UM ESPINHEIRO EM SUA VIDA


(7/6/2012)

Evaristo Eduardo de Miranda

Na hora de eleger democraticamente seu rei, as árvores tinham diante de si três candidatos, com seus atributos de poder: a oliveira (o sagrado, a bênção), a figueira (a fecundidade, a abundancia) e a vinha (a vida). A eleição se faz à sombra de carvalhos (o divino ancorado sobre a terra) e cedros do Líbano (a força). Quem será ungido rei das árvores?

A Bíblia apresenta diversas parábolas. Livros inteiros são parábolas, como Jonas e Jó. Esta mashal está no livro de Juízes (Jz 9,7,-15). A oliveira, a figueira e a videira enxergam duas coisas nessa responsabilidade: a renúncia e a dominação que exercerão sobre os outros. Diz a oliveira: Iria eu renunciar ao meu azeite, com que se honram os deuses e os homens, para me balançar acima das árvores? Diz a figueira: Iria eu renunciar à minha doçura e aos saborosos frutos, para me balançar acima das árvores? Diz a videira: Iria eu renunciar ao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para me balançar acima das árvores?

Face à renúncia dos capacitados, todas as árvores dirigem-se a um espinheiro: Vem tu reinar sobre nós. Ele respondeu: Venham se abrigar à minha sombra; mas se não quizerem, saia fogo do espinheiro e devore os cedros do Líbano!

A sombra do espinheiro não é das mais eficazes para abrigar e proteger. É um frágil arbusto, do qual as pessoas se afastam com medo de se arranharem e que todos arrancam por ser menor e inútil. Ele não fornece óleo ou frutos, nem lenha ou madeira. Há três realidades espirituais nessa parábola: grandeza, amor e luz.

O maior não é sempre aquele que se imagina. “Os últimos serão os primeiros” (Mt 20,16). Os velhos, os enfermos, as pessoas deficientes mentais e físicas, aparecem como inúteis e frágeis, mas como o espinheiro, são capazes, a seu modo, de um fogo mais forte que nossas certezas inquebrantáveis.

O amor se vive em primeiro lugar nas pequenas coisas, no chão de nossas vidas. “Na medida em que fores grande, humilha-te em tudo e assim encontrarás graça diante de Deus” (Sir 3,18).Muitas vezes o desejo de grandeza e onipotência nos impede de viver esse verdadeiro amor, prosaico, nas pequenas coisas, no trivial.

Deus sabe o quanto seus pequeninos parecem cobertos de espinhos por não serem como todo mundo. Somos convidados a nos colocarmos à sombra dos mais pequeninos, quaisquer que sejam seus espinhos, sua idade, cultura ou condição. Por paradoxal que possa parecer, os mais frágeis, em certas ocasiões, nos colocam sob sua sombra. E curiosamente, ela não esconde a luz, mas a filtra e só deixa passar o Essencial.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Um espinheiro em sua vida. Jornal Universidade, Campinas – SP, p. 10 – 10, 2012.

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