UM ENCONTRO INESPERADO

(8/12/2008)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quantos encontros inesperados transformaram o nosso dia, a nossa semana e a nossa vida? Cada um de nós poderia fazer uma lista desses eventos que mudaram nossa trajetória, enriqueceram nossa existência e transformaram nossa visão do mundo, dos outros e de nós mesmos. Existe uma verdade ontológica nesse tema, muito presente nos evangelhos: nós não somos donos de nossos encontros. Essa constatação é cheia de consequências. Nos evangelhos, a maioria dos encontros com Jesus é inesperada. Isso não é o resultado de uma alta estratégia, elaborada nos céus, nem de uma pedagogia da conversão. A razão principal é a proximidade humana de Jesus.

O Verbo se fez carne e habitou entre nós. A maioria de nós esqueceu o quanto Jesus, em sua humanidade, aproximou-se e viveu tão perto, tão perto de nós. Lá estava ele sentado na beira do poço, tão verdadeiro; amigo das videiras, do trigo, das ovelhas, das crianças… Evocando os pardais, os lírios e as raposas; cansado, dormindo no barco, a cabeça repousando na almofada; com sede, com fome, ele era um hóspede da noite, na mesa de Lázaro, Marta e Maria, na casa de Zaqueu ou de Jairo. Caminhando na madrugada, quando se isolava para orar, ele aproximava-se com os pés molhados de orvalho e o rosto iluminado pelos primeiros raios do sol.

Hoje também, Jesus aproxima-se de nós, em nosso cotidiano. Para descobri-lo é necessária uma atitude de disponibilidade ao encontro e ao imprevisto. Rever, reler e repensar nos encontros com Jesus, relatados nos evangelhos, é um dos poucos caminhos que nos resta para encontrar Jesus em sua humanidade. A vida espiritual alimenta-se da leitura inteligente das Sagradas Escrituras. A leitura inteligente é o oposto da leitura ignorante. O convite da Igreja é para façamos da leitura inteligente da Bíblia uma fonte de vida permanente em nossas vidas.

A leitura ignorante da Bíblia não leva a Deus e sim à idolatria, ao encontro de uma imagem de Deus que as pessoas constroem: o deus-companhia de seguro; o deus-provedor de bens materiais e riquezas; o deus-vacina que imuniza contra desgraças; o deus que troca dízimos e ofertas reforçadas contra um retorno financeiro futuro etc. As pessoas constroem um deus a sua imagem e semelhança, na medida de seus desejos, a serviço de suas manipulações e ambições. E pior ainda, o vendem para seus irmãos. Isso é a idolatria por excelência. Satanás não se apresenta mais como um bezerro de ouro e sim recoberto de passagens e citações bíblicas. Satanás sempre cita a Bíblia. Foi assim, ao tentar Jesus no deserto. Ele o tenta três vezes, com três citações bíblicas. Todo cuidado é pouco com quem decora e cita muito a Sagrada Escritura, prometendo ouro e riquezas.

A inteligência na leitura da Bíblia não significa o domínio das ciências teológicas ou exegéticas. A História Santa não é uma história para nos retirar de nosso tédio cotidiano. Nem para justificar nossos delírios e ambições. A História Santa é nossa história, é a tua história. Falar dela é falar de todo coração e participar. Ela não se limita a um período ou a uma geografia particulares. Nem às páginas do Novo ou do Velho Testamento. Não nos reunimos para virar as páginas do livro da História Santa. Mas para escrevê-lo em família, em comunidade, em Igreja.

Não se trata de uma História para nos distrair do fascínio “deste” mundo, mas para nos subtrair “deste” mundo e de suas ilusões. A História de Jesus não pertence a um passado de dois mil anos atrás. Não. Ela acontece agora. Se o que foi dito naquele tempo não pode ser dito agora, perdeu o sentido. As palavras de Jesus e dos que o encontraram devem ser ouvidas, entendidas e recebidas agora e não no passado. Trata-se de palavras das quais nós devemos ser os portadores responsáveis. Ao penetrarmos no mistério do homem, seremos capazes de nos aproximarmos suficientemente do mistério de Jesus e, através dele, do mistério de Deus. Pela via espiritual, deixaremos de lado nossa concepção espontânea, panteísta e até idólatra de Deus.

A inteligência da vida humana de Jesus e de seus encontros com seus próximos, de quem ele aproximou-se e de quem eles aproximaram-se, abre o caminho para uma reapropriação da existência singular de cada um de nós, como assinala Marcel Légaut. Nossa existência pode ser confrontada à existência de Jesus e com o que viveram os discípulos dos primeiros tempos que o encontraram e quando expressaram, ainda que de forma imperfeita e empobrecida nos evangelhos, o que os habitava.

 

 

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