UM PAI MODERNO


(26/2/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

O vínculo do pai com a paternidade sempre foi mais problemático do que o da mãe, por razões biológicas. Somente há poucos anos, com os exames de DNA, a paternidade pode ser comprovada com certeza. Cada cultura inventou sistemas para definir a contribuição paterna numa filiação improvável. O direito romano e a tradição judaica adotaram o voluntarismo. O pai era aquele que se declarava pai, acima até da realidade biológica (Gn 30,3). O filho legítimo era propriedade do pai. A quem, ele destinaria nome e herança.

O cristianismo negou essa visão da paternidade. A Igreja primitiva compartilhava todos os bens entre a comunidade de crentes e contestou o patrimonialismo dos vínculos familiares. O cristianismo ressignificou a linguagem do parentesco: os fiéis denominam-se irmãos, o sacerdote é chamado de pai (padre), a Igreja de Santa Madre (Santa Mãe) e o papa de Santo Padre. Graças ao papel de José, esposo do Maria, no mistério da encarnação, a figura do pai biológico foi apagando-se frente à do pai protetor e educador.

O mistério da encarnação não é muito gratificante para pais proprietários da prole. José cumpre um papel de protetor de Maria e de Jesus. Ele é um paradigma para tantos pais que devem assumir filhos de casamentos anteriores das esposas, filhos adotivos e outros. Esse pai moderno, protetor e educador, é um personagem extremamente humano frente a Maria e Jesus.

O carpinteiro de Nazaré foi apresentado como modelo das virtudes cristãs pelos franciscanos. A veneração a São José foi ampliada pela reforma católica, até tornar-se, segundo Péguy, o “herói dos tempos modernos”. Para Igreja, o progenitor recebe os filhos de Deus para protegê-los e educá-los. Essa missão social é subalterna às exigências da salvação, mas dá sentido e valor à vida terrena e à paternidade.

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