UM NOVO LUGAR


(1/1/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Enquanto as crianças são pequenas nossa relação com elas não é de verdadeira filiação, mas de produção e posse. Uma criança é o produto de dois seres humanos que a fizeram e a possuem. O lugar dos filhos é a casa dos pais, o espaço dos pais. Mesmo quando os pais não se comportam como tiranos e buscam para o filho o melhor que podem, trabalham com uma imagem ideal da criança, sempre distante de sua própria verdade. De alguma forma, quanto mais os pais se aprofundam em psicologia infantil, em doutrinas pedagógicas, educacionais e até religiosas, talvez – mais ainda – essa imagem se torna idealizada. Mas um dia o filho que aprende, que compreende, faz algo a mais: surpreende. O filho muda de lugar para assumir o seu lugar. Foi o que sucedeu com Jesus, conforme conta Lucas em seu evangelho.

Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando o menino completou doze anos, ele simplesmente abandona os pais durante a festa. Somente três dias depois eles conseguem encontrá-lo com os doutores, no Templo. Escutando e fazendo perguntas. Jesus estava enfim no seu lugar ou fora de seu lugar? Ele fica em Jerusalém enquanto os pais voltavam para Nazaré. Ele não os obedece mais e é exatamente nesse momento significativo que ele se torna um filho livre. Diante da cobrança dos pais: “Meu filho, por que você fez isso conosco? Olhe que seu pai e eu estávamos angustiados à sua procura”. Jesus respondeu: “- Por que me procuravam? Não sabiam que eu devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2,48-49). Jesus evoca outro pai. O lugar desse pai é bem onde ele está: o Templo de Jerusalém. Ele se torna um verdadeiro filho ao mostrar que não lhes pertence. Jesus chega ao seu lugar, um lugar ordenado com relação ao lugar dos pais. Ele se separa e se situa com relação a seus pais. Ele não é mais uma criança coisa ou objeto que os pais levam debaixo do braço de um lugar para outro. Ele se posiciona na cadeia das gerações, após seus pais. Esse é o significado do versículo: “Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e permaneceu obediente a eles.” Ou em outras traduções “era-lhes sujeito”. O termo adequado seria “e se colocava depois deles” (upo-tasso). Separado e situado, Jesus deixa claro que ele não pertence mais a José e Maria, mas entende perfeitamente sua posição de filiação e seu lugar. Sua libertação da tutela dos pais não o leva para fora do ambiente familiar, mas para o seu devido lugar na cadeia das gerações. Quantos filhos não conseguem se situar dentro da filiação; ou se colocam no mesmo lugar dos pais ou no outro extremo de forma completamente não inscrita e não situada nas gerações que geraram sua progenitura. Nos dois casos chega-se a fusão ou confusão e sempre ao isolamento.

Quando os filhos se tornam filhos verdadeiros, os pais mudam o discurso. Longe da idéia de posse, se aproximam da Graça. “Eu tive duas filhas.” “Eu tive três filhos”. A relação de posse desaparece e cede ao sentimento de que nos foi dado ter filhos e participar da Vida.

Os filhos sujeitos e não sujeitados, reconhecem seu lugar e ocupam seu lugar na linhagem familiar. Reconhecem o lugar do pai e da mãe de forma diferenciada. Honrar pai e mãe e não honrar os pais. A Bíblia nos convoca a reconhecer cada um com seu devido peso e dimensão, mas o que h  de comum neles é que nos precederam na cadeia das gerações. Separados e situados com relação ao pai e a mãe os filhos não correm o risco de cometer os equívocos trágicos de Édipo que assumiu o lugar de seu pai, casou com a própria mãe e arrancou seus próprios olhos. Todo ser humano para se tornar verdadeiro humano, nascido de humanos, deve ter consciência e vivência de sua relação de filiação.

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