ULTRAPASSAR A HERANÇA


(14/12/2009)

Evaristo Eduardo de Miranda

Jesus e o cristianismo receberam uma herança particularmente viva e verdadeira: a tradição de Israel. Quem encontra Jesus, encontra o judaísmo, já dizia o Papa João Paulo II. E foi graças ao fervor recebido dessa tradição espiritual judaica que Jesus a criticou. Não apenas como fez seu primo João Batista ou ainda outros movimentos religiosos e sociológicos de seu tempo. Jesus criticou a tradição espiritual judaica num sentido muito mais profundo.

Ele firmou: a Lei não é suficiente para dizer e ditar ao homem tudo o que deve fazer para tornar-se ele mesmo. Essa crítica tão profunda levou-o rapidamente a ser condenado e eliminado. Ao cabo de poucos meses de vida pública, a fidelidade profunda às suas exigências espirituais, à sua vida interior, o levou – em certa medida – a um desastre. Como sinaliza Marcel Legaut, foi através dessa porta estreita do fracasso, um fracasso humano, que se manifestou uma fecundidade infinita da qual ainda somos os herdeiros.

Somos herdeiros e discípulos de Jesus Cristo. Isto significa estar constantemente à escuta do Evangelho, da palavra da Boa Nova, vista não apenas no nível exegético ou histórico, interpretada segundo as ciências humanas, mas à luz da própria vida espiritual de cada um. Sem vida espiritual, não existe herança, nem discipulado. Aqui reside uma grande diferença entre a tradição espiritual cristã e outras tradições religiosas ou mesmo atéias. De certa forma, é necessário viver a vida de discípulo antes de compreender, exatamente, no que isso consiste. Não bastam a doutrina, o magistério, a ortodoxia eclesial ou os ensinamentos de mestres.

Pelo mundo inteiro, a fecundidade da vida humana de Jesus ajuda homens diferentes, em tempos e lugares distintos, em universos mentais e culturais divergentes e até incompatíveis, a tomar consciência pessoalmente dessa realidade fundamental. Ela está no coração de cada um, qualquer que seja sua cor, seu país, sua raça, sua história ou sua religião.

Paradoxalmente, nisso reside a universalidade da religião e da Igreja. O universalismo, a catolicidade, preserva e exalta a identidade, a diferenciação e a alteridade de cada pessoa humana. Individualidade irredutível a ser vivida num todo (holos), holístico, num catolicismo (kat-holikós = universal) que é mais que a soma das partes e a transcende. A Igreja católica deveria sempre prefigurar a unidade na diversidade, bem além de qualquer proselitismo.

A Igreja ajuda seus membros a serem discípulos mas não é um fim em si mesma. A Igreja não é o Reino. Quem absolutiza a Igreja, de certa forma a idolatra. A Igreja é necessária, mas não é suficiente, como no tempo de Paulo a Lei era necessária mas não era suficiente. Existe uma maneira de abusar da Lei: colocar-se atrás dela, para se proteger das exigências interiores que nos são próprias. Como aponta Legaut, não podem existir maneiras de ser “fiel” à Igreja que levem alguém a deixar de ser discípulo.

A questão não é tanto a de crer em Deus, mas de ainda acreditar no homem. Jesus pode ter um papel central em nossa vida pelo que ele viveu humanamente. Ele nos abre sobre aquilo que, como ele, nós também temos de viver, de um modo completamente diferente mas fundamentalmente semelhante.

Ser discípulo de Jesus implica em criticar e ultrapassar a herança religiosa, à luz da própria vida espiritual. A vida interior é um caminho de liberdade de ser e agir. Na fidelidade e na permanência. É a possibilidade de ser totalmente si mesmo. Essa liberdade é atingida quando somos capazes de ser totalmente aquilo que era potencial em nossa humanidade. Trata-se de uma lenta maturação. De um caminho de fidelidade e de fé. “Se permaneceis na minha palavra, sois verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade fará de vós homens livres” (Jo 8,31-32).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Ultrapassar a Herança. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3868, p. 15 – 15, 2010.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *