TRABALHO PÚBLICO


(30/8/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Vamos ao trabalho. A palavra grega para trabalho encontra-se em expressões como ergonomia, taumaturgo, dramaturgia e também liturgia. Textualmente em grego, a palavra liturgia significa um trabalho público, em favor do povo (laos). Governos até trabalham pelo interesse público. Religiões sempre o fazem. A Igreja Católica é especialista e tem experiência milenar no assunto. Quando ela se mobiliza para instalar um milhão de cisternas, para garantir água aos pobres do semi-árido nordestino, faz liturgia. Quando organiza casas e locais para acolher crianças abandonadas, idosos desamparados e pessoas com AIDS, a Igreja vive e trabalha em favor do povo.

Para a tradição judaica e cristã, o trabalhador público por excelência é o Senhor. Ele criou o Humano por amor e trabalha pelo seu bem, desde a obra da Criação até os dias de hoje. Nessa liturgia, Deus busca a parceria dos homens. Deus e seus parceiros – profetas, patriarcas, líderes, sábios, humildes… – trabalham em favor do povo. Foi assim com o povo de Israel. Para a tradição cristã, no mistério da encarnação, Deus se fez homem, habitou entre nós e fez a maior de todas as obras em favor do seu povo, não apenas o de Israel, mas para toda a humanidade.

Esse trabalho em favor do povo sempre foi marcado por momentos celebrativos na tradição de Israel: as grandes festas anuais com suas liturgias próprias (Páscoa, Pentecostes…), as celebrações semanais (shabat) e diárias com liturgias marcadas por símbolos, gestos, orações, leitura de salmos, cânticos etc., seguindo ritos unificadores Assim, para a Igreja, existem duas dimensões litúrgicas: a vivida (horizontal) e a celebrada (vertical). Os momentos celebrativos (eucaristia, liturgia da palavra, funerais cristãos, batismo etc.) anunciam e comprometem na vivência. A vivência litúrgica testemunha a gratidão a Deus e à sua obra por todos nós. A prática das duas dimensões forma uma cruz.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Trabalho Público. A Tribuna, Campinas – SP, p. 11, 2006.

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