à canonização. Nas suas circunstâncias, na terna idade, eles caminharam para a eternidade. Eles foram à frente, precederam seus pais e indicam o caminho dos céus.

O pequeno Marcos, Monsenhor José Antônio Moraes Busch, D. Bruno Gamberini e todos os que amamos e que caminharam para a casa do Pai, nunca sairão de nossos corações. Sua memória e nossa esperança na ressurreição serão celebradas pela Igreja, mais uma vez, no próximo dia de Finados. Com o coração.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Um Pequeno Coração. A Tribuna, Campinas – SP, p. 17 – 17, 2011.

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