TRES MUROS ABATIDOS


(5/4/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

A queda do muro de Berlim foi vivida como o fim de uma divisão entre povos e sistemas. Pedaços do muro foram vendidos como recordação. Mas aos poucos sua lembrança vai apagando-se. Daqui vinte ou cem anos quem se lembrará desse episódio? Talvez somente, os registros de história…

Mas existem muros cuja queda ninguém esquece. Anualmente, semanalmente, diariamente, a queda de três muros é lembrada por milhões e milhões de cristãos. Essa memória é particularmente avivada durante a Páscoa e em cada eucaristia. Por Jesus Cristo foram derrubados três muros que nos separavam de Deus: o da natureza, o do pecado e o da morte.

O muro da natureza: de um lado o divino, do outro o humano. Havia comunicação, diálogo, mas esse muro era intransponível. Cada um na sua realidade e dimensão. Até o dia em que o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1, 1-12). Até a maravilha da encarnação. No mistério da encarnação derrubou-se o muro das naturezas distintas. E se Deus se fez homem, isso significa que nós também podemos divinizar-nos. A Igreja sempre entendeu o batismo como um rito de divinização da criança. O processo continua durante toda a existência e encontra sua plenitude no face a face com Deus!

O segundo muro era o do pecado. Esse muro foi abatido na cruz, numa sexta-feira de páscoa. O fruto que Adão e Eva quiseram comer verde, por não terem a sabedoria da paciência e do esperar, ao entardecer da sexta-feira pascal caiu maduro da árvore da cruz. E foi colhido no Gólgota, pelos amigos de Jesus. Cristo morreu para nos libertar do pecado. O alcance desse amor divino ultrapassa todo entendimento humano. Somos livres do pecado por termos sido libertados do medo e, principalmente, do medo de Deus. Deus não nos ama porque somos bons, mas para que nos tornemos bons, como ensinava Santa Teresinha. Se Deus me ama assim, eu também posso amar assim!

O terceiro muro foi o da morte, abatido no domingo da ressurreição. Deus tomou carne mortal para lutar e vencer a morte (2Co 5,14). A morte atacou Jesus, devorou-o como fazia de costume com todos os mortais, mas não pode absorvê-lo porque nele havia Deus, e é assim que ela foi morta. Como proclamamos na liturgia pascal: morrendo ele destruiu a morte. Ele provou a morte em benefício de todos (Hb 2,9). Ou seja, se um morreu por todos, logo todos morreram (2Co 5,14).

Os escombros desses muros ainda podem dificultar a união mística com Deus. É verdade que muitos, ao invés de levantarem-se na totalidade de suas estaturas, preferem abaixar-se atrás das pedras da falsa segurança, esconder-se nas ruínas do passado ou fugir para as cavernas da ilusão. Ou, pior ainda, construir novos muros divisórios baseados no poder, riqueza ou saber.

Em Cristo, a morte mudou de nome e de natureza. Agora ela é uma passagem para o Pai. Nascemos para poder morrer (S. Gregório de Nissa), para poder passar à plenitude de nossa humanidade, pela ressurreição. Tudo começa aqui, na Terra (Lc 10,10; Fp 4,3; Ap 20,15), mas quando eu chegar lá, aí então é que serei homem (Santo Inácio de Antióquia), na plenitude de todas as minhas dimensões. O céu, a casa do Pai, o reino do amor ou o paraíso são sinônimos do Deus Amor e do Cristo Ressuscitado. Não se trata de um lugar, mas de uma situação. Estaremos no amor de Deus, penetrando completamente no seu mistério. Seremos homens como Deus. No sentido de sermos, enfim, a plenitude de sua imagem e semelhança (Gn 1,26), na totalidade de nossa condição de filhos de Deus.

A cada amanhecer ou entardecer, a cada partilha do pão, a cada rosto humano, a cada meditação podemos lançar um olhar ao Infinito e agradecer. Dos muros que nos separavam, do Absoluto e de nós, só sobraram ruínas.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Três muros abatidos. A Tribuna, Campinas – SP, p. 3760, 1999.

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